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quarta-feira, 4 de março de 2015

Audiovisual é imprescindível para o desenvolvimento, diz ministro

Na noite desta sexta-feira (26), o ministro Juca Ferreira foi o convidado especial do encerramento oficial da quinta edição do Rio Content Market, um dos maiores eventos dedicados a negócios e exposição de conteúdo audiovisual no mundo. Com auditório lotado, Ferreira apresentou estratégias, diretrizes e investimentos do Ministério da Cultura (MinC) para o setor do audiovisual em 2015.


Bernardo Guerreiro
O ministro Juca Ferreira destacou a importância do audiovisual para o desenvolvimento econômico e social do país em sua participação no Content Market O ministro Juca Ferreira destacou a importância do audiovisual para o desenvolvimento econômico e social do país em sua participação no Content Market
Juca Ferreira destacou que a contribuição do audiovisual para o desenvolvimento econômico e social do Brasil é imprescindível. "Em sua dimensão simbólica, desde a criação artística até a preservação, renovação e difusão da história e da cultura brasileiras, e em sua dimensão econômica, com sua vasta cadeia produtiva", afirmou.

Segundo ele, o Brasil tem hoje uma das mais robustas políticas públicas para o setor audiovisual no mundo. "Caminhamos para ser o quinto maior produtor do mundo nesse setor. Esses números são resultado do talento, da organização e do empenho de todos os brasileiros que ocupam a imensa cadeia do audiovisual, e da realização de políticas públicas de fomento", afirmou.

A atual gestão do MinC, informou Juca, terá como uma de suas prioridades fortalecer o projeto de investimentos para o audiovisual brasileiro, ampliando a área de atuação do Fundo Setorial do Audiovisual. O ministro destacou a necessidade de se estruturar uma política nacional de formação e capacitação para o setor. "Precisamos eliminar gargalos ao longo de toda a cadeia produtiva. É preciso desobstruí-los", enfatizou.

Juca Ferreira afirmou ainda que o projeto da Cinemateca Brasileira será redimensionado, recuperando sua linha evolutiva e tornando sua atuação cada vez mais abrangente e nacional. "Quem é do setor sabe da dimensão do trabalho que fizemos na recuperação da Cinemateca. Nós a transformamos em uma das melhores do mundo e resgatamos obras que são verdadeiros patrimônios da cultura brasileira", afirmou. "Saibam todos que estamos empenhados em devolver à nossa Cinemateca o protagonismo que lhe é devido."

Novos indicadores

O ministro destacou também a importância do desenvolvimento de novos indicadores do audiovisual que não sejam apenas os já existentes no mercado. "Hoje, carecemos de indicadores que dimensionem a relevância do audiovisual para a formação sociocultural do país, de forma que as políticas culturais para o setor possam ser ampliadas e tenham outros critérios de valoração que vão além daqueles que regem o mercado", observou.

O papel central do audiovisual na preservação, renovação e difusão da cultura brasileira foi enfatizado pelo ministro. "É um dos mais importantes interlocutores do acesso à cultura pela população. Não podemos desconhecer o papel que tem cumprindo a TV brasileira na formação de nosso povo. Tanto a questão mercadológica quanto sua capacidade de intervenção cultural precisam ser contempladas pelas políticas públicas", afirmou.

A Lei sancionada no ano passado pela presidenta Dilma Rousseff, também mereceu destaque na apresentação do ministro da Cultura. "Esta lei trata o audiovisual como parte fundamental da agenda de uma Pátria Educadora e abre as portas da escola para o cinema nacional, para a formação de plateia e para a qualificação da crítica", observou.

Ferreira informou que, em sua gestão, pretende criar uma coordenação com a presença da Secretaria do Audiovisual (SAv), da Agência Nacional do Cinema (Ancine), do Centro de Tecnologia do Audiovisual (CTAV) e a Cinemateca Brasileira.

"Essa colaboração deve visar tanto um crescimento de mercado quanto um aumento na qualidade, na formação de público e nas produções. Para fortalecer estes propósitos, queremos atrair as universidades, os cineclubes e a crítica criativa e colaborativa", adiantou.

Sobre o Rio Content Market

O Rio Content Market é realizado pela Associação Brasileira de Produtoras Independentes de TV (ABPITV), organizado e promovido pela Fagga | GL events Exhibitions, com a curadoria da Esmeralda Produções.

As primeiras quatro edições do evento somaram mais 10 mil participantes, entre executivos, produtores e profissionais da indústria de mais de 36 países, que aproveitaram o encontro para debater ideias, conhecer modelos de negócios de sucesso e promover parcerias e coproduções.

As próximas edições do evento serão realizados de 9 a 11 de março de 2016 e de 8 a 10 de março de 2017.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Regulamentação da Política Nacional de Cultura Viva está em fase final

O Grupo de Trabalho (GT) Cultura Viva reuniu-se nesta quarta-feira (25) para uma fase decisiva de discussões da Instrução Normativa (IN) que regulamentará a Política Nacional de Cultura Viva (PNCV). Esta política tem o objetivo de estimular e fortalecer no Brasil uma rede de criação e gestão cultural com base nos Pontos de Cultura. 
 
Entre os principais pontos debatidos estão a certificação simplificada de Pontos e Pontões de Cultura, as formas de apoio e fomento previstas pela Lei Cultura Viva, que cria a PNCV, e regras para prestação de contas pelos Pontos e Pontões que receberem recursos públicos.
 
Na abertura da reunião do GT, a secretária da Cidadania e da Diversidade do Ministério da Cultura, Ivana Bentes, ressaltou a importância da implantação da PNCV. "Estamos vivendo um momento histórico, uma importante conquista, resultado de um grande esforço dos Pontos de Cultura deste país", afirmou. "Este é um momento de mudança, de adequação do Cultura Viva
às características do fazer cultural."
 
Para Ivana, dois pontos merecem destaque na PNCV: a criação do Termo de Compromisso Cultural (TCC), que substituirá o convênio na relação do Estado com os Pontos de Cultura que receberão recursos públicos, e a autodeclaração dos Pontos de Cultura, que será feita mediante uma certificação simplificada e não envolverá o repasse de recursos.
 
"O Termo de Compromisso Cultural vem simplificar e desburocratizar a relação dos Pontos com o poder público. É muito importante, pois responde à insegurança jurídica, à suspeição que muitos Pontos vivem hoje devido às dificuldades na prestação de contas causada pela atual legislação", destacou Ivana. "A autodeclaração permite que o Estado mapeie os fazedores de cultura, e que eles se mobilizem, se enxerguem, criem um circuito cultural dos Pontos e uma rede social que contribua para a articulação entre eles."
 
De acordo com a 19a e mais recente versão da Instrução Normativa, discutida nos dias 25 e 26 pelos integrantes do GT Cultura Viva, as entidades que se autodeclararem Pontos de Cultura terão sua certificação habilitada mediante uma checagem documental e a assinatura de um Termo de Adesão. Elas se comprometem com os objetivos da PNCV. Não há necessidade de CNPJ para essa modalidade de habilitação. Os Pontos habilitados por autodeclaração passarão automaticamente a fazer parte do Cadastro Nacional dos Pontos e Pontões de Cultura.

Prêmios e projetos 

A versão atual da IN também estabelece as formas de apoio e fomento previstas na PNCV. Estão incluídos repasses a Pontos e Pontões juridicamente constituídos, selecionados por editais específicos, que assinarão o Termo de Compromisso Cultural. Também estão previstos prêmios a projetos, iniciativas, atividades ou ações de Pontos, Pontões, pessoas físicas, entidades, coletivos culturais e instituições de ensino, além de bolsas a pessoas físicas reconhecidas como Agentes Cultura Viva.
 
Outro item previsto pela IN é a possibilidade de que os Pontos que assinarem TCC alterem até 100% de seus planos de trabalho sem consulta prévia ao órgão concedente, desde que comprovado o cumprimento do objeto e as mudanças sejam justificadas na prestação de contas. Já os Pontões de Cultura poderão alterar até 25% do valor previsto em cada categoria de despesa (custeio e capital), sendo que 15% sem consulta prévia.
 
A IN estabelece também que os Pontos que receberem recursos via TCC em mais de uma parcela anual prestem contas a cada 12 meses. A liberação das demais parcelas dependerá apenas da apresentação dos documentos exigidos, não tendo mais relação com a aprovação das contas.
 
As atividades do GT Cultura Viva continuam nesta quinta-feira (26). Além dos debates finais sobre a IN, haverá uma roda de conversa sobre a PNCV no contexto das políticas de participação social, com a participação de representantes da Secretaria-Geral da Presidência da República e do Movimento Plataforma para um Novo MROSC (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil). Os participantes também terão encontros com o secretário-executivo do MinC, João Brant, e o secretário de Articulação Institucional, Vinícius Wu.

Sobre o GT Cultura Viva

Criado em agosto de 2014 pelo Ministério da Cultura, o GT Cultura Viva é responsável por aprimorar a gestão da PNCV. É composto por representantes do MinC, de Pontos de Cultura, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes Estaduais de Cultura, do Fórum Nacional de Secretários e Dirigentes de Cultura das Capitais e Regiões Metropolitanas, da Secretaria-Geral da Presidência da República, do Tribunal de Contas da União (TCU), da Comissão de Educação, Cultura e Esportes do Senado Federal, da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados e do Grupo de Trabalho Interministerial para o Novo Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil.
 
Assessoria de Comunicação

quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Maestro Spok é homenageado no encontro de bonecos gigantes de Olinda

Mesmo sob um forte calor, a diversão não para em Olinda. Nesta terça-feira (17) de carnaval, tem o encontro de bonecos gigantes de Olinda. Esta é a 28ª edição do encontro que reúne mais de 100 dessas alegorias representativas do carnaval pernambucano e que simbolizam personagens da cultura brasileira e mundial.


Katherine Coutinho
O maestro Spok é um dos mais novos expoentes do frevo O maestro Spok é um dos mais novos expoentes do frevo
Desta vez, o encontro resolveu homenagear o maestro Spok, um dos mais novos expoentes do frevo, que ganhou boneco gigante vestido de terno preto e saxofone na mão, confeccionado pelo artista plástico Silvio Botelho.

“É uma homenagem a um jovem e talentoso maestro que está inovando na maneira de reger a orquestra e isso se deve levar em consideração, pois ele tem apenas 45 cinco anos e merece de nossa parte essa homenagem," disse Botelho, pai dos bonecos gigantes.

O encontro também homenageou o grupo de mascarados Palhaços de Olinda, brincadeira que completa 35 anos de tradição. “É muito bom ter esse reconhecimento para essa brincadeira que desde 1980 que está abrilhantando essas ruas de Olinda”, disse Renato José de Lima Filho, o Reizinho dos Palhaços, idealizador da brincadeira.

Antes do desfile, o maestro Spok se apresentou ao lado da sua caricatura de 3,5 metros, com sua orquestra. Comandando o cortejo ao lado de seu boneco, Spok, que também é um dos homenageados do carnaval do Recife, saiu pelas ruas de Olinda tocando o seu saxofone. O grande homenageado do carnaval pernambucano este ano disse que o momento é inesquecível.

“É um ano incrível, imagine ser homenageado pelo carnaval do Recife, ter o galo gigante com um saxofone, o filme Sete corações [que retrata a paixão pelo frevo dos compositores Clóvis Pereira, Duda, Guedes Peixoto, Ademir Araújo, Zé Menezes, Edson Rodrigues e Nunes] dos mestres sendo lançado e, para juntar tudo, ainda tem a homenagem dos bonecos gigantes de Olinda que eu nasci perto vendo, um ano que eu acredito que não se repetirá na minha vida”, disse emocionado o maestro.

Quem também ganhou uma versão de mais de 2 metros de altura foi Carlos Nascimento, torcedor do clube de futebol Sport conhecido como 'Cabuloso'. O boneco foi feito há quatro anos. “A torcida do Sport fica satisfeita, eu sou um símbolo da torcida e isso para mim é muito gratificante”, confidenciou.

A emoção também é compartilhada por quem carrega os bonecos pelas ladeiras de Olinda, os chamados miolos. Para Vinicius Manoel Gomes Silva, miolo de boneco há 13 anos e que, pela primeira vez, sai embaixo do boneco chamado Manicure, disse se sentir recompensado com o calor da multidão. “É inexplicável a sensação, só sabe quem carrega [os bonecos] mesmo”, contou.

Durante mais de quatro horas, os foliões seguiram o percurso de 2 quilômetros que sai do largo de Guadalupe, no centro histórico. Ao longo do percurso, varandas e muros das casas foram ocupadas por olindenses e turistas, todos ansiosos para ver os ilustres bonecos. “Venho há nove anos no carnaval de Olinda. É a primeira vez que eu acompanho o desfile, é maravilhoso. Eu já tinha visto os bonecos, mas não de pertinho. É muito lindo", revelou a turista de Fortaleza, Shirley Aquino.

Além do encontro de bonecos gigantes, cerca de 30 blocos desfilam nesta terça-feira (17) pelas ruas do sítio histórico da cidade, entre eles os tradicionais Eu acho é pouco, o Ceroula de Olinda Pitombeira Quatro Cantos e o Afoxé Oxum Pandá.

Fonte: Agência Brasil

Fábricas de Cultura abrem estúdios musicais na periferia de SP

Músicos profissionais e iniciantes agora tem a oportunidade de gravar seus trabalhos em estúdios públicos, gratuitos, nas periferias de São Paulo. A iniciativa faz parte do projeto Fábricas de Cultura, do governo do estado.


Reprodução TVT
Nos estúdios, todos os gêneros são comtemplados Nos estúdios, todos os gêneros são comtemplados
Os estúdios foram montados em cinco pontos de cultura, na capital: Capão Redondo e Jardim São Luís, na zona sul, e no Jaçanã, Brasilândia e na Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte.

Os espaços contam com acústica adequada, todo o equipamento necessário, além do apoio de dois responsáveis técnicos.

Segundo Bia Sindona, programadora da Fábrica de Cultura do Capão Redondo, as periferias de São Paulo produzem muita cultura, mas boa parte do trabalho musical acaba não sendo divulgada por causa dos custos. O valor de uma hora de gravação e mixagem em um estúdio privado pode chegar até a R$ 150.

"Qualquer artista da comunidade, seja iniciante ou profissional, pode se inscrever na Fábrica, e aí os técnicos vão entrar em contato com ele pra que possa vir agendar um horário de gravação", explica a programadora. Para gravar uma segunda faixa, é necessário entrar novamente na fila, explica a programadora.

O baixista José Jorge Silva Filho aprovou: "A gente costuma ir a alguns estúdios de gravação profissional que, às vezes falta microfone, falta peça. Quando tem essa oportunidade, a galera abre o olho e fala 'nossa, que legal'".

Para realizar a gravação, é necessário que o candidato vá pessoalmente até uma das Fábricas de Cultura que tenham os equipamentos. Para a inscrição é necessário documento de identificação com foto e um comprovante de endereço recente.

Mais informações no site: www.fabricasdecultura.org.br/

Fonte: Rede Brasil Atual

Juca Ferreira e o financiamento à cultura no Brasil

O ministro da Cultura tomou posições importantes acerca do fomento à cultura e suas leis de incentivo no país. Em entrevista, ele declarou: "Sou bastante crítico à Lei Rouanet e formei minha opinião com base nos dados do IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) e do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada). A lei criou uma ilusão de que haveria uma parceria público-privada financiando a cultura. Não é verdade".


Por Antonio Albino Canelas Rubim*, no Jornal A Tarde


UNE
   
Juca Ferreira chama a atenção sobre um ponto crucial das políticas culturais nacionais atuais: sua unilateral política de financiamento.

As declarações do ministro baiano foram imediatamente repercutidas na imprensa sudestina de modo crítico. Produtores e profissionais da cultura, instalados no Sudeste, emitiram opiniões contrárias a Juca Ferreira. Explicável: 80% dos recursos captados via Lei Rouanet ficam nos estados de São Paulo e Rio de Janeiro; 60% vão para as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro e 3% dos proponentes recebem 50% das verbas incentivadas. Os dados chocam pela brutal concentração. Ela supera mesmo a soma das atividades econômicas daqueles estados.

Os problemas não se encontram apenas na concentração dos recursos incentivados. Quando o ministro afirma que a lei não representa parceria público-privada, ele deve se basear em dados do próprio Ministério: em 18 anos de Lei Rouanet dos R$ 8 bilhões acionados, só R$ 1 bilhão veio de empresas, muitas delas estatais.

Ou seja, criadas para incentivar a captação de recursos empresariais e privados para a cultura, as leis não trouxeram recursos novos, pois a imensa maioria deles foram verbas estatais. Mais grave: estes recursos, públicos em sua quase totalidade, passaram a depender da deliberação das empresas e seus departamentos de marketing. Neste sentido, de modo perspicaz, Juca Ferreira classificou as leis como "ovo da serpente neoliberal".

Não bastassem estas enormes distorções, que desvirtuam profundamente o fomento à cultura, as leis de incentivo, no singular formato adquirido no país, implicam outras repercussões problemáticas. Prisioneiras de interesses mercadológicos, as leis tendem a apoiar atrações de apelo mercantil e/ou eventos de visibilidade, excluindo todos os criadores, manifestações e produtos culturais, que não se submetam a tais critérios.

Ou seja, as leis de incentivo não possuem capacidade de universalizar o fomento à cultura. Como elas representam hoje 80% do financiamento do estado nacional à cultura, mais um grave problema se configura.

O descompasso entre as políticas de financiamento, centradas nas leis de incentivo, e as políticas de diversidade cultural, quase inviabiliza a realização de tais políticas no país. Desde o governo Lula e seus ministros Gilberto Gil e Juca Ferreira, o Brasil adotou políticas de diversidade cultural, em sintonia com a cena internacional contemporânea. Elas reconhecem a riqueza cultural da nação como proveniente da diversidade cultural, que conforma o país e constitui a identidade brasileira.

As políticas de promoção e preservação da diversidade cultural exigem políticas de fomento de caráter universal, compatíveis e compromissadas com a diversidade da cultura no Brasil. Como as leis de incentivo não perfazem este requisito, a centralidade destas leis nas atuais políticas de financiamento comprometem as possibilidades de desenvolvimento das políticas de diversidade cultural. Para sua plena realização, elas demandam novas políticas de financiamento atentas à complexidade da cultura brasileira. Com o Ministério da Cultura atento ao problema, cabe apoiar ativamente mudanças tão necessárias ao país.

*Pesquisador do CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico). Ex-secretário de Cultura da Bahia.

domingo, 8 de fevereiro de 2015

O povo é o protagonista do maior carnaval do mundo

Em todos os anos vem a público a polêmica tese de que o carnaval de Salvador teria trilhado o caminho da exclusão do povo em benefício de uma privilegiada elite branca. Eu tinha me afastado desse debate nos anos anteriores e volto agora depois de ler o um artigo no Portal Vermelho sobre o tema. 


Por: Geraldo Galindo*, para o Vermelho


Reprodução
Carnaval no Pelourinho em Salvador Carnaval no Pelourinho em Salvador
Primeiro deixo claro que aqueles que advogam a ideia de uma suposta festa excludente e sem participação popular, no geral, são pessoas bem intencionadas, querem mais democracia, menos injustiças.

O problema é que esses companheiros de boas intenções incorrem num erro grave de análise e sendo assim, chegam a conclusões equivocadas, distantes da realidade, como não poderia deixar de ser. O erro reside em estudar o carnaval de Salvador a partir de uns quatro ou cinco blocos da elite branca - pouco representativos da totalidade de agremiações que saem às ruas -, e dos camarotes dos endinheirados na Avenida Oceânica, onde ricos e gente da classe média se deleitam em luxuosos ambientes fechados.

Para fazer uma avaliação do carnaval de Salvador e tirar as conclusões, quaisquer que sejam, é necessário ter em conta o conjunto, e não apenas uma parte. E é muito fácil. Basta olhar a programação, simples assim. Eu sugeriria aos detratores do nosso carnaval que analisassem apenas um dia da programação do carnaval e com certeza lá vão descobrir que suas teses pré-concebidas não guardam sintonia com a realidade ou estão distantes dela. O leitor que se depara com esse tipo de visão e não conhece o carnaval local pode chegar à conclusão de que aqui uma meia dúzia de afortunados brancos se diverte e o restante do povo, pobre e preto, encontra-se espremido entre as cordas e paredes, tomando porrada da polícia, como fossem um bando de masoquistas infelizes.

Voltemos então à programação para ser didático. O carnaval em Salvador acontece em três circuitos, Centro, Barra, Pelourinho. Em vários bairros também tem programação para os moradores – neste ano teremos em Cajazeiras, Itapuã, Liberdade, Plataforma, Boca do Rio e Periperi. Serão mais de 150 apresentações nessas regiões populares com bandas e grupos dos mais variados estilos musicais, entre os quais, Chiclete com Banana, Baiana System, Asas Livres, Batifun, Nelson Rufino, Adão Negro, Gerônimo, Motumbá e tantas outras. Tem ainda no mesmo período o carnaval dos roqueiros no bairro de Piatã. Aqui já verificamos que na análise dos detratores do carnaval, essa programação onde a elite branca dificilmente pisaria os pés é sumariamente excluída.

O carnaval realizado no Pelourinho é simplesmente maravilhoso, tem programação todos os dias, onde se reúnem a população local e os turistas. São dezenas de pequenos blocos, vários shows, muito frevo, marchinhas carnavalescas, sem presença de trios elétricos, sem camarotes, sem cordas etc. Lá encontramos todos os segmentos sociais, pobres, classe média e até ricos. São milhares e milhares de pessoas a se divertir, idosos, jovens, crianças, todos muito animados. Pergunto: na análise dos detratores do carnaval de Salvador, esse importante espaço de congraçamento popular é levado em conta? Não, para eles, só vale uns quatro ou cinco blocos de trios que desfilam no circuito Barra/Ondina.

Aqueles que tentam passar a ideia de que Salvador teria um carnaval de apartheid o fazem, repito, a partir de poucos blocos, aqueles que as redes de TV escolhem para projetar. Mas nós podemos demonstrar através de um dia aleatório que escolhamos da programação de que mesmo na Barra, o circuito da “elite branca”, essa “informação” não corresponde. Lá vamos constatar que entre 20 e 25 blocos e trios independentes saem diariamente e que entre estes, a grande maioria que está dentro ou fora das cordas não pertence à denominada elite branca. Entre os 35 e 40 blocos que saem na Avenida Sete diariamente, quase todos com cordas, nenhum pode ser enquadrado na categoria de bloco de brancos da elite.

O leitor desavisado que não conhece o carnaval da Bahia, repito, pode pensar que o povo dessa cidade só serve no carnaval para segurar cordas, proteger os ricos e espremer os pobres. Isso é rigorosamente falso, repito, rigorosamente falso. A grande maioria de blocos com corda é formada pela população não branca de Salvador. Quase todos os blocos de samba que desfilam na Avenida Sete têm cordas e seu público é esmagadoramente negro; as dezenas de blocos afros tem como foliões pessoas negras e tem suas cordas também; temos dezenas de outros blocos de Axé, cujos preços são mais acessíveis, onde a população da faixa salarial mais baixa comparece, pula e se diverte. E temos os trios elétricos chamados independentes, sem cordas, que estão nas ruas todos os anos, nos dois circuitos, trazendo artistas famosos como Moraes Moreira, Luiz Caldas, Pepeu, Armadinho, Carlinhos Brown e tantos outros.

Temos ainda o “Furdunço” que é um momento pra aquecimento pra a festa que este ano cairá no dia 08/02 na Barra e terá 22 atrações, e no dia 13/02 no Centro, com outras 27 atrações, sem cordas. Na sexta-feira que antecede a festa temos ainda uma grande concentração na Barra de blocos de orquestra que leva milhares para as ruas até o amanhecer, sem contar nas tantas e tantas lavagens que ocorrem em diversas partes da cidade. Outro momento importante do carnaval onde o povo se espreme na diversão é o Mudança do Garcia, num bairro do centro da cidade, que reúne milhares e milhares de foliões e onde boa parte aproveita a festa para levar seus protestos. Os detratores do nosso carnaval fazem vistas grossas para essas agendas de intensa participação popular no reinado do Momo. Para eles, o carnaval de Salvador se resume aos blocos puxados por Ivete Sangalo, Durval Lelys, Claúdia Leitte e Bell Marques e aos camarotes.

O artigo publicado no Vermelho a que me referi acima, traz uma foto de um bloco com pessoas brancas dentro das cordas e uma vasta quantidade de negros fora delas. É verdade, esses blocos são formados especialmente por abonados locais e turistas paulistas, mineiros, cariocas, gaúchos e outros mais, que pagam um preço salgado para os padrões de nosso povo. Mas isso é uma pequena parte da festa, reitero. Se nós fizermos uma foto aérea da maioria dos blocos de Salvador o visual será completamente diferente.

Nós devemos ter claro que o protagonista principal do carnaval de Salvador é povo dessa cidade, especialmente sua população negra. Os cerca de dois milhões de foliões que estão nas ruas são majoritariamente negros. Não são os quatro ou cinco blocos da elite branca, que não devem somar 20 mil pessoas, e muito menos os frequentadores de camarotes, os protagonistas da maior festa do planeta. Protestar e lutar contra o racismo e todas as injustiças sociais é uma bandeira de todos os dias do ano, inclusive no carnaval, mas daí concluir que os negros ficam oprimidos e resignados durante a festa é outra história. A população vai para as ruas e faz sua festa, ela tem autoestima, se diverte, canta, dança suas danças lindas, está em cima dos trios, dentro dos blocos com corda, atrás de blocos independentes, na pipoca, está em todo lugar. Não tenhamos dúvida. O carnaval de Salvador é genuinamente popular, alegre, contagiante, e nele, os contrastes da sociedade capitalista aparecem com nitidez, como não poderia deixar de ser. Mas aí é outra história que careceria de um novo artigo.

*Geraldo Galindo é folião pipoca do Carnaval de Salvador há 35 anos.

Bob Marley completaria 70 anos, conheça sete fatos curiosos

Maior expoente do reggae mundial e um dos principais responsáveis pela difusão da cultura e da religião rastafari, Bob Marley completaria 70 anos nesta sexta-feira (06). Para marcar a data, a Jamaica realizou uma semana de celebrações e diversos eventos estão sendo realizados em todo o mundo para homenageá-lo. Um álbum inédito também será lançado pela Universal Music com as gravações realizadas por um fã durante a turnê promocional do álbum Kaya de 1978.


Por Vanessa Martina Silva* no OperaMundi


Reprodução
 Bob Marley durante apresentação em Dublin em julho de 1980  Bob Marley durante apresentação em Dublin em julho de 1980
Apresentação em Londres, em 1976eiro de 1945 na cidade de Saint Ann, no interior da Jamaica. Tornou-se mundialmente conhecido pelo grande censo de justiça em suas letras, pela defesa da libertação nacional, do empoderamento dos negros, da luta contra o racismo e pela universalização dos direitos civis. Como reconhecimento desse papel, as Nações Unidas lhe concederam a Medalha da Paz do Terceiro Mundo, em 1978. Na Jamaica, também recebeu as três maiores condecorações: Honra ao Mérito da Jamaica, “Order of Merit”, Herói Nacional e o “Order of the National”, que é reservado para governadores, generais e premiês.

A qualidade musical e Bob Marley e o grupo que o acompanhava, o The Wailers, foi reconhecida com diversos prêmios. A BBC classificou a música "One Love" como sendo a canção do milênio e o cantor e compositor foi eleito o 11º maior artista de todos os tempos pela revista Rolling Stones.

Apresentação em Londres, em 1976
 
Na única visita que fez ao Brasil, declarou: "Músicos devem ser porta-vozes para as massas oprimidas. No nosso caso, a responsabilidade é ainda maior por causa de nossas crenças religiosas. A filosofia do reggae explica tudo isso. O reggae se propagou a partir dos guetos, e tem sido sempre fiel a suas origens, trazendo ao mundo uma mensagem de revolta, protesto e luta pelos direitos humanos".

Abaixo, conheça sete fatos sobre o astro do reggae:

1) Criança sensitiva


Quando tinha quatro anos, Bob começou a pressagiar a partir da leitura da palma da mão. Como as previsões invariavelmente eram acertadas, ficou conhecido na região. Um dia, quando já era famoso, voltou a Kingston e uma mulher pediu que ele lesse a mão dela. Diante do pedido, respondeu: "Eu não estou mais lendo mãos. Estou cantando agora".

2) Prisão

Em 1968, Bob passou um mês na prisão na Jamaica por porte de maconha. Durante este tempo, conheceu alguns prisioneiros com os quais criou forte relação. Eles o motivaram a escrever músicas com mensagens políticas mais contundentes. Em 1977, voltou a ser detido pelo mesmo motivo, em Londres. Devido ao uso religioso da maconha pelos rastafaris, Bob foi um ativo defensor de sua legalização.

3) Futebol


Bob nutria uma grande paixão pelo futebol e chegou a jogar na equipe jamaicana House of Dread. Em uma de suas fotos mais famosas no Brasil, aparece com o cantor Chico Buarque após uma "pelada" no Rio de Janeiro em 1980, com os funcionários do selo Ariola contra alguns dos artistas contratados pela gravadora no Brasil, como Chico Buarque, Alceu Valença e Toquinho. Na ocasião, ganhou e vestiu a camisa 10 do Santos.

4) Atentado

Em 3 de dezembro de 1976, em meio à efervescência política e à violência causada por gangues na Jamaica, que vivia um clima de guerra urbana, Bob Marley decide fazer uma apresentação gratuita como forma de pregar a paz e a unidade da juventude do país. O primeiro-ministro jamaicano Michael Manley apoiou o evento como forma de apaziguar os ânimos às vésperas das eleições. Durante um ensaio em sua casa, ele, a esposa, Rita Marley, integrante da banda, e o empresário Don Taylor foram baleados e levados ao Hospital Universitário. As motivações do atentado nunca foram esclarecidas.

Dois dias depois, Bob, mesmo sabendo dos riscos que corria, resolveu fazer sua apresentação durante o evento "Smile Jamaica". Ele e Rita subiram ao palco com os curativos e, ao ser questionado sobre o fato de comparecer ao show mesmo baleado, o músico disse a célebre frase: "As pessoas que estão tentando destruir o mundo não tiram um dia de folga. Como posso, eu, tirar, se estou fazendo o bem?" Após o ocorrido, o casal decidiu ir morar em Londres, por questão de segurança, e ficou oito meses sem tocar na Jamaica.

5) Cultura rastafari

Além de ser o maior expoente do gênero musical reggae, Bob Marley também é considerado o responsável por disseminar a cultura rastafari pelo mundo. Em suas falas e canções, Bob transmitia o estilo de vida da religião da qual era adepto, cujos valores mais fundamentais eram: a supremacia negra e valorização das raízes africanas, além do desejo de retorno à África, a terra prometida.

Na Etiópia, terra de Haile Selassie I, considerado um deus e a máxima encarnação do poder da religião rastafari, Bob é considerado herói nacional. Em 2005, Rita Marley afirmou que iria exumar os restos de Bob e enterrá-lo em um "local de descanso espiritual" na Etiópia. A declaração gerou fortes protestos na Jamaica.

6) Estupro

Um dos pontos mais controversos da história de Bob Marley veio à tona em 2004 quando Rita, que lançava o livro "No Woman No Cry: Minha Vida com Bob Marley", deu depoimentos controversos à imprensa britânica sobre seu relacionamento com Bob. Na ocasião, tabloides ingleses deram uma ampla repercussão à declaração em que ela dizia ter sido estuprada pelo marido. Após a história ter tomado grandes proporções, Rita concedeu novas entrevistas esclarecendo que suas declarações foram retiradas do contexto e que seu marido "não era um estuprador".

7) Morte

Durante uma partida de futebol em Londres em 1977, Bob machucou o dedão do pé direito e, como consequência do ferimento não tratado, a unha do pé caiu. Somente em 1980, quando o ídolo passou mal no palco em uma turnê nos EUA, descobriu-se que na verdade ele tinha uma espécie de câncer de pele, chamado melanoma maligno, que se desenvolveu sob sua unha. A recomendação médica foi para que amputasse o dedo, mas ele recusou o procedimento devido à crença rastafari.

O câncer se espalhou para o resto do corpo, afetando cérebro, pulmão e estômago. O músico foi se tratar na Alemanha com o médico naturalista Joseph Issels, mas após oito meses de tratamento, foi desenganado. Decidiu, então, voltar à Jamaica para morrer junto a família e amigos, mas no meio da viagem teve que ser internado às pressas em Miami, onde morreu no dia 11 de maio de 1981, na companhia da mãe, quando estava no auge da carreira, aos 36 anos de idade.

Veja o documentário Time Will Tell: 



*Vanessa Martina Silva é repórter especial do OperaMundi

Cinema brasileiro tem presença expressiva no Festival de Berlim

O cinema brasileiro tem participação expressiva na 65ª edição do Festival Internacional de Cinema de Berlim – Berlinale -, que começou nesta quinta-feira (5) na capital alemã e vai até o próximo dia 15. Ao todo, 14 filmes brasileiros participam de cinco mostras do festival, enquanto 13 profissionais marcam presença no Berlinale Talents, o grande encontro de profissionais do setor.


Divulgação
Cena do filme <i>Ausência</i>, de Chico Teixeira, que está na mostra Panorama, do festival Cena do filme Ausência, de Chico Teixeira, que está na mostra Panorama, do festival
De acordo com nota divulgada nesta quinta-feira pela Agência Nacional do Cinema (Ancine), oito filmes e três profissionais estão na Berlinale, com o apoio da instituição. Na seção do festival destinada a trabalhos de vanguarda e experimentais, estão participando os filmes Brasil S/A, de Marcelo Pedroso, e Beira-Mar, de Marcio Reolon e Filipe Matzembacher. As duas produções foram apresentadas ao curador Christoph Terhechte em outubro do ano passado, durante a oitava edição do Programa Encontros com o Cinema Brasileiro, promovido pela Ancine.

Na mostra Panorama, foram selecionados para esta edição quatro filmes brasileiros: Sangue Azul, de Lírio Ferreira, que abre a mostra; Ausência, de Chico Teixeira; Que Horas Ela Volta?, de Anna Muylaert; e Jia Zhang-ke, um Homem de Fenyang, de Walter Salles. Os três primeiros foram contemplados pelo programa de apoio da agência.

Os longas Beira-Mar, Ausência e Sangue Azul também estão indicados ao prêmio Teddy, que o Festival de Berlim concede às melhores obras que abordem a temática LGBT (lésbicas, gays, bissexuais, transexuais e transgêneros). Em 2014, o vencedor nessa categoria foi um filme brasileiro, Hoje Eu Quero Voltar Sozinho, de Daniel Ribeiro.

Na seção Berlinale Shorts, dedicada aos curtas-metragens, o representante brasileiro é o filme Mar de Fogo, de Joel Pizzini. Na mostra NATIVe, de cinema indígena, que este ano terá como foco as produções da América Latina, o Brasil comparece com quatro filmes: Hepari Idub'rada, Obrigado Irmão, de Divino Tserewahú (1998); O Mestre e o Divino, de Tiago Campos Tôrres (2003); As Hiper Mulheres (Itão Keugü), de Carlos Fausto, Leonardo Sette e Takumã Kuikuro (2011); e Ma Ê Dami Xina - Já me Transformei em Imagem, de Zezinho Yube (2008).

Fonte: Agência Brasil

Vale Cultura beneficia 339 mil trabalhadores


   

Oficialmente lançado pelo governo federal em março de 2014, o Vale Cultura beneficiou, desde então, 339,6 mil trabalhadores brasileiros. Neste período, os beneficiários utilizaram, ao todo, R$ 47,47 milhões no acesso a eventos, aquisição de produtos e pagamentos de mensalidades de cursos.


O benefício, no valor mensal de R$ 50, possibilita o acesso dos trabalhadores a teatros, museus, cinemas, shows e circos, por exemplo. O Vale-Cultura pode ser utilizado para compra de CDs, DVDs, livros, revistas e jornais. Além disso, é permitido o uso do cartão para pagamento de mensalidade de cursos de artes, audiovisual, dança, circo, fotografia, música, literatura ou teatro.

De acordo com a Caixa Econômica Federal, mais de R$ 35 milhões foram gastos no setor de livros, jornais e revistas. O valor corresponde a 74% do consumo total dos beneficiários do Vale Cultura.

Além disso, os trabalhadores utilizaram R$ 8,1 milhões em ingressos nos cinemas. A expectativa da Federação Nacional das Empresas Exibidoras Cinematográficas (Feneec) é que esse valor aumente ainda mais em 2015.

Uma das formas utilizadas pela federação para incentivar a utilização do Vale-Cultura nos cinemas são as propagandas. Para o presidente da instituição, Paulo Lui, o benefício é um incentivo para aqueles que perderam o hábito de assistir filmes.

Ainda segundo a Caixa, demais setores culturais representam cerca de 10% do consumo com o cartão, sendo que as lojas de instrumentos musicais são responsáveis por 2% do total gasto com no último ano. Teatros são escolhidos por 1% dois beneficiários do programa.

Adesão

O Vale-Cultura pode ser oferecido a trabalhadores com carteira assinada por empresas e entidades com personalidade jurídica. Para isso, o empregador precisa aderir ao Programa Cultura do Trabalhador, do Ministério da Cultura.

Em contrapartida, as empresas que aderirem ao programa terão isenção do governo federal de encargos sobre o valor do benefício concedido. Além disso, as despesas no Imposto de Renda poderão serão abatidas em até 1% do imposto devido.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Carnaval, suor e resistência

Durante os anos de chumbo da ditadura militar brasileira, diversas foram as formas que coletivos encontraram de se expressar e neste contexto de medo e repressão, algumas escolas de samba não deixaram os crimes da ditadura embaixo do tapete para entrar na avenida, pelo contrário, trouxeram à luz um grito de liberdade.


Por Mariana Serafini, do Vermelho


Reprodução
Desfile da Acadêmicos do Salgueiro em 1968 Desfile da Acadêmicos do Salgueiro em 1968
O Carnaval, enquanto expressão popular, canta todos os anos – em maior ou menor escala – a realidade do povo brasileiro. Durante a ditadura militar não foi diferente, apesar da censura constantes do Dops, alguns sambistas corajosos fizeram de seus sambas enredo verdadeiros gritos de resistência.

Com samba no pé, as escolas de samba Acadêmicos do Salgueiro, Império Serrano e Vila Isabel não dançaram a música que a ditadura tocou. Cantaram contra o regime, mesmo com censura e ameaças. 

A Salgueiro desfilou em 1967 com o enredo A história da liberdade no Brasil, onde exaltou lutas populares. Todos os ensaios foram monitorados pelo Dops, que liberou a escola para o desfile na Sapucaí.

Já a Império Serrano se arriscou logo no primeiro carnaval depois do AI-5, o ano era 1969 e os compositores Silas de Oliveira, Mano Décio da Viola e Manuel Ferreira foram obrigados a mudar a palavra “revolução” por “evolução” no samba-enredo Heróis da Liberdade.

A música usava como plano de fundo a Inconfidência Mineira: “Ao longe soldados e tambores/Alunos e professores/Acompanhados de clarim/Cantavam assim/Já raiou a liberdade/A liberdade já raiou/Essa brisa que a juventude afaga/Essa chama/ Que o ódio não apaga pelo universo/É a revolução em sua legítima razão”. Considerada subversiva, a frase foi reescrita. “É a evolução em sua legítima razão”.

A Unidos de Vila Isabel levou para a avenida o samba Sonho de um Sonho, já nos anos 80, ainda sob a ditadura. Inspirada na poesia de Carlos Drummond de Andrade e assinada por Martinho da Vila, a composição clamou por liberdade sem disfarçar: “Um sorriso sem fúria entre o réu e o juiz/A clemência e a ternura por amor da clausura/A prisão sem tortura, inocência feliz/Ai meu Deus/Falso sonho que eu sonhava”.

A música que a ditadura tocou

Porém, nem só a resistência cantaram as escolas de samba, algumas usaram a avenida para impulsionar e fortalecer o regime opressor. Foi o caso da Beija-Flor de Nilópolis que nos carnavais de 1974 e 1975 propagou o ideal militar de que “este era o país de um presente grandioso e um futuro promissor”.

No samba Grande Decênio de 1974 a escola levou para avenida uma verdadeira “propaganda” da ditadura: “Nas asas do progresso constante/ Onde tanta riqueza se encerra/ Lembrando PIS e Pasep/ E também o Funrural/ Que ampara o homem do campo/ Com segurança total/ O comércio e a indústria/ Fortalecem nosso capital/ Que no setor da economia/ Alcançou projeção mundial/ E lembraremos também/ O Mobral, sua função/ Que para tantos brasileiros/ Abriu as portas da educação”

A Imperatriz Leopoldinense foi ainda mais longe e usou um dos lemas do governo de Emílio Garrastazu Médici em seu samba enredo. Por meio do personagem Martim Cererê de Cassiano Ricardo, a escola cantou o refrão: “Gigante pra frente a evoluir / Milhões de gigantes a construir /Vem cá Brasil/Deixa eu ler/ A sua mão menino/ Que grande destino/Reservaram pra você”.

De uma forma mais discreta, a Estação Primeira de Mangueira usou as belezas naturais para destacar o período que o país vivia em 1970 com Um cântico à natureza: “Oh, lugar! / Oh, lugar! / Tudo que se planta dá / Terra igual essa não há/ Isso é Brasil!”.

quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Jardim histórico da Casa de Rui Barbosa, no Rio, começa a ser revitalizado

ABr
Local é vinculado ao Ministério da Cultura

Museu Casa de Rui Barbosa: Local é vinculado ao Ministério da Cultura
Aos 165 anos, o jardim do Museu Casa de Rui Barbosa, em Botafogo, no Rio, vai ser revitalizado. Localizado na Rua São Clemente, o museu é vinculado ao Ministério da Cultura e funciona na casa em que o jurista baiano viveu até 1923. As informações são da Agência Brasil.
"Vai ser uma obra de engenharia profunda. Essa parte nós vamos trabalhar em associação com a Fundação Darcy Ribeiro", disse à Agência Brasil o presidente da Fundação Casa de Rui Barbosa, professor Manolo Florentino. Segundo o professor, será o primeiro processo de revitalização de jardim histórico no Brasil em grande escala, e é possível que surjam, no decorrer dos trabalhos, problemas inéditos.
Por isso, será preciso criar técnicas, além do próprio processo de revitalização. Cada etapa será filmada e registrada, para ser transformada depois em livro. De acordo com Florentino, a ideia é devolver as informações às faculdades de urbanismo, paisagismo e arquitetura como um conhecimento novo, específico. A obra vai garantir a integridade do jardim, que data de 1850, por, no mínimo, as próximas três gerações, afirmou Florentino.
De acordo com o professor, será também o primeiro projeto no país, em grande escala, nos moldes propostos pela Carta de Florença, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco), e pela Carta dos Jardins Históricos Brasileiros. As duas convenções consideram tanto os valores culturais quanto os componentes ambientais na conceituação e definição dos princípios gerais de preservação de jardins históricos.
O início das obras está previsto para fevereiro e o término, para dezembro "ou, no máximo, para janeiro de 2016". O jardim tem área de 6,2 mil metros quadrados. Estão previstas melhorias na pavimentação e acessibilidade para  pessoas com necessidades especiais e idosos. Além disso, um novo sistema de iluminação e sinalização possibilitará atividades noturnas no jardim, cujo horário de fechamento será estendido das 18h para as 21h.
A revitalização do jardim do Museu Casa de Rui Barbosa terá apoio financeiro de R$ 3,6 milhões do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Esses recursos serão destinados à Fundação Darcy Ribeiro e se somarão a R$ 1,2 milhão oriundos do Fundo Nacional de Cultura, liberados com a mesma finalidade.
"Vai ser um processo sincrônico", disse Florentino, pois a verba do Fundo Nacional de Cultura irá para o restauro das estátuas, do quiosque e do mobiliário do jardim, "que custa muito caro". Os R$ 3,6 milhões do BNDES, cuja aprovação foi anunciada hoje (30), serão aplicados na parte específica do jardim e nas obras de engenharia.
De acordo com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), existem no Rio de Janeiro 40 jardins históricos. O BNDES trabalha com a perspectiva de que o projeto de revitalização do Museu Casa de Rui Barbosa abra espaço para iniciativas de manutenção e restauração de outros jardins históricos no país, em atendimento às normas de preservação patrimonial.

sexta-feira, 30 de janeiro de 2015

Prefeitura de São Paulo lança Empresa de Cinema e Audiovisual

O setor audiovisual da capital paulista, incluindo cinema, TV, games e conteúdos audiovisuais para web, ganhou uma parceria de peso no desenvolvimento de suas atividades. Nesta quarta-feira (28), foi lançada a SPCine - Empresa de Cinema e Audiovisual de São Paulo.


Gustavo Serrate
O ministro Juca Ferreira esteve no lançamento da SPCine e destacou as ações culturais que pretende desenvolver no Ministério da Cultura O ministro Juca Ferreira esteve no lançamento da SPCine e destacou as ações culturais que pretende desenvolver no Ministério da Cultura
O ministro da Cultura, Juca Ferreira, esteve no lançamento da SPCine que foi concebida e planejada durante sua gestão como secretário de Cultura da cidade de São Paulo. Para o ministro, "é uma empresa porosa e aberta para os produtores culturais. O que fizemos na SPCine e na Secretaria de Cultura de São Paulo como um todo foi fruto de diálogo amplo".

A empresa atua como um escritório de desenvolvimento, financiamento e implementação de programas e políticas para o setor audiovisual. Nasce com o objetivo de reconhecer e estimular o potencial econômico e criativo do audiovisual paulista e seu impacto em âmbito cultural e social.

A SPCine é uma iniciativa da Prefeitura de São Paulo, por meio da Secretaria Municipal de Cultura, em parceria com o Governo do Estado de São Paulo e o Ministério da Cultura (MinC), por meio da Ancine (Agência Nacional do Cinema). A gestão e os investimentos compartilhados entre as três esferas de governo é um de seus diferenciais.

Estiveram no lançamento, ao lado do ministro Juca Ferreira, o prefeito de São Paulo, Fernando Haddad; o presidente da Ancine, Manoel Rangel; o secretário nomeado de Cultura do município, Nabil Bonduki, o secretário interino de Cultura do município, Guilherme Varella; e Alfredo Manevy que foi apresentado, nesta noite, como diretor-presidente da SPCine.

Atuação


Entre seus eixos de atuação estão inovação, criatividade e acesso; desenvolvimento econômico; e integração e internacionalização.

Durante a cerimônia foram apresentadas, também, as áreas de atuação da empresa: a SP Film Comission será o escritório que viabilizará as filmagens na cidade de São Paulo; o Circuito SP vai buscar levar a experiência do cinema a todas as regiões da capital paulista; a Leia - Laboratório de Inovação e Experimentação Audiovisual buscará criar um ambiente propício a co-criação e ao desenvolvimento de novas ferramentas, produtos, soluções e modelos de negócio para o setor audiovisual; e a SP Bits será o conjunto de programas e ações para o mercado de games e cultura digital, vai estimular a produção nacional de jogos eletrônicos, incentivando o debate e implementando linhas de financiamento específica para impulsionar o desenvolvimento criativo e econômico da área.


Fonte: Ministério da Cultura

Forte de Copacabana abre programação dos 450 anos do Rio

O Forte de Copacabana abre o calendário de homenagens ao aniversário de 450 anos do Rio de Janeiro, comemorado em março, com programação especial. Em concerto gratuito no próximo sábado (31) a partir das 18 horas, a Orquestra Violões do Forte de Copacabana receberá a Orquestra Popular Tuhu, do projeto Villa-Lobos e as Crianças, para uma participação especial.


A Orquestra Violões do Forte de Copacabana é uma iniciativa do Instituto Rudá e do comando do Forte A Orquestra Violões do Forte de Copacabana é uma iniciativa do Instituto Rudá e do comando do Forte
Diretora executiva do Orquestra de Violões do Forte, Márcia Melchior informou que abrir a programação em homenagem aos 450 anos do Rio “é puro êxtase”. Do repertório, constam Bossa Nova e o melhor da música popular brasileira (MPB) de raiz. “É um repertório exclusivamente popular brasileiro. O público desfrutará de grandes obras de nossos melhores compositores, além de arranjos inéditos do jovem maestro Luiz Potter.”

A Orquestra Violões do Forte de Copacabana é uma iniciativa do Instituto Rudá e do comando do Forte. O projeto promove a inclusão social e cultural de crianças e jovens de comunidades do estado. Participam da orquestra 30 jovens. A coordenação musical é do músico Antonio Carlos, da dupla Antonio Carlos e Jocafi. Os arranjos são feitos por Flavio Goulart de Andrade e a regência, por Luiz Henrique Potter.

Já o Villa-Lobos e as Crianças oferece oportunidades profissionais para jovens talentos de classes sociais menos favorecidas. A base são os ensinamentos pedagógicos do maestro e compositor Heitor Villa-Lobos. Neste conceito, foi criada a Orquestra Popular Tuhu – apelido de Villa-Lobos quando criança. O projeto é coordenado por Maria Clara Barbosa, cavaquinista formada pela Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro (UniRio), com direção musical de Turíbio Santos.

A Orquestra Popular Tuhu é apoiada pelo Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), pela Escola de Artes Visuais (EAV) do Parque Lage, pelo Instituto Superior de Educação do Rio de Janeiro (Iserj) e pela Academia Brasileira de Música. A iniciativa tem patrocínio da Petrobras e da Federação das Empresas de Transportes de Passageiros do Estado do Rio de Janeiro (Fetranspor).

O Forte de Copacabana fica na Praça Coronel Eugênio Franco, Posto 6, Zona Sul da capital Fluminense. Informações podem ser obtidas pelo telefone 21- 25211032.

Rio promove 450 tours gratuitos

A Prefeitura do Rio de Janeiro, por meio da Secretaria de Turismo e da Riotur, irá oferecer, 450 passeios guiados por alguns dos locais mais belos da cidade até o dia 1° de março no projeto Rio Walking Tour em comemoração dos 450 anos. São seis roteiros, sendo três naturais (com capacidade de atender até 20 pessoas por vez) e três históricos-culturais (para até 30 pessoas).

Os roteiros naturais exploram o Parque Nacional da Tijuca, o Morro da Urca e as Cachoeiras do Horto, enquanto os de perfil histórico-cultural levam cariocas e turistas a conhecerem a Zona Portuária e Pequena África , (passado e futuro do Porto Maravilha), Rio 450 anos (no Centro, entre o Saara e a Cinelândia, com destaque para arquitetura) e Rio Cultural (no Centro, entre a Candelária e a Praça XV, com destaque para igrejas, centros culturais e construções históricas).

Os passeios acontecem de terça a domingo até o dia 1° de março. Os roteiros detalhados e as inscrições (que podem ser feitas até às 20h do dia anterior ao passeio desejado) estão disponíveis na Internet.

Esta é a segunda edição do projeto “Rio Walking Tour”, lançado durante a Copa do Mundo no Brasil e que levou 689 pessoas de 35 países diferentes a participar dos tours gratuitos, oferecidos em três bairros da cidade, nos dias em que não ocorreram jogos da seleção brasileira ou partidas no Maracanã.

Também estão previstas na programação da trezena visitas a instalações do Departamento Geral de Ações Sócio-Educativas (Degase), ao complexo penitenciário de Bangu, ao Quartel-General da Polícia Militar, ao Maracanã, ao Cristo Redentor e a diversos hospitais, asilos, cemitérios e igrejas da cidade.

Programação completa aqui.

Fonte: Correio do Brasil

Mostra ‘Mestres do Samba’

Visitantes poderão conferir 17 capas de artistas renomados que marcaram época e popularizaram o ritmo brasileiro

Samba: Visitantes poderão conferir 17 capas de artistas renomados que marcaram época e popularizaram o ritmo brasileiro
Resende

O Carnaval está chegando e até a arte já está no clima da festa. Em Resende, no mês da folia, o projeto Arte na Capa terá o samba como tema, com a exposição “Mestres do Samba”. A exposição, que todo mês retrata o trabalho artístico das capas dos antigos discos de vinil, é uma realização da Fundação Casa da Cultura Macedo Miranda, por meio do Museu da Imagem e do Som (MIS). Se você é fã no vinil e adora um bom samba, anote na agenda! A exposição ficará aberta à visitação entre os dias 2 e 27 de fevereiro, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. E a entrada será gratuita.
Segundo o diretor do MIS, Guilherme Rodrigues, os visitantes que comparecerem à exposição poderão conferir 17 capas de artistas renomados que marcaram época e popularizaram esse ritmo brasileiro. O material da exposição faz parte do acervo do MIS e conta com discos de artistas do passado como Cartola, Roberto Silva, Paulo Freire, Moreira da Silva, Os difusores do Samba, Os Originais do Samba, Os Crioulos da Paulicéia, as Eternas Cantoras do Rádio; e de hoje, como Beth Carvalho, Arlindo Cruz e Paulinho da Viola, entre outros.
E o melhor! Durante a visita, o público poderá, inclusive, ouvir as faixas musicais dos discos.
- O Carnaval é uma das festas mais importantes do país e o samba tem uma contribuição enorme para a sua popularização. Por isso, resolvemos com esta exposição prestar uma homenagem a esses artistas que com seu trabalho contribuíram para o fortalecimento do nosso samba – destaca Guilherme Rodrigues.


Serviço


A exposição ‘Mestres do Samba’ ficará aberta à visitação entre os dias 2 e 27 de fevereiro, no Museu da Imagem e do Som, em Resende, de segunda a sexta-feira, das 8h às 17h. A entrada é gratuita.

quarta-feira, 28 de janeiro de 2015

Por que as crianças francesas não têm Déficit de Atenção?

Como é que a epidemia do Déficit de Atenção, que tornou-se firmemente estabelecida em vários países do mundo, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?

por Marilyn Wedge, em Psichology Today Tradução: Equilibrando
Nos Estados Unidos, pelo menos 9% das crianças em idade escolar foram diagnosticadas com TDAH (Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade), e estão sendo tratadas com medicamentos. Na França, a percentagem de crianças diagnosticadas e medicadas para o TDAH é inferior a 0,5%. Como é que a epidemia de TDAH, que tornou-se firmemente estabelecida nos Estados Unidos, foi quase completamente desconsiderada com relação a crianças na França?
déficit atenção crianças
Déficit de Atenção em crianças francesas é inferior a 0,5% (Foto: Ilustração)
TDAH é um transtorno biológico-neurológico? Surpreendentemente, a resposta a esta pergunta depende do fato de você morar na França ou nos Estados Unidos. Nos Estados Unidos, os psiquiatras pediátricos consideram o TDAH como um distúrbio biológico, com causas biológicas. O tratamento de escolha também é biológico – medicamentos estimulantes psíquicos, tais como Ritalina e Adderall.
Os psiquiatras infantis franceses, por outro lado, vêem o TDAH como uma condição médica que tem causas psico-sociais e situacionais. Em vez de tratar os problemas de concentração e de comportamento com drogas, os médicos franceses preferem avaliar o problema subjacente que está causando o sofrimento da criança; não o cérebro da criança, mas o contexto social da criança. Eles, então, optam por tratar o problema do contexto social subjacente com psicoterapia ou aconselhamento familiar. Esta é uma maneira muito diferente de ver as coisas, comparada à tendência americana de atribuir todos os sintomas de uma disfunção biológica a um desequilíbrio químico no cérebro da criança.
Os psiquiatras infantis franceses não usam o mesmo sistema de classificação de problemas emocionais infantis utilizado pelos psiquiatras americanos. Eles não usam o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders ou DSM. De acordo com o sociólogo Manuel Vallee, a Federação Francesa de Psiquiatria desenvolveu um sistema de classificação alternativa, como uma resistência à influência do DSM-3. Esta alternativa foi a CFTMEA (Classification Française des Troubles Mentaux de L’Enfant et de L’Adolescent), lançado pela primeira vez em 1983, e atualizado em 1988 e 2000. O foco do CFTMEA está em identificar e tratar as causas psicossociais subjacentes aos sintomas das crianças, e não em encontrar os melhores bandaids farmacológicos para mascarar os sintomas.
Na medida em que os médicos franceses são bem sucedidos em encontrar e reparar o que estava errado no contexto social da criança, menos crianças se enquadram no diagnóstico de TDAH. Além disso, a definição de TDAH não é tão ampla quanto no sistema americano, que na minha opinião, tende a “patologizar” muito do que seria um comportamento normal da infância. O DSM não considera causas subjacentes. Dessa forma, leva os médicos a diagnosticarem como TDAH um número muito maior de crianças sintomáticas, e também os incentiva a tratar as crianças com produtos farmacêuticos.
A abordagem psico-social holística francesa também permite considerar causas nutricionais para sintomas do TDAH, especificamente o fato de o comportamento de algumas crianças se agravar após a ingestão de alimentos com corantes, certos conservantes, e / ou alérgenos. Os médicos que trabalham com crianças com problemas, para não mencionar os pais de muitas crianças com TDAH, estão bem conscientes de que as intervenções dietéticas às vezes podem ajudar. Nos Estados Unidos, o foco estrito no tratamento farmacológico do TDAH, no entanto, incentiva os médicos a ignorarem a influência dos fatores dietéticos sobre o comportamento das crianças.
E depois, claro, há muitas diferentes filosofias de educação infantil nos Estados Unidos e na França. Estas filosofias divergentes poderiam explicar por que as crianças francesas são geralmente mais bem comportadas do que as americanas. Pamela Druckerman destaca os estilos parentais divergentes em seu recente livro, Bringing up Bébé. Acredito que suas idéias são relevantes para a discussão, por que o número de crianças francesas diagnosticadas com TDAH, em nada parecem com os números que estamos vendo nos Estados Unidos.
A partir do momento que seus filhos nascem, os pais franceses oferecem um firme cadre – que significa “matriz” ou “estrutura”. Não é permitido, por exemplo, que as crianças tomem um lanche quando quiserem. As refeições são em quatro momentos específicos do dia. Crianças francesas aprendem a esperar pacientemente pelas refeições, em vez de comer salgadinhos, sempre que lhes apetecer. Os bebês franceses também se adequam aos limites estabelecidos pelos pais. Pais franceses deixam seus bebês chorando se não dormirem durante a noite, com a idade de quatro meses.
Os pais franceses, destaca Druckerman, amam seus filhos tanto quanto os pais americanos. Eles os levam às aulas de piano, à prática esportiva, e os incentivam a tirar o máximo de seus talentos. Mas os pais franceses têm uma filosofia diferente de disciplina. Limites aplicados de forma coerente, na visão francesa, fazem as crianças se sentirem seguras e protegidas. Limites claros, eles acreditam, fazem a criança se sentir mais feliz e mais segura, algo que é congruente com a minha própria experiência, como terapeuta e como mãe. Finalmente, os pais franceses acreditam que ouvir a palavra “não” resgata as crianças da “tirania de seus próprios desejos”. E a palmada, quando usada criteriosamente, não é considerada abuso na França.
Como terapeuta que trabalha com as crianças, faz todo o sentido para mim que as crianças francesas não precisem de medicamentos para controlar o seu comportamento, porque aprendem o auto-controle no início de suas vidas. As crianças crescem em famílias em que as regras são bem compreendidas, e a hierarquia familiar é clara e firme. Em famílias francesas, como descreve Druckerman, os pais estão firmemente no comando de seus filhos, enquanto que no estilo de família americana, a situação é muitas vezes o inverso.

Exposição ‘Imaginário Religioso’ pode ser conferida até sábado em Barra Mansa

Divulgação
Mostra conta com aproximadamente 30 peças, dividas em fotografias, vídeos e objetos

Variedade artística: Mostra conta com aproximadamente 30 peças, dividas em fotografias, vídeos e objetos
A Fundação de Cultura de Barra Mansa e o Sistema Firjan estão apresentando a exposição "Imaginário Religioso", dos fotógrafos Gabriel Borges e Sérgio Fortuna. A mostra conta com 24 fotografias, no formato 30x40 e seis impressas em PVC. Além das fotos, os visitantes podem assistir vídeos do Clube dos Motociclistas, que mostram suas viagens à Aparecida do Norte. Os trabalhos ficam até sábado, dia 31, no Centro de Cultura Fazenda da Posse, em Barra Mansa.
De acordo com o superintendente da Fundação de Cultura, Cláudio Chiesse, as imagens relatam as manifestações religiosas no município.
- Na exposição podemos identificar a diversidade cultural e religiosa remanescentes em Barra Mansa - diz o superintendente, acrescentando ainda que a mostra conta com alguns objetos da procissão de barcos pelo Rio Paraíba do Sul, em alusão ao Dia de Nossa Senhora Aparecida, comemorado no dia 12 de outubro. "As imagens encantam, por ser o momento exato de captação da fé", afirma Cláudio Chiesse.
- A mostra nos dá uma autocrítica sobre o nosso trabalho, além de nos proporcionar um crescimento inestimável como profissionais - diz o fotógrafo Sérgio Fortuna. Segundo Gabriel Borges, um dos artistas, suas obras retratam a religiosidade tradicional de Barra Mansa. "As minhas fotografias são basicamente da Paixão de Cristo, que acontece em Rialto, consagrada como uma das festas mais conhecidas do município. Nosso intuito foi a divulgação da cultura municipal", enfatiza o fotógrafo.

Serviço

A mostra ‘Imaginário Religioso' pode ser conferida até sábado, dia 31 de janeiro, com entrada gratuita. As visitas acontecem das 11h às 17h. As escolas interessadas podem agendar atividades e visitas orientadas ao Centro Cultural. O agendamento pode ser feito pelo telefone (24) 3322-3855 ou pelo email (fazendadaposse@uol.com.br). O Centro de Cultura Fazenda da Posse fica na Rua Dario Aragão, n° 2, Centro.

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Encontro discute formas de acelerar implantação do Cultura Viva

Representantes de 18 pontos de Cultura de 11 municípios fluminenses estão reunidos até este sábado (24) no distrito de Lumiar, em Nova Friburgo, região serrana do estado, para debater o trabalho que vem sendo feito e acelerar o processo de implantação da Política Nacional de Cultura Viva. O encontro faz parte da agenda do Fórum Estadual dos Pontos de Cultura, que se reúne mensalmente, de forma itinerante, nas diversas regiões fluminenses.

Reprodução
Encontro discute formas de acelerar implantação do Cultura Viva Encontro discute formas de acelerar implantação do Cultura Viva
Entidades sem fins lucrativos, que desenvolvem ações culturais continuadas em suas respectivas comunidades, os pontos de Cultura são os principais instrumentos de aplicação dessa política nacional, instituída em julho do ano passado pela Lei 13.018, que tem o objetivo de ampliar o acesso da população brasileira à cultura, mediante o fortalecimento das ações de grupos já atuantes na comunidade.

O encontro em Lumiar ocorre nos dois pontos de Cultura da comunidade, a Sociedade Musical Euterpe Lumiarense (Smel) e o Tesouros da Terra. Nesta sexta-feira, os participantes debateram, entre outros temas, a conjuntura nacional e estadual de políticas públicas do setor e a metodologia dos pontões – espaços ou redes regionais e temáticas que articulam os pontos de Cultura.

“A Euterpe é uma instituição centenária, que data de 1891, e mantém ao longo de todo esse tempo, uma banda de música com instrumentos de sopro. Por meio do Programa Pontos de Cultura, conseguimos revitalizar a banda, adquirindo novos instrumentos, e atualmente fazemos apresentações regulares na praça principal de Lumiar”, diz Sandra de Castro, coordenadora de projetos do Ponto de Cultura que abrigou os debates de hoje. No encerramento dos trabalhos do primeiro dia do encontro, os participantes assistiram a uma apresentação da banda.

Neste sábado, o Tesouros da Terra será sede do encontro. A pauta inclui uma conversa, às 11h, com a secretária de Cidadania e Diversidade Cultural do Ministério da Cultura, Ivana Bentes. “O Tesouros da Terra se dedica à identificação, valorização e registro do patrimônio imaterial da medicina popular, ervas e danças da região”, explica Maria Luiza Borba, coordenadora do espaço.

O estado do Rio de Janeiro tem atualmente 490 pontos e pontões de Cultura, espalhados por 67 municípios. A meta do Plano Nacional de Cultura é chegar a 1.248 pontos e pontões até 2020.

Fonte: Agência Brasil

Urariano Mota: Crítica ao Plano Nacional de Cultura

Clicando no link do Ministério da Cultura, pode se ver que o Plano Nacional de Cultura (PNC) é um conjunto de princípios, objetivos, diretrizes, estratégias e metas que devem orientar o poder público na formulação de políticas culturais.


Por Urariano Mota*, especial para o Vermelho


   
Previsto no artigo 215 da Constituição Federal, o Plano foi criado pela Lei n° 12.343, de 2 de dezembro de 2010. Seu objetivo é orientar o desenvolvimento de programas, projetos e ações culturais que garantam a valorização, o reconhecimento, a promoção e a preservação da diversidade cultural existente no Brasil”.

Mas, de modo mais preciso, em as metas do PNC podemos ver o que parecia ser apenas um mau anúncio. O plano que temos para a cultura no Brasil é iletrado, desde a sua origem e concepção. Quero dizer, de modo mais claro: em Temas, a literatura nem aparece. “Mas não está proibida”, poderia nos conformar um raro conformista. O problema é que no conjunto das “tags” do Plano Nacional de Cultura o luxo da literatura é lembrado apenas uma vez em “Livro, leitura e literatura”. O diabo é que ao se abrir essa tag, a literatura não é mencionada em nenhum dos resumos de qualquer Meta. A não ser, claro, que a expressão maior da língua de um povo esteja disfarçada em metas do gênero:

“Aumento em 150% de cursos técnicos, habilitados pelo Ministério da Educação (MEC), no campo da arte e cultura com proporcional aumento de vagas...”

ou em

“Aumento em 100% no total de pessoas qualificadas anualmente em cursos, oficinas, fóruns e seminários com conteúdo de gestão cultural, linguagens artísticas, patrimônio cultural e demais áreas da cultura”.

É preciso proclamar o quanto o rei está nu, e quase ninguém viu, ou reclamou ou deu importância. A nudez do rei: não existe uma só linha no Plano Nacional de Cultura – uma só, de esmola, pelo amor de Deus – não há uma só que se dedique à literatura brasileira.

A pesquisa há de notar a palavra “literatura”, o substantivo, na Meta 22 – “Aumento em 30% no número de municípios brasileiros com grupos em atividade nas áreas de teatro, dança, circo, música, artes visuais, literatura...”.

E de passagem em “1.5.4 Estabelecer programas específicos para setores culturais, principalmente para artes visuais, música, artes cênicas, literatura, audiovisual, patrimônio, museus e diversidade cultural...”

Para a palavra “escritores”, o plural, não há uma só ocorrência. Mas para “escritor” , o singular e raro, há muitas, sob a forma de “escritórios”. O que faz sentido.

Em algumas oportunidades, a literatura é chamada de “indústria cultural”, em outras, na maioria das vezes, aparece na frase “entre outras”, até o máximo do poder de síntese, quando a literatura surge na palavra “etc.”

Mas não pode haver má vontade, porque a arte literária aparece por um conteúdo implícito, quando se fala em “livros”. Sabemos todos, mas nunca é demais insistir, diante da diluição, má vontade ou ignorância que cerca a literatura: existem livros para tudo e para todas e todos, e nem todos são de literatura. Mas tentemos sair do cerne da confusão: façamos de conta que entre livros didáticos, técnicos, ou de boas maneiras, ou de receitas de cozinha e de como conseguir fortuna, amantes, fama e riqueza, façamos de conta que entre 100 best-sellers dos 50 tons venha 1 só livro de um poeta ou romancista cinzento. Então concedamos, olhemos a literatura como “livros”.

Vejamos. Na meta 20, fala-se em

“Aumentar para quatro a média de livros que os brasileiros leem por ano, fora da escola”

e daí se expressa um desejo:

“Para alcançar esta meta será necessário um esforço do poder público para esti¬mular o hábito da leitura no país. As ações deverão ser feitas por vários ministérios, em parceria com estados, cidades e organizações da sociedade civil”.

Onde se atinge a fronteira do ridículo, quando o desejo cai na seguinte tautologia:

“Em 2007, cada brasileiro com mais de cinco anos lia em média 1,3 livros por ano, por iniciativa própria, fora da escola.

Na pesquisa ‘Retratos da Leitura’ a metodologia para calcular a média de livros lidos foi alterada. Antes a média de leitura era medida ‘por ano’ e agora passou a ser medida ‘nos últimos três meses’. Segundo esta nova metodologia, a média de livros lidos fora da escola nos últimos 3 meses anteriores à pesquisa, realizada em 2008, foi de 1,05. Dessa forma, será necessário reformular o indicador da meta”. (Negrito tautológico meu)

Então ocorre uma luz de como a meta pode ser alcançada. Em outra meta (mé-ta) 32:

“100% dos municípios brasileiros com ao menos uma biblioteca pública em funcionamento - Ter pelo menos uma biblioteca pública ativa em cada cidade brasileira”

O diabo é que a Meta 32 vê as bibliotecas como “locais (que) contribuem para formar leitores e promover o hábito de leitura, e (que) são fundamentais para o acesso à informação e para a transmissão de conhecimentos”.

Menos, bem menos. Ou melhor, isso é um equívoco. Delega-se às bibliotecas uma finalidade impossível: a de formar leitores. Para quem as conhece, as bibliotecas apenas se mostram como um lugar passivo para o usufruto. O protagonismo, o ente fecundador vem da escola e da discussão que se estabeleça até fora da sala de aula com educadores públicos, mestres, escritores, e programas no rádio e televisão. Caso contrário, teremos bibliotecas como locais esplêndidos, com acervos fabulosos, mas lacrados, fechados, com um hímen sagrado que não tem força humana que o rompa.

Se a experiência de escritor serve para alguma coisa, eu lhes digo: não há uma genética para a leitura. E melhor ainda, para a literatura. Leitores não nascem. Leitores se formam antes da entrada em bibliotecas. Nas igrejas, rodas de amigos, encontros políticos, bares e cinemas. De um ponto de vista institucional, deveríamos ter a formação de leitores nas escolas, a partir do ensino fundamental até o médio. Leituras deveriam ser feitas por todos os mestres, de todas as especialidades. Leitura não é coisa de aula de português, não é exclusividade de professores de literatura. É da aula de química, de matemática, de história, de inglês, de espanhol, de educação física, da reunião de pais e mestres.

Enquanto não se articulam o Ministério da Cultura e o Ministério da Educação, o Plano Nacional de Cultura deveria ser fecundado por escritores e assimilar e aprender a experiência do Sesc em todo o Brasil, que mantém programas de encontros e palestras de literatura. Seria bom, para que o Plano fosse menos iletrado. Seria mais que bom, seria ótimo, se o Plano Nacional de Cultura superasse a confusão identidade que faz entre livros e arte literária. Isso, claro, quando não resume a literatura à genial síntese do etc.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

Luana Tolentino: Boneca da Estrela fere dignidade das crianças negras


Neguinha do espanador
Eu
Luana Tolentino: “Choque, repulsa, raiva, meu sangue ferveu. Foi o que eu senti quando vi a foto da boneca, com a participação do MuBe e da Estrela. “
por Conceição Lemes
Muitos dos leitores assíduos do Viomundo  já conhecem um pouco Luana Tolentino, sua história, leram seus textos aqui.
Para quem está chegando aqui agora Luana teve uma infância e adolescência difíceis, como toda criança e adolescente pobre e negra. Foi faxineira, babá. Num desses empregos, a filha da patroa deu-lhe pão mofado para comer, enquanto a menininha mimada comia pão fresco e quentinho que Luana acabara de trazer da padaria..
Na raça, Luana deu a volta por cima. Hoje, aos 31 anos, é historiadora formada pela UN-BH e professora de História para o ensino fundamental numa escola pública de Belo Horizonte. É também ativista do movimento negro e de mulheres.
Pois a meia hora recebi de Luana um e-mail indignadíssimo com a boneca “Neguinha do Espanador”, que integra a exposição Mail Art Cupcake Surpresa, uma parceria do  MuBe — Museu Brasileiro de Escultura — e Brinquedos Estrela.
O site do MuBe explica:
O Museu Brasileiro de Esculturas pediu para a Estrela, fabricante da Boneca Cupcake, fazer uma versão toda branca desta boneca. Elas foram mandadas, pelo correio, para vários artistas ou aspirantes ao redor do mundo, para que pudessem customizar a boneca da forma que quisessem (costurar, pintar, criar looks e cenários etc). O resultado é a concepção de uma série de obras com características particulares, dentre as quais vários toyarts, numa mistura de arte, moda e design, que o público vai poder conferir numa mostra de 80 bonecas.
Neste momento, a exposição Mail Art Cupcake Surpresa está no Shopping Market Place, em São Paulo, onde ficará até 8 de fevereiro.
“Na manhã de hoje, ao acessar o Faceboook, me deparei com a imagem da boneca ‘Neguinha do espanador’, compartilhada na página  Thaty Meneses“, conta. “Choque, repulsa, raiva, meu sangue ferveu. Foi o que eu senti quando vi a foto, participação do MuBe e da Estrela. ”
A  Thaty Meneses já tinha escrito no Face dela:
a legenda da boneca negra diz tudo: Ela tem um espanador na mão. É assim que as crianças negras se vêem em todo lugar. Em pleno 2015, é assim que somos representados. – “Tem pouquíssimas bonecas negras e a maioria delas está estereotipada sim. apenas uma delas está representada como algo não folclórico ou subserviente . Se não é a Estrela a responsável pela criação das caracterizações, ela é responsável pela curadoria da exposição e deveria saber que é inadmissível essa “neguinha do espanador” . Porque ninguém teve o input criativo de caracterizar uma das bonecas brancas como a loirinha do espanador?
“Gostaria que antes de acusarem nós, negros, de sentirmos vergonha da nossa cor, de vermos racismo em tudo, as pessoas tentassem por um instante se colocar no nosso lugar. Gostaria também que imaginassem o sentimento de uma criança negra ao olhar para essa boneca”, atenta Luana.
“‘Neguinha do Espanador’ fere a dignidade das crianças negras, contribui para a negação do pertencimento racial  e a baixa auto-estima delas”, denuncia Luana.
– Por que não a boneca lourinha com o espanador? 
“Porque  a ideologia racista incutiu na maioria da população brasileira a ideia de que homens e mulheres negras estão fadados a ocupações de menor prestígio-socioeconômico, como domésticas, faxineiras, cozinheiras, porteiros”, detona Luana.
“Nós, negras e negros, não aceitamos que nossas crianças sejam representadas como seres inferiores, destituídos de beleza e associados somente à profissões de menor prestígio social”, vai mais fundo Luana. “É sabido que no Brasil o emprego doméstico é ocupado majoritariamente por mulheres negras, na maioria das vezes, em situação degradante, com baixos salários, carga horária extensa e sem o recebimento de direitos trabalhistas.”
Na avaliação de Luana Tolentino, a boneca “Neguinha do Espanador” é ato de racismo explícito.
Por isso, já enviou à Ouvidoria da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial — a Seppir, da Presidência da República, esta denúncia:
Venho por meio desta denunciar a fabricante de Brinquedos Estrela.
Em exposição realizada no Shopping Market Place, na cidade de São Paulo, foi exposta a boneca “Neguinha do Espanador”, criada por Rita Caruso.
O brinquedo representa as crianças negras de maneira inferiorizada e ainda associa o povo negro às profissões de menor prestígio.
É sabido que o emprego doméstico é ocupado majoritariamente por mulheres negras, e na maioria das vezes em situação degradante, com extensa carga horária e sem direitos trabalhistas.
Acredito que a boneca fere a dignidade das crianças. Contribuiu para a negação do pertencimento racial  e para a baixa auto-estima. Acredito ainda que as crianças podem ser alvo de xingamentos e discriminação em função da boneca.
Encaminho uma foto para endossar a minha denúncia.
Certa de que providências serão tomadas, agradeço.
Luana solicita aos leitores que façam o mesmo. Basta enviar uma mensagem para ouvidoria@seppir.gov.br, com a imagem da boneca, o nome completo, identidade, CPF e o endereço do denunciante.
Leia também:

sexta-feira, 23 de janeiro de 2015

A palheta de Velázquez - por Mazé Leite


Detalhe da obra As Meninas,
onde Velázquez se retratou
Aqueles que pintam, hoje em dia sabem a quantidade enorme de cores colocadas à disposição de qualquer palheta de qualquer um, seja estudante, seja profissional. Para cada pigmento vermelho, uma infinidade de variações que chegam às minúcias de cores chamadas de “tons de pele”; para cada amarelo, variações que vão do clássico amarelo de Nápoles, passando pelos cadmios e pelos cromos, sendo que marcas como a Winsor & Newton tem seus próprios amarelos. Mas o que pode ser uma grande facilidade para os pintores de hoje, pode se transformar nos piores pesadelos - ou nas piores obras - se o encanto consumista por tanta variedade se sobrepuser ao sempre bom e necessário costume do estudo pessoal. Todo artista necessita conhecer seus materiais de trabalho, e o conhecimento técnico deles tem grande responsabilidade no êxito de sua arte.


Ariano Suassuna retratado por mim,
num exercício com a Palheta de Apeles
(Branco, Amarelo Ocre, Vermelho, Preto),
óleo sobre tela, 40x60cm, 2014
 
Tenho feito alguns estudos com palheta reduzida, ou seja, pintando com poucas cores. Fiz 3 pinturas usando a chamada "Palheta de Apeles", o pintor grego da antiguidade que usava somente Amarelo Ocre, Vermelho, Branco e Preto. Comprovei que muito se pode conseguir com pouco, pois o que importa é o aprendizado da manipulação das cores, o domínio técnico das misturas. Mas como continuo intrigada com esse assunto, resolvi pesquisar como pintava um dos meus artistas preferidos: Diego Velázquez, o pintor espanhol.

Na minha busca por informações, fui ao site do Museu do Prado. Lá encontrei textos produzidos por Carmen Garrido Pérez, uma das funcionárias do museu. Ela é a chefe do Gabinete de Documentação Técnica, doutora em História da Arte pela Universidade Autônoma de Madrid e especialista em documentação físico-química para investigações técnicas sobre pinturas históricas. Escreveu vários livros e textos sobre o assunto. Um desses livros é o “Velázquez: técnica y evolución”, que se encontra esgotado. Mas encontrei também artigos publicados por ela, inclusive em PDF, que me trouxeram informações muito úteis, as quais compartilho aqui.

Uma das frases que Carmen repete em seus artigos, resume muito sobre o pintor espanhol. Diz ela: “Velázquez é um artista que pensa muito e pinta pouco, que descarta de sua arte o supérfluo para ficar sempre com o que é essencial”. E demonstra como ao longo de toda a sua vida o pintor sevilhano não usou mais dos que 16 cores em suas palhetas.

O bufão Dom Sebastião de Morra, 1645
Esta informação foi dada após muitos anos de estudos realizados sob o patrocínio do Museu do Prado, em seus laboratórios, a partir de experiências com Raios X e fotografias com luz infravermelha, além de outros instrumentos de medição científicos. O Gabinete de Documentação Técnica do Museu vem acumulando um grande arquivo, diz Carmen, de mostras de telas antigas e mais modernas e têm sido feito estudos muito aprofundados em obras de Zurbarán, Murillo e Velázquez.

Os dados recolhidos até agora, por esses estudos, abarcam cerca de 30 anos da carreira de Diego Velázquez, ainda faltando mais estudos sobre as etapas em que ele viveu em Sevilha e em sua segunda viagem à Itália. Mas, diz Carmen, as cores usadas por ele variaram pouco de um quadro a outro, incluindo o período em que residiu em Roma, de 1629 a 1631. Ela aponta ainda que há uma similaridade nos materiais artísticos usados por espanhois e holandeses, aproximando muito a prática técnica de Rembrandt com a de Velázquez.

As cores de Velázquez

Nos estudos de Carmen Garrido, baseados em micro-amostras de telas analisadas mediante dispersão de Raios X, ela identificou todas as cores que Velázquez teria usado ao longo de sua vida:

1 - Branco de Chumbo
2 - Amarelos - à base de Terras de Óxido de Ferro, Chumbo, Estanho, Antimônio e que hoje correpondem a: a) AMARELO DE CADMIO LIMÃO - b) AMARELO DE NÁPOLES (só usou uma vez) - c) AMARELO OCRE
3 - Vermelhos - foram detectados 3 nas análises, 01 de base de metal e 02 de terra: a) VERMELLION (base de Cinábrio, metal pesado de Sulfureto de Mercúrio) - hoje: VERMELHO DE CADMIO - b) TERRA DE SEVILHA - hoje: VERMELHO INGLÊS (Óxido de Ferro) - c) TERRA DE SENA QUEIMADA - base: Óxido de Ferro Laranja
4 - Marrons: a) TERRA DE SOMBRA NATURAL - b) TERRA DE SOMBRA QUEIMADA (bases: Óxido de Ferro e Manganês)
5 - Azuis - raramente Velázquez usou o Ultramarino, pois o preço do Lapislázuli era muito caro, pedra vinda do Afeganistão: a) AZUL DA PRÚSSIA (ou Azurita, base: Cianureto de Ferro) - b) AZUL DE COBALTO (Óxido de Cobalto ou de Alumínio) - c) AZUL ULTRAMAR
6 - Pretos - vários pretos extraídos da combustão de ossos e outros materiais. Hoje usamos o Preto de Marfim (Ivory Black)

Mais tarde ele também passou a usar um Terra Verde.
As meninas, 1656

No quadro mais conhecido deste pintor espanhol, se pode ver uma de suas prováveis palhetas, formada por 9 cores: Branco de Chumbo, Laranja (Vermellion de Cinabrio), Vermelho (Terra vermelha de Sevilha), Amarelo Ocre, Carmin, Sombra Queimada, Sombra Natural, Azul da Prússia, Preto de Fumo.

Entre seus pigmentos, Velázquez não introduziu substâncias químicas novas, e não aparece nenhum pigmento que ele já não tivesse usado, continua Carmen: “Sin embargo, en su manipulación de los pigmentos, se mostró un pintor ingenioso en un momento en que las novedades eran incontables a través de Europa”. E diz mais: “nos parece que uno de los aspectos más fascinantes de las prácticas de Velázquez fue su desviación de la teoría autorizada de su tiempo”.

Carmen Garrido diz que, salvo algumas exceções, Velázquez utilizou os mesmos pigmentos ao longo de toda a sua carreira, mudando apenas a maneira de misturá-los e de aplicá-los. Ele era “capaz de crear con sólo cinco o seis pigmentos una obra maestra”.


Menipo, 1639
As investigações técnicas sobre a obra de Velázquez no Museu do Prado têm revelado muito sobre a maneira de trabalhar de um dos maiores gênios da pintura mundial. A partir desses estudos, se tem visto que Velázquez escolheu cuidadosamente cada um dos materiais que usou para pintar, tanto por sua qualidade como por sua aplicação em cada momento. Assim, na medida em que sua técnica vai evoluindo, seus suportes e preparações de pigmentos também vão se modificando. “Los pigmentos, más o menos los mismos durante toda su carrera, irán variando en sus moliendas, en sus mezclas y en la manera de ser aplicados, ya que la evolución de su trazo así lo determina”, aponta Carmen.

Na época de Velázquez já era habitual para os pintores o uso das telas. Dependendo da etapa em que estava, ele escolhia como tecido o Linho ou Cânhamo com densidades diferentes. Ele sabia que estas texturas diversas alteravam a visão final da obra. De acordo com os efeitos óticos que ele desejasse, selecionava os suportes (telas), os pigmentos, a técnica e os recursos oportunos para conseguir materializar suas ideias.

Carmen Garrido, com sua experiência de décadas de trabalho em museus, diz que a maioria dos quadros que hoje vemos nesses espaços culturais já foram reentelados. Mas entre as obras de Velázquez do Museu do Prado existem oito com seus suportes originais, tal como o pintor os fez, o que possibilita uma grande quantidade de detalhes sobre seus métodos de trabalho, incluindo as pinceladas de provas, as costuras de pedaços de tecido adicionados, e as imprimações. “Además, estas pinturas conservan su capa pictórica en un estado próximo al de su ejecución, como puede verse en ‘La coronación de la Virgen’ o en el ‘Mercurio y Argos’”.

Uma vez colocado o tecido no chassi de madeira, era feita a preparação do tecido (muitas com cola de origem animal, para proteger o tecido da química dos pigmentos) e a imprimação. O objetivo da imprimação é o de servir de “fundo ótico” para o quadro e aos efeitos coloridos da pintura. Segundo Francisco Pacheco (pintor, escritor e sogro de Velázquez), na primeira etapa de sua carreira ele utilizava “Terra de Sevilha”, um Terra de tom ocre médio, como imprimação.

Já em Madrid, para onde se mudou em 1623, nosso pintor abandona os materiais sevilhanos e começa a trabalhar com um tecido com diferentes tipos de densidades e um trançado mais fino. Sobre ele, aplicava uma dupla camada de base, a primeira na cor branca e depois uma imprimação feita com Terra Vermelha, chamada “tierra de Esquivias” pelos pintores da escola madrilenha. Mas ele também adotou a forma italiana das preparações de tela brancas mais ou menos manchadas com cinzas ou em ocre, o que dava uma combinação perfeita para conseguir os efeitos de superfície, de luminosidade dos fundos e de suas cores.

Ainda segundo Carmen Garrido Pérez, durante a primeira viagem à Itália, Velázquez pintou dois grandes quadros: “A túnica de José” e “A Forja de Vulcano”. O primero, que se encontra no Real Monasterio del Escorial, é uma obra de experimentação com relação às telas (tela napolitana pavimentosa), os fundos (Terra napolitana) e a introdução de alguns pigmentos, como o Amarelo de Nápoles, que Velázquez não usou nunca mais. 


A Forja de Vulcano (1630), cuja imprimação
Velázquez fez só com Branco de Chumbo
Mas foi em “A Forja de Vulcano” que o pintor encontrou o caminho por onde seguirá desenvolvendo sua pintura nos anos posteriores. Sua preparação, continua descrevendo Carmen, foi aplicada com uma espátula e o Branco de Chumbo substituiu as imprimações anteriores feitas com os Terras. O Branco de Chumbo é muito opaco e denso, criando com isso um efeito ótico muito luminoso, observa ela. Velázquez dava muita importância a esses fundos bem preparados, o que se pode ver através desses exames radiográficos que mostram a evolução do pintor, tanto com os materiais como com a forma de aplicá-los, o que lhe dá uma identidade pessoal.

Carmen também observou, a partir de seus estudos técnicos, que salvo uma ou outra exceção, Velázquez nunca volta atrás em sua evolução. Quando adota um novo tipo de tela, algum material ou uma forma concreta de aplicá-los, “deixa de utilizar o anterior”. Por sobre as imprimações, ele fazia um esboço com poucas linhas para situar a composição, que também apareceu após os exames com reflectografia infravermelha. Além disso, ele "pinta siempre a la “prima”, aunque en su mente ha desarrollado con anterioridad la idea de lo que quiere llevar al lienzo. Si algún detalle no le satisface, lo corrige superponiendo el cambio en su trabajo directo sobre el cuadro”.

O espelho de Vênus, 1650
A pesquisadora espanhola também observa que os pintores do século XVII fabricavam suas cores misturando pigmentos de origem orgânica, como as lacas, ou os de origem inorgânico, como os minerais, com aglutinantes proteicos e substancias oleaginosas. As moagens e as misturas eram feitas nos ateliês,  procurando sempre a máxima estabilidade dos materiais. Velázquez sempre empregou pigmentos de boa qualidade e óleos preparados e depurados. Em vista desse cuidado, suas pinturas, apesar do tempo passado, não amarelaram e nem escureceram em excesso, conservando sua transparência e colorido. Em suas misturas, a proporção de aglutinantes como colas ou ovos, e dos óleos, eram determinadas pelas transparências que ele queria alcançar. 

A pintura de Velázquez é resultado “de un largo proceso intelectual”, afirma a pesquisadora. “Cada vez, con menos materia hacía más. Pensaba mucho y pintaba poco, veía el mundo con ojos nuevos y sólo una técnica original como la suya puede transmitirnos su original visión de las cosas, por esto es un gran innovador del arte de la pintura”. 

Como disse Rafael Mengs, no século XVIII, “Velázquez não pintava com os pincéis, pintava com a intençao”. Era um pensador, sobretudo.


Cores prováveis usadas por Velázquez, em sua denominação atualizada (o Branco de
Chumbo foi substituído pelo de Titanio, por causa da alta toxicidade do pigmento,
assim como hoje em dia é mais usado o Preto de Marfim. Os Cadmios são pigmentos
mais modernos, mas equivalentes aos usados no passado)