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quinta-feira, 29 de março de 2012

VI ENCONTRO DE CERAMISTAS EM PARATY


O Partido, a cultura e os intelectuais nos anos 1940 e 1950





"(...) nosso partido surge na vida de nossa Pátria como a expressão das forças mais jovens da liberdade e da cultura e para as quais dirigem-se a ciência, a literatura e a arte de vanguarda, no constante combate que trava para o progresso e o aperfeiçoamento da civilização" Pedro Pomar in Partido Comunista e a liberdade de criação, 1946.

Por Augusto Buonicore*


O papel central desempenhado pelos comunistas na luta contra o nazifascismo no Brasil e no mundo atraiu a simpatia de parcelas significativas da intelectualidade brasileira. O prestígio da URSS e de Luiz Carlos Prestes, o "Cavaleiro da Esperança", estava no seu auge. A partir de meados da década de 1930 artistas e intelectuais começaram a acorrer em massa ao Partido, que representava as aspirações mais avançadas da humanidade.

Mesmo durante a ditadura do Estado Novo (1937-1945) os comunistas mantiveram sob sua direção algumas publicações importantes que dedicavam grande espaço ao problema da cultura nacional. A revista Seiva, lançada na Bahia em 1938, foi uma das primeiras publicações de esquerda criadas após o Golpe de Estado de Vargas. Foi criação dos jovens comunistas João Falcão, Rui Facó, Armênio Guedes, Diógenes Arruda e Jacob Gorender. Nela, por exemplo, foi publicada a “Mensagem à inteligência da América” que convocava "todos os intelectuais do continente para união e a confraternização em defesa da cultura e do progresso da humanidade", contra o fascismo. Naquele estado nordestino existia a seção mais ativa do PC do Brasil, pois a repressão havia atingido duramente o Partido no Rio de Janeiro, São Paulo e Pernambuco.

Contudo, a revista baiana foi fechada em 1943, após a publicação de uma entrevista com o general antifascista Manoel Rabelo, presidente da Sociedade Amigos da América, na qual criticou duramente o general Eurico Gaspar Dutra, ministro da Guerra de Vargas. Acusava-o de se preocupar mais com os comunistas do que com os nazifascistas, com os quais estávamos em guerra. Criticava também o atraso no processo de constituição da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Não podendo prender o prestigiado oficial, o governo colocou na cadeia os editores e jornalistas de Seiva, João Falcão, Wilson Falcão e Jacob Gorender.

A principal publicação comunista a circular no final do Estado Novo foi a Continental, dirigida por Armênio Guedes e na qual colaboravam Milton Caires de Brito, Rui Facó, Mário Alves, Maurício Grabois, Edison Carneiro, entre outros. Depois de 1943 ela passou a ser o porta-voz oficioso da Comissão Nacional de Organização Provisória (CNOP) do PC do Brasil, defendendo sua política de "União Nacional" e de "pacificação da família brasileira", como condição para se enfrentar com sucesso a guerra contra as potências nazifascistas. Apesar de sua postura pró-Vargas, a revista acabou sendo fechada em 1944, na última grande investida repressiva do Estado Novo contra o Partido Comunista.
A Associação Brasileira de Escritores (ABDE) foi criada em 1942 por intelectuais progressistas. Em pouco tempo, os comunistas tornaram-se majoritários na direção da entidade. Eles também se envolveram na criação da União dos Trabalhadores Intelectuais (UTI), da qual participavam todas as categorias – assalariadas ou não – ligadas ao trabalho não-manual, como médicos, engenheiros, advogados, jornalistas, escritores, artistas etc. O objetivo era aumentar a participação destes setores no processo de democratização que vivia o país nos estertores do Estado Novo.
Visando a divulgar suas ideias, o Partido Comunista construiu uma ampla rede de informação que abarcava oito jornais diários nos principais estados brasileiros: Tribuna Popular (RJ), Hoje (SP), O Momento (BA), Folha do Povo (PE); O Democrata (CE) e Tribuna Gaúcha (RS); O Estado de Goiás (GO) e Folha Capixaba (ES). Para alimentar esses inúmeros órgãos de imprensa, criou-se uma agência de notícias própria: a Interpress. Ela também distribuía informações para pequenos jornais do interior, que não eram ligados aos comunistas.

O principal jornal comunista era, sem dúvida, Tribuna Popular, que possuía uma tiragem de 30 mil exemplares e chegou a atingir no seu auge, em 1946, cerca de 50 mil exemplares diariamente, igualando-se aos jornais mais vendidos no período. Ressurgiu também o tradicional jornal A Classe Operária, órgão oficial do Comitê Nacional do Partido Comunista do Brasil.

No cenário cultural brasileiro cumpriram um importante papel as revistas: Fundamentos, de cultura moderna, Paratodos, Horizonte e Literatura – esta última dirigida pelo veterano dirigente Astrojildo Pereira. Todas hegemonizadas por artistas e intelectuais comunistas. Existiam também outras revistas regionais, como Artes Plásticas, Temário, Seara, Presença. O PCB publicava ainda Momento Feminino, Terra Livre, Emancipação, Divulgação Marxista, Revista do Povo.

Entre 1944 e 1947 os comunistas retomaram uma atividade editorial intensa e sistemática. Leôncio Basbaum foi encarregado de organizar uma editora. Nascia, assim, o Editorial Vitória que desempenharia um importante papel nas décadas de 1940 e 1950, colaborando para a construção de uma cultura socialista entre nós. Logo nos primeiros anos, publicou Contos de Natal de Dickens; A mãe de Máximo Gorki; entre outros títulos importantes. Nos anos 1950 lançou a coleção Romances do Povo, da qual a coordenação coube a Jorge Amado. Parte significativa das obras editadas era de autores soviéticos. Entre os brasileiros o destaque coube ao livro A hora próxima de Alina Paim, que vendeu os 10 mil exemplares da primeira edição.

Em 1947 a direção nacional do PCB colocou em circulação a revista teórica Problemas. Sua tiragem chegou a oito mil exemplares. Ela também se caracterizou nesses anos pela pouca atenção dada ao Brasil e pelo excesso de artigos de autores comunistas estrangeiros, especialmente soviéticos e do Leste europeu. A publicação resistiu até meados da década de 1950.

Este foi, sem dúvida, o período de maior influência dos comunistas entre os intelectuais brasileiros. O PCB adotou uma política cultural ampla e não sectária. Em 1946, os comunistas Pedro Pomar e Jorge Amado publicaram O Partido Comunista e a liberdade de criação, uma coletânea de artigos e discursos. Nela, Jorge Amado escreveu: "O PC do Brasil pode se orgulhar de ter tido nos últimos 15 anos (...) o melhor apoio e incentivo dos escritores e artistas". E continuou: "Nunca, jamais, o Partido deixou de jogar todo o peso de sua influência para apoiar, sem sectarismos partidários, a literatura e as artes modernas no Brasil (...). Jogamos na batalha pela sua vitória porque sabíamos que esta era uma batalha nossa, uma batalha também contra o fascismo".

Pedro Pomar, por sua vez, afirmou: "nosso partido surge na vida de nossa Pátria como a expressão das forças mais jovens da liberdade e da cultura e para as quais dirigem-se a ciência, a literatura e a arte de vanguarda, no constante combate que trava para o progresso e o aperfeiçoamento da civilização". Este amor pela arte e a cultura modernas não se estendia às correntes abstratas e formalistas, combatidas duramente pelos comunistas.

Seguindo nesta trilha, o jornal Tribuna Popular trazia uma concorrida seção cultural semanal de três páginas. Nela se publicavam autores não-filiados, mas que, segundo os editores, "divergiam honestamente dos comunistas". Entre estes se encontravam Gilberto Freyre, Sérgio Buarque de Holanda, Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade, Vinícius de Moraes e Orígenes Lessa. Eram também publicados textos de escritores assumidamente comunistas, como Jorge Amado, Graciliano Ramos e Astrojildo Pereira.

O nome do poeta Carlos Drummond de Andrade constou entre os seus primeiros diretores – função da qual se afastou logo em seguida, por não concordar com a posição dos comunistas contrária à derrubada de Vargas. Drummond defendeu a candidatura presidencial do Brigadeiro Eduardo Gomes (UDN). Mas, para o senado, votou em Prestes.

O escritor Monteiro Lobato também se aproximou do Partido. Enviou uma saudação a Prestes no comício apoteótico realizado no Anhangabaú, em 1945, e publicou um folheto simpático ao "Cavaleiro da Esperança", intitulado Zé Brasil. Neste pouco tempo de legalidade, vários intelectuais foram candidatos pelo Partido Comunista. Entre eles, Cândido Portinari, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Caio Prado Jr. etc. Prestes convidou Carlos Drummond de Andrade para compor a lista de candidatos comunistas, mas ele recusou. A mesma coisa aconteceu com o escritor Monteiro Lobato.

Os artistas plásticos ilustravam jornais, revistas e outras publicações e colaboravam ativamente nas campanhas eleitorais. Passaram por essa experiência nomes como Di Cavalcanti, Carlos Scliar, Mário Gruber, Clóvis Graciano, Paulo Werneck e Edíria Carneiro. Organizaram clubes de gravuras por todo o país e montavam exposições de artistas vinculados ao Partido Comunista, como a ocorrida em 1945. Desta fizeram parte Portinari, Pancetti, Santa Rosa, Bonadei etc.

A revista comunista Literatura, do primeiro semestre de 1947, foi dedicada ao centenário do poeta Castro Alves. Este número publicou um manifesto da intelectualidade brasileira que afirmava: "Sem dúvida, a melhor forma de comemorar o centenário de Castro Alves consiste em reafirmar a fé patriótica que emerge do conteúdo da sua obra patriótica e democrática que emerge do conteúdo de sua obra como programa permanente de pensamento e ação ao serviço do povo". Este foi o manifesto mais expressivo que a intelectualidade brasileira já havia produzido até então. Dela eram assinantes cerca de 300 intelectuais, entre os quais, Afonso Arinos de Mello Franco, Astrojildo Pereira, Caio Prado Jr., Carlos Drummond de Andrade, Graciliano Ramos, Manuel Bandeira, Otto Maria Carpeaux, Cândido Portinari, Hélio Peregrino, Sérgio Milliet, José Lins do Rego, Eneida, Prado Kelly. Este também foi o último documento da frente única cultural criada no final do Estado Novo.

Os comunistas chegaram a ingressar no complexo mundo das artes cinematográficas e produziram diversos documentários de curtas-metragens sobre as atividades do Partido. Ruy Santos criou uma empresa chamada Liberdade Filmes. Esta produziu Comício – São Paulo a Luiz Carlos Prestes e 24 anos de luta, ambos dirigidos e fotografados pelo próprio Ruy Santos. O último deles tinha roteiro de Astrojido Pereira, era narrado por Amarílio Vasconcelos e musicado por Gustav Mahler. Dele constavam depoimentos de Astrojildo, fundador do PCB, do escritor Jorge Amado e de outros comunistas históricos. Infelizmente a única cópia conhecida deste filme foi apreendida durante o governo Dutra e se encontra desaparecida.
Nelson Pereira dos Santos, então jovem militante, dirigiu dois documentários: Juventude e Atividades Políticas em São Paulo. Os comunistas chegaram a produzir filmes de longa-metragem como Estrela da Manhã (1950) – com argumento de Jorge Amado, roteiro de Ruy Santos e direção de Jonald Santos, e músicas do maestro Radamés Gnattali e Dorival Caymmi. Envolveram-se até mesmo numa coprodução com a República Democrática Alemã intitulada Rosa dos Ventos, baseada num texto de Jorge Amado.

Os comunistas foram os principais animadores do movimento cineclubista. No Clube de Cinema da Bahia, dirigido por Walter da Silveira, se formaram diretores como Glauber Rocha. Chegaram até a organizar uma empresa para distribuir filmes, a Tabajara Filmes. 

Esta situação foi sensivelmente alterada com o fechamento do Partido (1947), a cassação dos mandatos parlamentares (1948) e o acirramento da guerra fria no início dos anos 1950. A política cultural do PCB se tornou mais estreita, acompanhando a linha do Manifesto de Agosto de Prestes, publicado em 1950. O crescimento desse sectarismo no Brasil coincidiu com o predomínio das ideias de Jdanov na política cultural soviética, que buscavam estabelecer um modelo artístico rígido e único: o realismo socialista. Tivemos, então, o afastamento gradual de inúmeros intelectuais e artistas brasileiros do campo de influência comunista. Isso ocorreu com Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Érico Veríssimo, Otto Maria Carpeaux. Álvaro Lins, Alceu Amoroso Lima, entre outros.

Um dos marcos desse dramático processo de cisão ocorreu durante a reunião que elegeria a nova direção da Associação Brasileira de Escritores, realizada em março de 1949. Surgiram, pela primeira vez, duas chapas: uma apoiada pelos comunistas e outra pelos setores liberal-democráticos. Desta última, participavam Carlos Drummond de Andrade, Manuel Bandeira, Afonso Arinos de Melo Franco, Otto Maria Carpeaux, entre outros – grande parte deles havia assinado o manifesto de 1947 e apoiado candidatos comunistas. Os participantes chegaram a entrar em confronto físico pela ata da reunião. Carlos Drummond acabou sendo agredido durante a escaramuça. Os comunistas ganharam a eleição, mas a entidade se esvaziou, perdeu seu caráter plural e unitário – de frente única cultural. Levariam alguns anos para que o mal fosse remediado.

Intelectuais paulistas não-comunistas, como Antônio Cândido e Sérgio Milliet, passaram a ser tachados pela revista Fundamentos de "escória cultural da terra, em que pontificam tarados, renegados, lumpens e até mesmo alguns retardados mentais". Um artigo emblemático desta fase foi o de Osvaldo Peralva, intitulado "Os intelectuais que traíram o povo", publicado na revista Paratodos. Sobre Manuel Bandeira ele afirmou: "anticomunista raivoso, para quem a lealdade jamais constituiu uma pedra no meio do caminho". O crítico comunista Emílio Carrera Guerra, referindo-se ao grande poeta, escreveu: "Essa doença que lhes faz ver tudo negro, num mundo de problemas e contradições sem saída, é próprio de sua gente, da classe podre, arcaica, degenerada e moribunda".

Magoado com as atitudes dos comunistas contra ele, desabafou o poeta Manuel Bandeira: "Houve um tempo em que vi com bons olhos os nossos comunistas (...). O episódio da ABDE me abriu os olhos. Hoje sou insultado por eles ao mesmo tempo em que sou tido como comunista por muita gente". Drummond escreveu em seu diário: "eles pouco entendiam o nosso ponto de vista (...). A ideia de uma associação de escritores livres, sem direção sectária, parece inconcebível para eles, que, em vez de convivência pacífica, preferem assumir o domínio pleno da organização".

A crise se agravou ainda mais em 1956, quando no XX Congresso do PCUS Kruschev apresentou seu relatório secreto denunciando os crimes de Stálin. Este teve um impacto devastador sobre parcelas da intelectualidade partidária. O próprio Jorge Amado escreveu no jornal Imprensa Popular: "Sinto a lama e o sangue em torno de mim". Vários intelectuais abandonaram o Partido ou dele foram afastados. Uns, como Osvaldo Peralva, passaram por uma fase marcadamente anticomunista.

No início da década de 1960 começou a se forjar uma nova frente única de intelectuais progressistas. Desta vez em torno do projeto nacional-reformista, que teve como um dos seus principais momentos a luta pelas reformas de base durante o governo de João Goulart. Na ocasião formou-se o Comando dos Trabalhadores Intelectuais (CTI) que, ao lado da CGT e da UNE, buscava vanguarderar a formação de uma frente nacionalista pró-reformas. Esta foi a época áurea do teatro de Arena, do CPC da UNE, da série Cadernos do Povo Brasileiro e Violão de Rua, da editora Civilização Brasileira, comandada por Ênio da Silveira. Estes foram marcos desta efervescência cultural existente no país às vésperas do golpe militar de 1964.

No entanto, naquele momento, o movimento comunista estava em meio a um processo de cisão. O Brasil passou a ter, desde 1962, dois partidos comunistas: o PC Brasileiro (PCB) e o PC do Brasil (PCdoB). A maior parte dos artistas e intelectuais optou pelo PC Brasileiro. Esta agremiação, com forte viés reformista, se tornou hegemônica nos meios culturais brasileiros durante a década de 1960. Os desdobramentos do golpe, as repetidas cisões e as derrotas políticas sofridas, levariam que o PC Brasileiro também fosse perdendo gradualmente o seu espaço junto ao mundo cultural para outros movimentos e organizações, como o PT. Esta, no entanto, já é outra história.

* Augusto C. Buonicore é historiador, secretário-geral da Fundação Maurício Grabois e membro do Comitê Central do PCdoB.

Bibliografia

BRANDÃO, Gildo Marçal. “Sobre a Fisionomia Intelectual do Partido Comunista (1945-1964)”. In: Lua Nova, jul-set, nº 15, Rio Grande do Sul: Marco Zero, 1988.
COUTINHO, Carlos N. “Os intelectuais e a organização da cultura no Brasil”, Temas de Ciências Humanas, nº 10, São Paulo, 1981.
KONDER, Leandro. A democracia e os comunistas no Brasil. Rio de Janeiro: Graal, 1980.
______________. Os intelectuais brasileiros e a cultura. Belo Horizonte (MG): Oficina de Livros, 1991.
MORAES, Dênis de. O Imaginário Vigiado – A Imprensa Comunista e o realismo socialista no Brasil (1947-53). Rio de Janeiro: José Olympio, 1994.
RUBIM, Antônio Albino C. Marxismo, cultura e intelectuais no Brasil, Salvador (BA): Centro Editorial e Didático da UFBA, 199

Mateus Beatle: Galpão Cultural de Assis prestes a ser fechado



por Mateus Beatle
Como cidadão morador de Assis, gostaria de compartilhar com vocês, leitores do Viomundo, a denúncia deste verdadeiro atentado contra a cultura dessa cidade paulista.
Assis, no interior de São Paulo, está prestes a perder um importantíssimo espaço de difusão cultural – o Galpão Cultural. O local é mantido por ONGs, através de gestões coletivas, e, em 2010, passou à condição de Ponto de Cultura, em convênio firmado com o Ministério da Cultura.
Motivo: o prefeito do município,  Ézio Spera  (DEM), deixou pagar de pagar os alugueis do imóvel em que o Galpão está instalado. Em função disso, já recebeu notificação de despejo, o que deve ocorrer até maio.
Fachada do Galpão Cultural
Para comprovar, basta acessar o site do Galpão, onde estão registradas as inúmeras e atividades que lá acontecem.
Na semana passada, precisamente no dia 21/03/2012, houve uma manifestação, em frente à prefeitura do município, como forma de denunciar o iminente despejo, e consequente término do espaço. Durante o ato, alguns dos trabalhos desenvolvidos  lá foram apresentados (roda de capoeira de Angola, apresentação da oficina de ritmos, etc.) e distribuídos panfletos informativos sobre a questão toda.
À imprensa  local o  pessoal do Galpão Cultural distribuiu para a imprensa local:
O Galpão Cultural foi criado em 2006 para sanar a necessidade de cinco coletivos culturais e diversos artistas que necessitavam de um espaço, seja para guardar seus equipamentos, realizar oficinas, reuniões, eventos, enfim, ser um dispositivo de cultura no município de Assis.
Com o passar de 3 anos de muita dificuldade para pagar o aluguel deste espaço, o coletivo gestor do Galpão Cultural resolveu procurar o Executivo Municipal para firmar um convênio, o que se deu por um período de um ano.
Com o desenrolar deste ano que fomos subsidiados pela Prefeitura Municipal, conseguimos aprovar inúmeros projetos e obter reconhecimento federal e estadual para o trabalho que realizamos, fato este comprovado com os prêmios de Ponto de Leitura e Ponto de Cultura, além do edital Loucos pela Diversidade, prêmio Arthur Bispo do Rosário e inúmeras premiações do Programa de Ação Cultural (PROAC). Infelizmente nenhum destes nos permite arcarmos com o aluguel do espaço.
Com a finalização do convênio, encaminhamos um ofício ao prefeito municipal Ézio Spera em maio de 2010 (ainda não respondido oficialmente) solicitando a continuidade do convênio. Amargamos diversos meses tentando nos reunir com ele, até que quando conseguimos, o mesmo pactuou conosco que faria tal pagamento, o que posteriormente foi descumprido e inúmeros problemas de ordem burocrática foram levantados. Mesmo respondendo a todos os problemas levantados, tal renovação do convênio não foi firmada.
Vendo o desinteresse da Prefeitura Municipal em solucionar nosso problema, resolvemos dialogar com a nova diretoria da Fundação Assisense de Cultura (FAC), que durante a sua primeira reunião conosco se prontificou em fazer o pagamento. Contudo, mesmo se passando quase um ano, nenhum convênio foi firmado e nenhum mês de aluguel foi pago. Além disso, já foi aprovado no Conselho Curador da FAC que tal convênio deveria ser firmado.
Recentemente a FAC elaborou uma proposta para o pagamento do aluguel que a proprietária recusou. Tal proposta, segundo a Diretora Executiva da FAC, poderia ser complementada por recursos da prefeitura e, segundo a mesma nos informou no dia 15/03, a complementação da prefeitura não foi aprovada.
Diante da proposta não aceita pela proprietária e da não complementação da prefeitura municipal, a proprietária do imóvel solicitou que desocupemos o imóvel em, no máximo, 2 meses, pois a mesma já não recebe há quase 2 anos.
Assim, o fechamento do Galpão Cultural será o fim de um espaço cultural que congrega grupos totalmente diversos em respeito mútuo. O Instituto do Negro Zimbauê, a Associação dos Usuários, Familiares e Amigos da Saúde Mental (Pirassis) e o Circuito de Interação de Redes Sociais (Circus), além de outros grupos culturais, ficarão sem sede própria. Diversas oficinas deixarão de ser oferecidas na cidade. A cidade de Assis perderá seu único Ponto de Cultura, convênio com o Ministério da Cultura, e consequentemente uma referência nacional. O Galpão Cultural terá que devolver R$ 60.000,00 ou mais ao Ministério da Cultura (dinheiro este que não pode ser utilizado para pagamento do aluguel). Um investimento de cerca de R$ 200.000,00 em mobiliário e em bens adquiridos será menosprezado. Instrumentos, livros, equipamentos sonoros e de luz, arquivos e filmes adquiridos com recursos federais ou conseguidos por premiações ou via editais não terão onde ser armazenados. A Biblioteca Comunitária será fechada. O Complexo Prudenciana e a cidade como um todo perderão mais um espaço cultural aberto e democrático. Cerca de 10 pessoas perderão parte de sua renda gerada através do trabalho ali realizado. Mais de 10 grupos/bandas/conjuntos perderão o local onde têm por hábito ensaiar. Deixará de existir o espaço cultural da cidade que mais articulou eventos nos últimos anos de forma independente.
Além disso, durante os seus 6 anos de existência, o Galpão Cultural já contou com a participação de mais de 20 grupos em sua gestão, sendo esta coletiva. Tem um fluxo de mais de 100 pessoas semanalmente, chegando a um fluxo de 5.000 pessoas semestralmente ao contabilizar seus eventos. Contabiliza mais de 5.000 pessoas frequentadoras do espaço. Já trouxe à Assis mais de 5 apresentações internacionais. Já trouxe à Assis cerca de 50 grupos artístico-culturais nacionais. Realiza há 6 anos oficinas culturais diárias e eventos culturais esporádicos. Já acolheu estagiários em cumprimento de créditos em disciplinas universitárias. Já recebeu e acolheu pessoas em cumprimento de medidas sócio-educativas. Acolhe grupos que desenvolvem culturas tradicionais reconhecidas como patrimônio cultural brasileiro.

segunda-feira, 26 de março de 2012

Capoeira brasileira leva sua magia à Palestina





Sob um enorme toldo na Cidade Velha de Jerusalém oriental, cerca de 20 crianças e adolescentes palestinos se movimentam ao som dos instrumentos da capoeira. Esta expressão cultural brasileira que mistura dança, acrobacia e artes marciais está lançando raízes na Cisjordânia.

“Na capoeira encontram um espaço seguro onde despejar a energia e a agressividade. Há muito que aprender sobre o controle de nossos movimentos, de nós mesmos e da capacidade de nos expressarmos, e além do cuidado dos que estão à nossa volta”, explica o professor, brasileiro, Jorge Goia, responsável pela turma. “Por ser um tipo de arte marcial, exige grande disciplina para ser parte de um grupo e atuar em conjunto. Creio que tem um impacto muito forte nos rapazes”, acrescentou.

A organização não governamental Bidna Capoeira (queremos capoeira, em árabe) começou a dar aula para meninos, meninas e jovens, em março de 2011, em acampamentos de refugiados da Cisjordânia. Cerca de 800 pessoas já participaram do programa. Hoje os cursos acontecem nos acampamentos de refugiados de Shuafat, em Jerusalém oriental, e Jalazone, em Ramalá, centro da Cisjordânia. E se mantém o objetivo de empoderar os jovens e oferecer-lhes um espaço saudável e positivo para desafogarem suas frustrações.

“A capoeira pode ser uma poderosa ferramenta para que as crianças potencializem a confiança em si mesmos e o sentido de pertinência. Pratica-se em grupo e precisa de gente cantando e tocando, e é assim que se cria a ideia de que se é parte de algo e de que todos se ajudam a se desenvolverem e aprender”, explicou Goia à IPS. Ahmad, o filho de seis anos de Sahar Qawasmeh, começou em fevereiro as aulas de capoeira na Cidade Velha. “É algo novo. Ele fez caratê e natação, mas a mudança é boa”, disse o pai, morador em Beit Hanina, Jerusalém oriental. “Já tinha visto algumas apresentações. Ahmad toma consciência de sua fortaleza e gosta”, disse à IPS.

O impacto é evidente, segundo Ilona Kassissieh, oficial de informação pública da Agência das Nações Unidas para os Refugiados da Palestina, que colaborou com a Bidna Capoeira na organização das aulas nos acampamentos da Cisjordânia. “As crianças aprenderam bem e se mostram entusiasmadas por conseguirem avançar rápido”, destacou. Oferecer atividades extracurriculares às crianças que moram nos acampamentos de refugiados abre uma oportunidade para fugir das dificuldades diárias.

Kassissieh relatou que “os refugiados, em geral, e as crianças, em particular, pertencem a um setor vulnerável por viverem circunstâncias muito difíceis. A infraestrutura não ajuda a receberem os elementos necessários para terem uma vida normal. Este tipo de atividade extracurricular sempre é benéfico e deixa um impacto positivo. Cria um mecanismo de sobrevivência que lhes permite pensar a partir de outras perspectivas e também direcionar suas energias para algo que gostam e sobre o que desejariam saber mais”.

Além disso, Goia lembrou que a história da capoeira como movimento de base das comunidades oprimidas do Brasil permite uma conexão direta com os palestinos, que sofrem a ocupação e o domínio de Israel. “A capoeira foi criada por escravos no Brasil, que se serviram dela para se fortalecer, ganhar confiança em si mesmos e assim enfrentar todas as necessidades que se tem quando se vive em condições de opressão”, explicou o professor. “O interesse está em escapar e em aprender a lidar com uma situação na qual se é o lado fraco. Sem nenhum tipo de arma, apenas com seu corpo. Como fazer para sobreviver? Como se pode escapar da opressão?”, questionou.
 

Fonte: Envolverde/IPS
 

domingo, 25 de março de 2012

Museu da Cachaça - Paty do Alferes RJ - BLOG TURISMO VALE DO CAFÉ

Uma das atrações de Paty do Alferes é o Museu da Cachaça, o primeiro no gênero no país. Seus idealizadores inauguraram o Museu em 1991, sendo necessários anos de pesquisas em bibliotecas e colecionando algumas centenas de garrafas compradas em todos os cantos do Brasil. O acervo é vasto e peculiar, possui quadros, coleções de crônicas e artigos, livros especializados, trovas populares, um antigo mini alambique, dentre muitos outras atrações, que compõem a importante história da cachaça. No Museu também estão instaladas uma indústria artesanal de aguardente, duas adegas e um bar para degustação gratuita.
O Museu está aberto todos os dias: de 9:00 às 17:00hs
End.: Rua Nova Mantiquira 227 - Mantiquira
Tel.: (24) 2485.1475

quinta-feira, 22 de março de 2012

Novos Talentos: Gustavo Cabral


"Minha doce angústia", uma das tantas poesias do Blog "Palavras em Vão" (palavrasev.blogspot.com) de Gustavo Cabral, poeta novo de Barra Mansa. Uma sociedade cresce com Poetas , Pintores, atores e atrizes atuantes em todos os cenários, incluindo o POLÍTICO!, uma sociedade sem Arte, é uma Sociedade sem Alma... e Barra Mansa só tem a crescer com os novos Talentos que estão aparecendo, Parabéns Gustavo continue sempre a escrever e faça sua sociedade refletir e florescer com sua participação/contribuição Poética.


        Minha doce angústia.

O vento carregará as folhas para longe
Assim como leva o desnecessário
Compensa com esperanças 
Esquenta um café

Escreve juras e promessas 
Para alguém que está distante
Trilha bosques 
Desconhece desvaneios

Um presente feito 
Com esmero é mais aguardado
Do que uma jóia cobiçada
Quando oferecido com amor

Do lado imaginário
Tem uma caixa
Onde há surpresas 
Não desvendadas

Dança consigo mesmo
Tendo como parceiro o vento
Que deixa seu corpo trêmulo e vazio
                                              Sabendo levar ao horizonte. 

Urariano Mota: Oração por Chico Soares, Canhoto da Paraíba






(Fecho os olhos, para melhor falar, abro-os e ergo-os para um céu deserto de tudo, até da esperança. E por isto mesmo, por mais sem razão e sem nexo, o peito que desejaria gritar, fala e balbucia baixinho, ainda que seja inútil o afã de encontrar uma razão para o que vejo.)




Minha Nossa Senhora do Perpétuo Socorro mostrai que sois verdadeiramente mãe de todos artistas caídos em desgraça na terra.

Existe um homem que é grande no tocar, existe um sereno e augusto artista que é largo e alto de coração, existe um violonista de nome Francisco Soares de Araújo, que a simplificação da gente achou por bem chamar de Canhoto da Paraíba. 

Minha Nossa Senhora, esta súplica seria inútil se tivésseis a graça de ouvi-lo um só minuto. Então saberíeis como ele transporta o céu para a brutalidade e para a angústia de todos animais que somos.

Então sorriríeis com ele, e como ele, porque irradiante e empática e comungante sempre foi a sua ventura no tocar. Esta prece poderia ser tão-só e somente um insulto à dignidade de Francisco Soares de Araújo, se Canhoto da Paraíba não se encontrasse no estado e no ânimo em que se encontra. Sabei, erguida e nobre Senhora dos sonhos dos desesperados, sabei que Canhoto se acha numa cadeira de rodas, com a voz falha, e todo lado esquerdo do corpo, e toda a mão esquerda, cruel e certeira maldição, paralisada.

(É assim que a Providência castiga os bons da alma? Se um homem canta pela mão esquerda, será ela a ferida? Se um artista se expande pela voz, será na garganta o seu câncer?).

Sabei, Senhora, que Canhoto mal falando, a tropeçar nas sílabas, como uma grande criança que cresceu para ser coroada por uma cadeira de rodas, sabei, Senhora, que Canhoto ainda assim sorri. Com quase o mesmo sorriso com que o vi um dia, à luz do dia, ao meio-dia na Avenida Guararapes. Com este assim:

O guitarrista Pedro Soler, aquele mesmo guitarrista flamenco a quem Miguel Angel Astúrias declarou, “os teus dedos, Soler, são os cinco sentidos da guitarra”, este Pedro um dia esteve no Recife, em 1975. E disse, “Canhoto da Paraíba é um dos três grandes guitarristas do mundo”. E por ser lembrado dessa referência, ao ser encontrado na Avenida Guararapes, Canhoto assim respondeu, com o mesmo sorriso de menino bom, que agora insiste na paralisia em que se encontra, com o peito bom de menino que recebe pedras e se alarga, para abraçar as pedras como abraça facas e elogios:

- Num foi? Eu disse a ele, “Tu é doido, Soler?”

E como eu lhe repetisse o elogio de vexame, e para não ficar com a cara gorda e limpa exposta à luz do sol, como uma criança que se descobre despida em rua de adultos, Canhoto assim respondeu à consagração:

- Tu quer um confeitinho? Toma um de menta. É bom, rapaz.

E dessa maneira a receber caramelos, a vez de se encabular foi minha. Agora sinto, agora percebo que na pessoa de Canhoto aura nenhuma poderia ser posta, porque o seu maior elogio era a sua própria pessoa: Canhoto a sorrir, a tocar. E digo isto, Senhora, quase que em estado de raiva e convulsão, por entre estremeços. Porque o vejo agora e me vem num assalto: Não é assim que se trata um homem. Não é assim que se destrói um artista. Não é assim que se faz reduzir e insultar a memória da gente.

Este a quem encontro em Maranguape I, periferia do Recife, para lá de Olinda, é o mesmo homem que era convidado como estrela máxima de saraus, shows e banquetes? Este, na obscuridade da sua sala, olhando um disco na parede, como um mamute, como um gordo pacífico sem fala, é o mesmo genial violonista de Pisando em Brasa? Algo procuro, busco uma razão, e para não ser tão cru e cruel como a Providência, que assim pune os nossos grandes, prefiro balbuciar estas desrazões:

Imaculada Virgem e Mãe minha, Maria Santíssima, a vós que sois a Mãe de meu Salvador, Rainha do Céu, Advogada, esperança e refúgio dos pecadores, recorro: 

Canhoto da Paraíba tem a perna, as articulações sacrificadas, porque não dispõe de recursos para fazer uma... terapia. Não esta terapia que ora faço, da súplica do milagre, da clemência aos céus, mas a mais elementar, humana, elementar, uma fisioterapia. Por isso, por falta desta, já reclama, reclama, não, que ele sequer se queixa, por isso já se refere a dormência nas pernas, porque passa o dia entre a cadeira e a cama. Mas disso ele não se queixa – está em repouso, não é? Sabei, Senhora, que Canhoto é homem de grande resignação. 

Minto. Menti para ficar dentro da forma beatífica do requerimento a Seus poderes. O que toda a gente toma por resignação (digo-o baixinho, bem baixinho, como um chorinho solado, murmurando) o que toda gente toma por resignação é uma imensa generosidade. Canhoto sempre foi um deus de fertilidade, tocava e distribuía seus dons com louca e desmedida prodigalidade, como se os seus recursos, porque lhe chegavam, fossem inesgotáveis. Depois do derrame, do AVC, esses recursos subitamente se esgotaram. Mas disso ele não se deu conta. É um Buda que vive e se alimenta dos restos e da sombra do seu nirvana. 

Daí que não se queixa, daí que de nada reclama. Canhoto espera que de uma hora para outra seus dedos esquerdos voltem a se articular como antes, e aí, que bom que será! Todas as portas voltar-se-ão para ele, todas as graças, todos os violões, até mesmo a Santa, que acorrerá para ouvi-lo sem necessidade de invocação. 

Nós, que não somos Canhoto, é que percebemos que o Rei perdeu o seu cetro, seu poder, seu trono. Nós, que o vemos transparente pela bonomia da sua fala de criança, é que sabemos: à causa “natural” da isquemia, da idade dos seus 76 anos, soma-se a natural organização do mundo. 

Canhoto vive de uma modesta aposentadoria que não lhe dá margem para um tratamento de luxo, e o luxo, Imaculada, é uma fisioterapia. Sabei, Santa sobre as santas, que ele recebe aposentadoria por suas atividades de burocrata, de funcionário do SESI, por ser Francisco Soares de Araújo. Da sua razão de ser - da sua razão de viver, da sua razão de morrer – do gênio de ser Canhoto da Paraíba ... nada, nada, nada. Assim não são os bens espirituais? Nada, nada, nada. Dos políticos, dos deputados, senadores, governador do estado, prefeitos, nada, nada, e minto. Minto, minha Santa: destes tem recebido uma segura e intransponível distância. Ou melhor, nesta altura, fui injusto. Agora em junho deste ano, o nosso violonista foi a Brasília, para inaugurar, com chave de ouro, o Projeto Pixinguinha. Ali, Canhoto recebeu um aperto de mão do Presidente. 

Por isto, minha Santa, por isto, Imaculada, já que sois tão poderosa diante de Deus, fulminai para sempre e eternamente com vossos raios a insensibilidade humana. Porque existe um homem, que um dia foi Canhoto da Paraíba, que jaz numa cadeira de rodas, em Maranguape I, Paulista. Sem se queixar e a sorrir, e por assim estar, a machucar o coração da gente.

*Urariano Mota é jornalista e colaborador do Vermelho.

terça-feira, 20 de março de 2012

Carlos Freitas: A cultura brasileira e o falso debate nacional




Basta ler o que decora as primeiras frases sobre o debate entre “partes” interessadas, em especial, a do mercado, para topar com um tipo comum de patuá violento e de objetivos perceptíveis. Assim tem sido a nossa história. A política, quando lírica e idealista, fala em cultura pela ideia da transformação social entendida sempre de forma simplista.

Por Carlos Henrique Machado Freitas*


Mas a consciência do fato da tal cultura transformadora acaba sendo o mesmo processo histórico que caminha pela subjetividade ou se prende dialeticamente à ideia de redenção escondida em sua tradicional linha do tempo.

Pouca relevância e nenhum projeto de transformação infraestrutural em andamento. Este é o problema, e parece que nenhum partido quer por a mão ou passar os olhos nessa leitura, digo, leitura rigorosa do mundo brasileiro. Alguns até estimulados pelas bases populares tentam uma escrita própria, mas acabam renunciando e naturalmente rejeitando a inocência da cultura popular. Então, não conseguem distinguir Estado e sociedade nas relações burocratizantes. E quando isso é posto em prática, o resultado é um rigoroso gesso, fruto da adesão de um Estado cada vez mais conduzido por um tipo de gestão ditada pelas normas dos grandes grupos econômicos.

Mas não é só isso. Há uma comissão virtual, melhor dizendo, existem várias comissões que coordenam círculos, guetos de debates e, por mais que a intenção não seja esta, a história real vai sendo medida e utilizada dentro dos antigos moldes dos feudos. A operação realmente libertadora desaparece e vamos criando centelhas de uma aristocracia de poder implícita que pratica as mesmas mazelas e inviabilidades do Estado-corporação. Até os cacoetes chegam a ser idênticos.

Enquanto isso o mundo se torna cada vez mais globalizado e o reconhecimento dessa estrutura fica ainda mais difícil para a sociedade. Não há visualização de um projeto nacional, pois o debate é dia após dia mais obscuro.

Talvez por isso os projetos das grandes empresas impostos pela tirania das finanças trombeteadas pela mídia, como disse Milton Santos, acabam de um jeito ou de outro, guiando a “evolução” dos países, já que a subserviência é que tem desenhado a geopolítica do universo cultural brasileiro que conta, entre outras características, com interesses de classes artísticas, partidos políticos, editoras, gravadoras e corporações que utilizam a Lei Rouanet. Ou seja, todas as determinações do processo atual de globalização estão inseridas nesse cozidão de interesses.

Mas e a sociedade, quais as razões ou que plataformas são conduzidas com objetivos sociais claros ou mesmo objetivos de políticas públicas? Não existem. Realizamos a cultura de um modo pela força de nossa realidade, independente ou acima dos partidos ou organizações. Mas parece que aqui no Brasil os instrumentos da cultura de massa são reutilizados em seu conteúdo para possibilitar associações. A partir de então é formado um fundo genuíno de interesses comuns entre o comando e nenhum para a sociedade.

O debate torna-se superficial. A cultura nacional nesse ambiente torna-se compartimentada. Tudo tem que ser funcional para dar garantias de comando aos pequenos grupos que julgam poder definir os destinos do Brasil. Eles não percebem que andam falando sozinhos. E, longe do povo, acabam discutindo o intercâmbio de uma trama cada vez mais densa e criam uma nova dimensão institucional que contempla tão somente os interesses comuns dessa teia.

O que é apresentado como debate são definições de pobreza intelectual. O comportamento no território da cultura tem blindado a sociedade, em medida geral, com o palavrório do mesmo círculo vicioso e, portanto, sua importância política desaparece já que a estabilidade depende apenas da convivência entre os comandos.

O Brasil carece de um debate franco, sem cacoetes, pois até a inspiração econômica da cultura está a serviço de um sistema ideológico plantado pelas grandes corporações. Daí sobra-nos um debate meia-boca, residual em que as bases sociais são esmagadas por certas condições técnicas mundializadas por grandes grupos econômicos, e a troca de informações entre a própria sociedade passa a depender ainda mais e com mais intensidade do próprio cidadão. Isso é perversidade com o Brasil. E o principal responsável por tal imposição que na verdade é comandada por instituições supra-nacionais em nome da ordem global, é o próprio Estado.
Como isso está implantado no atual período do Ministério da Cultura, o princípio dessa hierarquia já vem com o selo da “inteligência” do Estado brasileiro, o que representa não simplesmente a derrota da cultura brasileira, mas a derrota do Brasil para ele mesmo.

*Carlos Henrique Machado Freitas é músico e compositor.

Fonte: Blog Trezentos

Plumária e etnografia Karajá










Exposição do Museu Nacional (no Rio de Janeiro) exibe peças inéditas da coleção de arte plumária, que abre para o público no dia 23.








Apresentar a beleza da coleção de arte plumária da tribo Karajá e a sua importância no cenário do estudo das populações indígenas. É com essas premissas que o Museu Nacional apresenta, a partir de 22 de março, Os Karajá: plumária e etnografia, com objetos que fazem parte da cultura material deste grupo, que habita as margens do Rio Araguaia nos estados de Goiás e Tocantins. Também serão expostas as tradicionais bonecas da cultura Karajá, que recentemente foram tombadas como Patrimônio Cultural do Brasil pelo Iphan.

A programação do dia de abertura da mostra começa às 14h, com as palestras "A cultura material dos Karajá - Brasil Central", com o professor Manuel Ferreira Filho, da Universidade Federal de Goiás, e "Arte e Antropologia: a trajetória de Heloísa Fenelon", com João Pacheco, professor titular do Museu Nacional/UFRJ. Às 16h, tem início a cerimônia de inauguração, com a presença do reitor da UFRJ, Carlos Levi.

A mostra abre para público no dia 23 e, especialmente nos dias 24 e 25 de março, os visitantes poderão participar de oficinas com ceramistas Karajá e aprender sobre esta arte indígena.

Alguns dos destaques da exposição são os leques e adornos de cabeça que, pela sua flexibilidade e abertura, lembram a cauda de um pavão; e as máscaras de aruanã, indumentárias de dança utilizadas no ritual do mesmo nome, de grande significado simbólico para os Karajá. Esta festa ocorre durante a alta do rio Araguaia e representa o contato do homem com o cosmos e com os "seres" sagrados da natureza. As máscaras representam seres distintos, nem homem nem animal, que podem encontrar paralelo, mas não identidade, em espécies da fauna local, configurando a presença de um espaço simbólico imaginário.

Um bastão (chamado de Obi) da década de 40 utilizado pelos índios para afastar a chuva é outra curiosidade da mostra, que mescla a beleza das peças com o valor antropológico que as mesmas possuem, através de seus significados e utilização no dia-a-dia das aldeias.

Outro ornamento utilizado somente por homens casados e viúvos, a coifa ou lorilori, possui singularidade única, pois é feita de penas de emas e é considerada uma raridade entre os pesquisadores. A peça exposta foi produzida durante os anos de 1938 e 1939, período em que pesquisador norte americano William Lipkind, viveu entre os Karajá.

Há também, entre as peças do acervo, o chamado raheto, um grande cocar feito de penas de urubu, coelheiro branco e rosa e de periquitos, usado pelos homens solteiros na ocasião da festa de iniciação dos meninos, conhecida como Casa Grande ou Hetohoky. Na cosmologia dos karajás o sol era o raheto do urubu-rei que o herói mitológico (Kynyxiwe) feriu com uma flecha. Por isso, o sol anda devagar atravessando o céu durante o dia.

A mostra faz também uma homenagem à etnóloga Maria Heloísa Fénelon Costa (1927-1996), que coletou grande parte dos objetos expostos e que por mais de vinte anos exerceu a função de curadora do Setor de Etnologia e Etnografia do Museu Nacional. Serão apresentadas imagens da atuação da pesquisadora em campo, intercaladas às suas citações de como ocorreram os contatos com os grupos.

Segundo o antropólogo e curador João Pacheco, "mostrar aos visitantes do Museu Nacional algumas das belas peças da coleção Karajá formada por Heloísa Fénelon, compartilhando inclusive alguns instantâneos de sua etnografia, é uma maneira de lembrar, aos 15 anos de sua morte, a sua permanente dedicação à pesquisa etnológica e a sua enorme contribuição ao precioso acervo desta instituição."

Serviço:
Exposição: Karajás: plumária e etnografia
Aberta ao público - dia 23 de março
Horário: de terça a domingo, das 10 às 16h.
Entrada: R$ 3,00. Grátis para crianças até cinco anos e pessoas acima de 60. Crianças entre 6 e 10 anos pagam R$1.
Local: Museu Nacional - Quinta da Boa Vista, s/n, São Cristóvão, Rio de Janeiro.
Telefone: (21)2562-6042

Fonte: Ascom / Museu Nacional/UFRJ