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domingo, 6 de maio de 2012

Ariano Suassuna: Discurso de Posse

Ariano Suassuna Ariano Suassuna

Eleito para a Academia Brasileira de Letras 3 de agosto de 1989, para ocupar a Cadeira nº 32, na qual foi sucessor de Genolino Amado, Ariano Suassuna tomou posse (sendo saudado por Marcos Vilaça) em 9 de agosto de 1990. Nessa ocasião, Ariano Suassuna pronunciou o discurso aqui transcrito.


Certa vez, num artigo publicado sobre A pedra do reino, Hélio Pólvora afirmou:

No caso de Suassuna, a identificação entre o homem e a obra parece tão siamesa que o fluxo popular do seu teatro... e do seu romance não pode ser acoimado de atitude. Atitudes seriam, e menos graves, certas brincadeiras ou liberdades que o escritor toma em público, com o fito evidente de prolongar em sua pessoa o mito da obra.
 

É difícil julgar-me a mim próprio, mas, pelo menos até onde vejo, certas atitudes que tomo em público não são brincadeiras. Pelo contrário. Em algumas ocasiões lanço mão do riso para me defender, porque, como sertanejo, não gosto de ser visto dominado pela emoção. Assim, desisti de um primeiro discurso que cheguei a escrever. Ele penetrava de tal modo nas zonas de sombra da minha vida que eu não teria coragem para resistir à sua leitura. Vou ver, então, se, com este, permanecendo fiel ao que julgo ser a minha verdade, consigo ser mais impessoal e manter um certo distanciamento entre minha vida e minhas palavras.

Primeiro, não quero que se entenda como desatenção o fato de não ter querido, cercando esta cerimônia, certo acontecimentos que, exatamente por respeito ao essencial, não quis que a perturbassem. Como escritor, lido com imagens, mas quero que, no meu caso, elas correspondam sempre a uma verdade singular e profunda. Por outro lado, não acredito que, na posse daqueles a quem mais admiro aqui, tenha havido qualquer acréscimo desse tipo. Na de Joaquim Nabuco, talvez sim. Na de Euclides da Cunha, creio que não. Sei que minhas dimensões não são as de Euclides da Cunha, mas é à linguagem dele que sempre procurei me filiar.

Ora, pelo que li e ouvi a respeito da maneira pela qual me foram entregues, no Recife, as insígnias que passo a usar, notei que tudo estava sendo entendido como uma daquelas atitudes menos graves referidas por Hélio Pólvora. O equívoco parte de um desentendimento fundamental: aquilo que é sério e grave para mim nem sempre é o mesmo que para os outros.

Um dia, lendo Alfredo Bosi, encontrei uma distinção feita por Machado de Assis e que é indispensável para se entender o processo histórico brasileiro. Ele critica atos do nosso mau governo e coisas da nossa má política. Mostra-se ácido e amargo com uns e outras depois explica:

Não é desprezo pelo que é nosso, não é desdém pelo meu País. O 'país real', esse é bom, revela os melhores instintos. Mas o 'país oficial', esse é caricato e burlesco.
 

Quando eu quis que o uniforme que uso agora fosse feito por uma costureira e uma bordadeira do Recife, Edite Minervina e Cicy Ferreira, estava levando em conta a distinção estabelecida por Machado de Assis e uma frase de Gandhi que li aí por 1980, e que me impressionou profundamente. Dizia ele que um indiano verdadeiro e sincero, mas pertencente a uma das duas classes mais poderosas de seu país, não deveria nunca vestir uma roupa feita pelos ingleses. Primeiro, porque estaria se acumpliciando com os invasores. Depois, porque estaria, com isso, tirando das mulheres pobres da Índia um dos poucos mercados de trabalho que ainda lhes restavam.

A partir daí, passei a usar somente roupas feitas por uma costureira popular e que correspondessem a uma espécie de média do uniforme de trabalho do brasileiro comum. Não digo que fiz um voto, que é coisa mais séria e mais alta colocada nas dimensões de um profeta, como Gandhi, ou de um monge, como Dom Marcos Barbosa. Não fiz um voto; digamos que passei a manter um propósito. Não pretendo passar pelo que não sou. Egresso do patriarcado rural derrotado pela burguesia urbana de 1889, 1930 e 1964, ingressei no patriciado das cidades como o escritor e professor que sempre fui. Continuo, portanto, a integrar uma daquelas classes poderosas, às quais fazia Gandhi a sua recomendação. Sei, perfeitamente, que não é o fato de me vestir de certa maneira, e não de outra, que vai fazer de mim um camponês pobre. Mas acredito na importância das roupagens para a liturgia, como creio no sentido dos rituais. E queria que minha maneira de vestir indicasse que, como escritor pertencente a um País pobre e a uma sociedade injusta, estou convocado, “a serviço”. Pode até ser que o País objete que não me convocou. Não importa: a roupa e as alpercatas que uso em meu dia-a-dia são apenas uma indicação do meu desejo de identificar meu trabalho de escritor com aquilo que Machado de Assis chamava o Brasil real e que, para mim, é aquele que habita as favelas urbanas e os arraiais do campo. Voltarei depois a este assunto, de tal modo é ele importante na minha visão do mundo e, em particular na do nosso País, a esta altura submetido a um processo de falsificação, de entrega e vulgarização que, a meu ver, é a impostura mais triste, a traição mais feia que já se tramou contra ele.

Para mim, a roupa cotidiana seria, então, a farda comum de escritor brasileiro em missão, a serviço. O uniforme da Academia passava a ser a farda de gala deste escritor distinguido pela honraria, assim como acontece com um figurante de espetáculo popular, que usa calça e camisa nos dias comuns e se veste de rei quando toma parte num Auto de guerreiros. Isto é: eu sempre soube que, se entrasse para a Academia Brasileira, cumpriria os rituais. Mas queria que, no meu caso, a posse se identificasse o mais possível com os rituais do Brasil real.

Teve o mesmo sentido a cerimônia na qual, no Recife, a extraordinária cantadora que é Mocinha de Passira me entregou o colar que aqui tenho a honra de receber da minha querida Rachel de Queiroz, assim como recebi a espada aqui entregue por nosso mestre político, Barbosa Lima Sobrinho, do mestre de espetáculos populares, Manuel Salustiano, e de Isaías Leal, aquele que a concebeu e executou, unindo, num só emblema, o sertão e o litoral. Mocinha de Passira significa para mim, para o Brasil e para o nosso povo, o mesmo que Pastora Pavón representava para García Lorca, para a Espanha e para o povo espanhol. Por outro lado, lembro a cada instante que, se o Brasil oficial é dos brancos, do presidente e de seus ministros, o Brasil real é o de Antônio Conselheiro e Mocinha de Passira.

Quanto ao discurso que cabe aqui a Marcos Vilaça - aquele que, generosamente, se dispôs a cuidar de tudo na minha escolha para a Academia -, foi feito, o do Recife, pelo governador Miguel Arraes, que, na ocasião, pronunciou as seguintes palavras:

Esta cerimônia tem um significado profundo que talvez escape a uma análise superficial. Ariano Suassuna, eleito para a Academia Brasileira de Letras, recebe aqui, doadas pelo Estado de Pernambuco, as insígnias com as quais vai tomar posse na mais importante instituição cultural do nosso País. E recebe-as das mãos dos poetas, dos artistas populares e dos artesãos que as fizeram.

Habituado ao discurso político, não sei se vou conseguir expressar sobre o assunto tudo o que desejo. Creio, porém, que o que se passa aqui significa profunda identificação que Ariano Suassuna busca sempre com as raízes culturais do nosso povo. Significa, também, a importância da cultura para um país que, como o nosso, só pode se transformar em verdadeira nação pela via democrática e popular. Na história recente, existem povos que souberam fazer de suas respectivas culturas instrumentos de luta e de resistência, como aconteceu, entre outros, com o Vietnã e a Argélia. Creio, assim, que a cerimônia que hoje se realiza procura expressar tudo isso sob forma simbólica.

Sendo sertanejo, como Ariano Suassuna, não tive dificuldade para identificar o significado de seu gesto. Pelo mesmo motivo, ainda no exílio, ao ler o Romance d'A pedra do reino, pude decifrar a enorme carga de símbolos de que ele está carregado. Muitas vezes parei a leitura para refletir sobre o que lera. E pude ver que, nesse romance, todos os símbolos se originam também dessa cultura do povo.

Agora, Ariano Suassuna vai para a Academia, isto é, para a Corte. E ficaria a pergunta sobre se tal fato o afetará, de modo a transformá-lo através de rituais mais da Corte o que do povo. Mas eu, que o conheço, acho que não, pois ele é um inquieto. Um homem que, como todos os que têm sede de justiça, vive a todo momento a busca do conhecimento e da luz.

Outro fato significativo, para o qual não contribuí, mas que também cito com orgulho, foi a decisão tomada pela escola de samba Acadêmicos do Salgueiro de, neste ano da minha posse, fazer seu desfile fundamentado no Romance d'A pedra do Reino. Na mesma linha de fusão da cultura popular com a erudita, este romance acaba num sonho no qual o personagem, Quaderna, o Decifrador, ao entrar para a Academia, é coroado rei por José de Alencar e Euclides da Cunha, que, no sonho, aparecem vestidos de cavaleiros do cordão-azul e do cordão-encarnado das cavalhadas. O sonho é comum ao autor e ao personagem. Ainda menino, cheguei à arbitrária convicção de que, a 9 de outubro de 1930, eu fora escolhido para ocupar, na vida, uma Cadeira ideal, cujo fundador, meu pai, João Suassuna, escolhera Euclides da Cunha como seu patrono - e este foi um dos motivos mais poderosos entre os que me fizeram aspirar à honra de sentar-me aqui, ao lado de todos.

Quanto à Cadeira que vou ocupar na Academia, tem como patrono Manuel Araújo Porto Alegre, barão de Santo Ângelo. Seu fundador foi o conde Carlos de Laet, a quem se seguem o barão de Ramiz Galvão, Viriato Correia, Joracy Camargo e Genolino Amado. Todos foram professores escreveram para o teatro. Eis a força da tradição verdadeira, aquela na qual não nos limitamos a “cultuar as cinzas dos antepassados”, mas tentamos, sim, “levar adiante a chama imortal que os animava”.

No Romance d'A pedra do reino existem, já, referências a Porto Alegre e Carlos de Laet. Quaderna pretende se tornar rei escrevendo uma obra completa, genial e clássica. Ora, a única obra verdadeiramente completa que ele conhecia era a Antologia nacional, de Carlos de Laet: tendo textos de todo mundo, tinha todos os estilos. Logo, ele teria que fazer de sua obra uma outra Antologia nacional.

Depois, já no romance seguinte, Quaderna mostra como, ainda criança, era obrigado pelo professor Minervino a ler e decorar, na Antologia, o começo do poema Colombo, de Porto Alegre. Não podia ele ouvir sem um arrepio a evocação daquele momento em que, como no Auto de guerreiros, lutava o cordão-azul dos ibéricos contra o vermelho dos mouros, ostentando roupagens riquíssimas, decoradas de vidrilhos, cruzes, espelhos e crescentes, que lembravam a ele os da cavalhada. E, coroando tudo, “a sombra de Almansor, banhada em sangue, do poente jazigo em que dormia, se ergue e lá foge ao funeral de um trono que seu braço escudara em cem batalhas”.

No meu exemplar da Antologia, de Carlos de Laet, havia um erro, jazigo “poente” em vez de “poento”. Por isso, sempre que eu, menino, evocava a imagem de Almansor, aquele rei-mouro de cavalhada, ele se erguia de seu poento jazigo e perdia-se, ensanguentado, num céu de crepúsculo que, por causa do erro, eu imaginava semelhante aos esbraseados “pontes” sertanejos descritos por Euclides da Cunha.

Acho que todo escritor, quando menino, lendo outro que tenha afinidade com ele, detém-se, assim, diante de certas imagens e palavras, apossa-se delas e as incorpora para sempre a seu universo interior. José de Alencar era 23 anos mais moço do que meu patrono Porto Alegre. Posso, então, imaginar que, adolescente, ele tenha lido o começo de Colombo, incorporando à profundeza noturna de sua intuição criadora aquela imagem da sombra ensanguentada de Almansor saindo do seu jazigo “poento”, e não simplesmente “poirento”. Foi aí, talvez, que Alencar, tentando levar adiante a chama de Porto Alegre, assim descreveu a dura paisagem sertaneja:

O sertão ainda inculto ostenta a riqueza de sua vária formação geológica... A chapada... tinha o aspecto desolado e profundamente triste que tomam aquelas regiões no tempo da seca... Pela vasta planura... o sol ardentíssimo coa através do mormaço da terra abrasada uns raios baços que vestem de mortalha lívida e poenta os esqueletos das árvores, enfileirados uns após outros como uma lúgubre procissão de mortos.
 
Nesta paisagem desolada, domina o vaqueiro, assim descrito por José de Alencar:

Vestia... um traje completo de couro de veado, curtido à feição de camurça. Compunha-se de vestia e gibão... Instantes depois, corria pelo cerrado... É um dos traços admiráveis da vida do sertanejo essa corrida veloz através das brenhas; ainda mais quando é o vaqueiro a campear uma rês bravia. Nada o retém; por onde passou o mocambeiro lá vai-lhe ao encalço o cavalo e com ele o homem, que parece incorporado ao animal como um centauro.
 
Euclides da Cunha, por sua vez, levando adiante a chama e já transformando a mera intenção de Porto Alegre em verdadeira garra brasileira, descreve o sertão, segundo a trilha aberta, aí, por José de Alencar. Diz ele:

Novo horizonte geológico reponta... Estiram-se então planuras vastas. À luz crua dos dias sertanejos aqueles cerros aspérrimos rebrilham estonteadoramente, ofuscantes, num irradiar ardentíssimo.
 
Como em José de Alencar, nestas “planuras” e não “planícies”, nesta paisagem queimada por um sol “ardentíssimo”, o rei é o vaqueiro, que Euclides da Cunha vê assim:

O seu aspecto recorda vagamente, à primeira vista, o de um guerreiro antigo... Envolto no gibão de couro curtido, de bode ou de vaqueta... as vestes são uma armadura... Esta armadura, porém,... não rebrilha, ferida pelo sol. É fosca e “poenta”... Mas se uma rês alevantada envereda, esquiva,... pela caatinga garranchenta,...por onde passa o boi passa o vaqueiro com seu cavalo. Colado no dorso deste,... realiza a criação bizarra de um centauro bronco.
 
Conta Euclides da Cunha que, pretendendo escrever Os sertões e não se considerando um escritor verdadeiramente literário, resolveu modestamente aprender o ofício, o que faria lendo, entre outros, Antônio Vieira e José de Alencar. Assim, acredito até que ele tenha querido imitar o mestre cearense. Mas, na linha da tradição verdadeira, o que fez foi levar adiante a chama dos seus antecessores. A catedral sertaneja que ele ergueu, povoada de balas e ladainhas como a de Canudos, foi, assim, maior e mais bruta do que a capela poenta e neoclássica de Porto Alegre e o que a igreja romântica de José de Alencar. Maior, mais forte e mais original. Originalidade, ou se tem de nascença ou não se tem de modo nenhum. Mais ainda: ”A originalidade só se perdoa quando é involuntária”, afirmação de Joaquim Nabuco, com quem, aqui, estou inteiramente de acordo.

Foi de meu pai, João Suassuna, que herdei, entre outras coisas, o amor pelo sertão, principalmente o da Paraíba, e a admiração por Euclides da Cunha. Posso dizer que, como escritor, eu sou, de certa forma, aquele mesmo menino que, perdendo o pai assassinado no dia 9 de outubro de 1930, passou o resto da vida tentando protestar contra sua morte através do que faço e do que escrevo, oferecendo-lhe esta precária compensação e, ao mesmo tempo, buscando recuperar sua imagem, através da lembrança, dos depoimentos dos outros, das palavras que o pai deixou. Talvez, por causa disso, não posso ler sem emoção o seguinte texto, escrito por João Suassuna sob a influência de Euclides da Cunha:

O sertão, a terra luminosa do sol! O amor invencível a esta terra de dor, apego do líquen à rocha do sofrimento, é a fatalidade inelutável do destino de seus filhos. De mim, confesso a nostalgia inconsolável que me mata, quando longe desta incomparável gleba fascinante, extremamente boa e cruamente má.
 
Nem posso sofrer que se maldiga do seu sol, desse sol que é a coroa radiante do nosso martírio, mas que também envolve, nas “bolandeiras” irisadas dos seus halos, as nossas horas de abastança e alegria.

Às vezes, ao fim do dia, a sua corola inflamada de rubores de cobre só anuncia lágrimas a gemidos; é o sanguíneo reflexo da fogueira em que se retorce o sertão. Mas eis que renasce... É que, a desoras, chegou chuva de Deus, 'pé d'água' fragoroso, despejado por descargas do abismo imenso dos céus. No entanto, pelo nascente, ninguém “bispara”, ao deitar-se, uma “cabeça de torre”. Zoava o vento leste, acendendo pelo céu sem um farrapo de nuvem o brasido das estrelas. Mas eis que troa e retumba no eco das serranias o ribombar dos trovões. Arfa a terra fumegante. Rabeiam estonteantes, coriscando em serpentinas, relâmpagos de caracol. “Abrem” ao longe. “Pestanejam”, até que os toma o dia. Foi toda a noite de inverno. Eis a terra apocalíptica que eu amo doidamente, a terra do meu berço e do meu túmulo, onde se apura e fixa a Nação brasileira, guardando com o filão de preciosas tradições a rígida moral dos costumes antigos.

Formado ao embalo de palavras como estas, ainda menino escrevi um conto, cuja qualidade literária bem se pode imaginar. Narrava-se, nele, um caso de adultério e vingança que terminava assim:

Dois tiros espocam e os corpos da mulher infiel e de seu cúmplice caem varados pelas balas vingadoras da honra do marido ultrajado. Fora, morria o sol nas colinas acobreadas e poentas das serras do sertão.

 
Quer dizer: aos 12 anos de idade eu já estava, como ainda hoje, tentando seguir canhestramente a trilha aberta pelo jazigo poento e pela sombra ensanguentada do meu patrono Porto Alegre; pela mortalha poenta que, em José de Alencar, coa o sol ardentíssimo sobre a terra abrasada; pelas vastas planuras onde Euclides da Cunha, ofuscado por um irradiar ardentíssimo, via o vaqueiro sertanejo como um centauro e guerreiro antigo; e pela corola, inflamada de rubores de cobre, do sol de João Suassuna.

Pode-se então imaginar a emoção com que, anos mais tarde, li, a respeito de Suassuna, as seguintes palavras, nas quais Rachel de Queiroz, evocando o testemunho de seu pai, via o meu como um cavaleiro sertanejo:

João Suassuna foi um grande homem. Não o conheci em pessoa: mas em minha casa ele era muito conhecido e amado através de meu pai, que o admirava profundamente. Ele nos falava de um Suassuna que representava a seus olhos a figura do 'cavaleiro sem medo e sem mancha' das tradições sertanejas. Sua bravura, sua fidelidade à palavra dada, o heroísmo da sua vida, a tragédia da sua morte faziam de João Suassuna uma personalidade épica.
 

Recordo mesmo uma discussão em nossa casa, naqueles tempos apaixonados da guerra na Paraíba, que tanto repercutiam no Brasil inteiro; alguém incluíra o nome de Suassuna numa lista de 'políticos' e meu pai se exaltou:

Esse não! Não diga que ele foi um político, assim no meio dos outros! Esse viveu como um herói e morreu como um guerreiro.
 
Jamil Almansur Haddad, não se deixando tocar pela semelhança entre seu segundo nome e o de Almansor, afirma que meu patrono Porto Alegre, apesar da busca de uma verdade brasileira, fez, no Colombo, um “longo e enfadonho poema épico cuja eloqüência balofa o torna por vezes risível”. Em linha semelhante, Gilberto Amado, integrante desta Academia e irmão de meu companheiro Genolino Amado, reclama contra a eloqüência de Euclides da Cunha, falando mal de seu excesso de adjetivos. Curiosamente, porém, no mesmo livro, ao dar um depoimento sobre João Suassuna, de quem foi colega de turma e companheiro de pensão no Recife, Gilberto Amado mostra que também foi marcado por Euclides da Cunha, inclusive no que se refere aos adjetivos. Diz ele:

Às vezes eu parava no quarto de Suassuna, sertanejo desconfiado, revesso a toda comunicabilidade, sempre em atitude de defesa... O modo de andar do paraibano... era o do sertanejo que- para “comer” estrada quase não pisa no chão. Eu não podia vê-lo depois indo para a faculdade ou na Rua Nova... sem o situar nas trilhas 'poentas', nos meandros secos que ele percorrera desde a infância nos chapadões nativos.
 
Marcado por Euclides da Cunha um escritor como Gilberto Amado, não admira que João Suassuna recebesse sua influência. Quanto a' mim, confesso que não sou contrário nem à eloquência nem aos adjetivos. Tudo depende da força maior ou menor do escritor. Balzac tinha mau gosto, e aquilo que pode ser um defeito nos menores é apenas uma característica marcante a mais a singularizar o mestre. Por isso, nunca concordei com os que reclamam contra a maneira de escrever de Euclides da Cunha. A meu ver, aquela era a única linguagem capaz de erguer e forjar o áspero universo do sertão que ele não apenas 'via' mas deformava ao recriá-lo em seus arrebatos de visionário, tão semelhantes aos que descreve em Antônio Conselheiro, deformando e recriando também o profeta, a ponto de transformá-lo num personagem.

Quaderna poderia seguir adiante em meu lugar, citando autores diferentes e mostrando a influência maior ou menor que cada um deles teria tido em nossa vida e em nossa formação. Tendo citado Porto Alegre e Carlos de Laet, falaria no barão de Ramiz Galvão, bibliotecário e preceptor de príncipes, como o próprio Quaderna. Ramiz Galvão, estudioso infatigável da cultura brasileira, foi o responsável pela primeira publicação integral da Prosopopeia, poema do cristão-novo Bento Teixeira, preso em Olinda pela Inquisição em 1594. Dada a importância, senão de sua obra, mas daquilo que a vida e a figura de Bento Teixeira significam para mim, bastaria este fato para tornar Ramiz Galvão merecedor do nosso culto, como sempre dirigido à sua chama, e não a suas cinzas. Escreve ele, sobre o poema de Bento Teixeira, que, apesar de não ser grande o seu merecimento poético, tem ele “alguns versos de inspiração feliz” e “seu valor histórico e bibliográfico não tem contestação possível”, nas palavras de José Antônio Gonçalves de Mello, em seu notável livro mais recente, intitulado Gente da Nação.

Depois, Quaderna falaria em Viriato Correia, que também nos impressionou, na infância com a História do Brasil para crianças, e na adolescência com as Novelas doidas e os Contos do sertão, entre os quais havia um, anterior a Camus, é claro, mas que, curiosamente, tem um enredo bem semelhante ao da peça O mal-entendido. É a história de um rapaz que, saído de casa em criança, volta depois de muito tempo e, não sendo reconhecido, é assassinado pelos pais.

E chegaríamos a Joracy Camargo. Ainda menino, no sertão da Paraíba, o palco mágico e festivo do teatro, com seus violentos contrastes entre recantos sombrios, povoados de assassinatos, e zonas de luz cheias de gargalhadas, todo esse mundo me foi revelado, ao mesmo tempo, pelo circo, onde travei conhecimento com O terror da Serra Morena e com O palhaço Gregório; pelo auto popular O castigo da soberba, do cantador paraibano Silvino Pirauá; e pela ribalta armada, pelo ator Barreto Júnior, num velho armazém de algodão deliberadamente esvaziado para esse fim. Barreto Júnior, naquela temporada, para mim memorável, encenou a comédia O grande marido, o drama A ladra, de Silvino Lopes, e Deus lhe pague, de Joracy Camargo. Ora, ainda hoje a “receita” do meu teatro continua a ser essa fórmula, para mim mágica, que entrou em meu sangue na infância com a comédia brasileira, o drama, o romanceiro, os espetáculos populares e o circo. Ou seja: o palhaço Gregório, Silvino Pirauá, Silvino Lopes, Barreto Júnior e Joracy Camargo.

Quanto a Genolino Amado, lembro que Fernando de Azevedo considerava a cultura brasileira marcada por duas linhagens de certo modo opostas: a do “espírito de conquista”, isto é, a sertanista, de Euclides da Cunha, e a do “espírito de civilização”, a urbanista, de Machado de Assis. Na Cadeira que passo a ocupar, eu seria mais da linhagem sertanista e Genolino Amado mais da urbana. Se bem que atualmente seja difícil acreditar nisso, antes, a polidez, a clareza, a limpidez resultavam da contenção e do polimento que a cidade imprimia às vigorosas e rústicas qualidades camponesas. Não é por acaso que “polidez” e “polimento” têm a mesma raiz que “polis”, “cidade”. Foi por isso que Genolino Amado escreveu, a respeito do nosso escritor urbano e polido por excelência que em Machado de Assis, de vez em quando... a brasa de uma referência aos braços de uma mulher bonita, ao estremecer de um desejo adolescente, arde num trecho de conto ou de romance. Mas é só. Essa faísca que bastaria para incendiar o matagal de outros.... logo se apaga na relva orvalhada da prosa machadiana. O seu fulgor é o de um carbúnculo calcado no fundo negro do chão queimado pelos calores da terra, para brilhar depois, milagrosamente transfigurado, na fria luz de um diamante.

Sinto-me, assim, ligado a este escritor, marcado como eu pela afetividade familiar que o levou a citar, em seu discurso de posse, a figura de seu pai, seu irmão Gilberto, e o primo, Jorge Amado. Fiquei gostando desse escritor que foi sergipano e carioca como eu sou, ao mesmo tempo, sertanejo paraibano e recifense. No Auto da Compadecida, Nossa Senhora afirma que ”quem gosta de tristeza é o Diabo”. Em linha semelhante, Genolino Amado escreveu que ”os que nunca riem são, em geral, cruéis e inclementes”. São “os inquisidores, os fanáticos, os torturadores, os tiranos”, como nós, aliás, somos forçados a saber, desde a época do pobre cristão-novo Bento Teixeira. Porque, no mundo inteiro, em todos os tempos, inquisidores nos aparecem por todos os lados, sempre dispostos a julgar e condenar os escritores de acordo com seus códigos arbitrários.

Sou, ao que acredito, o sexto paraibano a ingressar na Academia, porque parece que Pedro Américo, meu primo e genro de Porto Alegre, não teve direito à honraria - assim como aconteceu ao maior poeta paraibano, Augusto dos Anjos, até nisso injustiçado pela vida. Considero o Eu, do grande poeta do meu Estado, como o equivalente pessoal e lírico da novela épica que é Os sertões. O livro de Augusto dos Anjos expressou, em termos de áspero subjetivismo e lírica reversa, a prosa da grande gesta de Canudos. Ambos são livros solitários, grandes e “do avesso”. Ambos padecem de cientifismo arrevesado, dissolvido, porém, nos dois, em universos estranhos e poderosos e numa linguagem que tudo recria, em seu arrebato delirante. Ambos são livros endaimoniados, livros “de duende”, para usar expressões platônicas e lorquianas. O duende dos dois é fúnebre. Mas o de Augusto dos Anjos é mais noturno e esverdeado, e o de Euclides da Cunha é mais ensolarado e pardo, o que talvez se deva às próprias diferenças entre a mata e o sertão.

O que importa assinalar aqui, porém, é que, depois da distinção feita por Machado de Assis, Euclides da Cunha identificou nossos dois países diferentes através de dois emblemas. O Brasil oficial, ele o viu na Rua do Ouvidor, centro da civilização cosmopolita e falsificada. E o Brasil real, no emblema bruto e poderoso do sertão. João Suassuna, ainda sob influência de tal visão, escreveu:

Nós somos um povo sugestionado pela política inferior dos decalques. Essa mania nos tem sido muito prejudicial. Perdemos tempo e gastamos dinheiro colhendo lá fora, para aplicar aqui dentro, aquilo que as nossas condições de vida e a nossa educação social estão naturalmente repudiando... Nascido no sertão, tenho por essa zona natural predileção que nunca disfarcei... Quase tudo o que produzimos e possuímos é trabalho da nossa gente rude e boa, forte e sadia, que vive, em dois terços da Paraíba, no vasto e desafogado ambiente saneado pelo sopro ardente das secas... Temos de conseguir que se aliste na vigorosa carreira da lavoura o inútil e anêmico excedente das cidades, de face clorótica e bolso vazio, tristes e enfezados 'vencidos da vida', porque temem o sol e desamam a terra quente e fecunda, onde dormem tesouros perenes. reservados aos que mourejam com brio e coragem. Urge salvar, pela regeneração do trabalho, a onda parasitária... Falo hoje com esta convicção e confiança... porque jamais pensei ou agi de outra forma... Sertanejo de nascimento, jamais me deixei, seduzir pelo encanto das cidades... Como cidadão. entrei sempre com a parcela do meu esforço,... orientando-me por todos os meios contra o “civitismo',... criando, plantando, abrindo estradas, fundando pontes açudes,... barrando os boqueirões abertos à passagem dos rios por caudais diluvianos, na visão genial de Euclides da Cunha em seus sonhos de patriotismo.

 
Assim, opondo ao “civitismo”, isto é, ao urbanismo exclusivista, um “sertanismo” não menos radical, Suassuna cometia o mesmo erro de Euclides da Cunha - o de julgar que o Brasil real era somente o do sertão, e de não fazer, neste, a mesma distinção que no urbano. Foi talvez este erro de visão que levou João Suassuna a afirmar, noutra ocasião:

Como homem do campo, tenho exercido minhas atividades em lugar onde o operariado ainda não está constituído em sindicatos. Por isso, estou muito pouco a par dos assuntos do Socialismo moderno e de suas aspirações. Isso, porém, não quer dizer que eu desconheça e seja indiferente às necessidades e reclamações da classe operária... Sou um político que preciso, para sucesso do meu esforço e para me sentir confiante, do arrimo do povo,... do aplauso e da solidariedade do povo. É possível que alguma coisa se faça, mas não é provável fazer tudo sem a sagração e o apoio de tão indiscutível soberania.
 
Influenciado por Suassuna e por Euclides da Cunha, passei muito tempo dominado por visão semelhante. Até que, depois de muitos e duros exames de consciência, descobri que, para ser fiel aos dois, eu não deveria me limitar a repeti-los: tinha era que empunhar sua chama e tentar levá-la adiante. O Brasil real teria, na verdade, não um, mas dois emblemas, pois o arraial do sertão tinha seu equivalente urbano na favela da cidade. Se o Brasil real era aquele que habita o arraial e a favela, o Brasil oficial tinha seu símbolo mais expressivo nas federações das indústrias, nas associações comerciais, nos bancos e no palácio onde reinam o presidente e seus ministros.

Por outro lado, corrigido o erro, poderia ser levado adiante até o socialismo - e sempre através daquela indiscutível soberania que Suassuna tinha visto no povo - o pré-socialismo que um Conselheiro profético estabelecera como centro e ponto de apoio da organização social de Canudos. Com isso, e como não sou marxista, evitava-se aquela política inferior dos decalques, da qual também falava meu pai e fazia-se do arraial messiânico ponto de partida para uma reflexão e uma ação, através das quais se pudesse fundir o que existe de bom no Brasil oficial com o que existe de melhor no Brasil real.

É que, como no tempo de Antônio Conselheiro, o Brasil continua dividido e dilacerado naqueles dois países diferentes, o oficial e o real. Qualquer que tenha sido o resultado da mestiçagem, na linha do que tentaram explicar Silvio Romero, Araripe Júnior, Euclides da Cunha e Gilberto Freyre, ainda hoje o Brasil oficial, o dos poderosos, do presidente e de seus ministros, é integrado por brasileiros de pele mais clara. E o de Antônio Conselheiro e Mocinha de Passira, pelos descendentes mais escuros de negros, índios, europeus pobres e asiáticos pobres.

O que houve em Canudos, e continua a acontecer hoje, no campo como nas grandes cidades brasileiras, foi o choque do Brasil oficial e mais claro contra o Brasil real e mais escuro. Ao Brasil mais claro, que não é somente caricato e burlesco como afirmou um Machado de Assis momentaneamente cego pela justa indignação, pertenciam algumas das melhores figuras do patriciado do tempo de Euclides da Cunha: civis e políticos como Prudente de Moraes ou militares como o general Machado Bittencourt. Bem-intencionados mas cegos, honestos mas equivocados, estavam certos de que o Brasil real de Antônio Conselheiro era um País inimigo que era necessário invadir, assolar e destruir. O civil que começou a reparar este erro doloroso foi Euclides da Cunha. O militar foi o Major Henrique Severiano, grande herói de Canudos, do lado do Exército. Através de sua bela morte, acendeu ele uma chama que, juntamente com a de Euclides da Cunha, temos todos nós - intelectuais, políticos, padres e soldados - o dever de levar fraternalmente adiante. Conta-se, em Os sertões, sobre o incêndio dos últimos dias de Canudos:

O comandante do 25º [Batalhão], major Henrique Severiano... era uma alma belíssima, de valente. Viu em plena refrega uma criança a debater-se entre as chamas. Afrontou-se com o incêndio. Tomou-a nos braços; aconchegou-a do peito - criando com um belo gesto carinhoso, o único traço de heroísmo que houve naquela jornada feroz - e salvou-a. Mas expusera-se. Baqueou, malferido, falecendo poucas horas depois.

 
Este seria o militar simbólico, emblema do verdadeiro soldado brasileiro, capaz de apoiar um movimento em favor do povo, também simbolicamente representado aí por essa criança, iluminada entre as chamas do seu martírio. Euclides da Cunha, formado, como todos nós, pelo Brasil oficial - falsificado e superposto -, saiu de lá como seu fiel e integral adepto, positivista e “modernizante”. E de repente se viu ofuscado, encandeado e perturbado pelo Brasil real de Mocinha de Passira e Antônio Conselheiro. Sua intuição de poeta de gênio e seu nobre caráter de homem de bem colocaram-no imediatamente ao lado dele, para honra e glória sua. Mas a revelação era recente demais, dura demais, espantosa demais. De modo que, entre outros erros e contradições, só lhe ocorreu, além da corajosa denúncia contra o crime, pregar uma modernização que consistiria, finalmente, em conformar o Brasil real pelos moldes da Rua do Ouvidor e do Brasil oficial. Isto é, uma modernização falsificadora e falsa, e que, como a que estão tentando fazer agora, é talvez pior do que a invasão declarada. Esta apenas destrói e assola, enquanto a falsa modernização, no campo ou na cidade, descaracteriza, assola, destrói e avilta o povo do Brasil real. Não me coloco hipocritamente fora do Brasil oficial, nem se trata de nos opormos à verdadeira modernidade. Trata-se de recriar as instituições do Brasil oficial de acordo com a verdade do Brasil real. Assim, lembro apenas que, como fez Euclides da Cunha, sempre que nos descobrirmos no caminho do erro e do processo histórico oficial, devemos obrigar-nos a um exame de consciência tão rigoroso quanto os religiosos, procurando então retomar o caminho real oposto. É o que teremos de fazer a cada instante, se é que desejamos realmente transformar o nosso País numa verdadeira Nação, num Brasil que seja grande e justo, e não apenas vulgar, injusto e falsamente próspero como se vem tentando.

Sem êxito à vista, aliás. Atualmente, o que estamos conseguindo é um pacto demoníaco, através do qual vendemos a alma sem nada conseguir para o corpo. Euclides da Cunha - deformado pela Rua do Ouvidor e pelo Palácio, que no tempo dele era o do Catete como hoje é o da Alvorada - partiu de São Paulo para o Nordeste como um cruzado da República positivista e da cidade, que então queria ser francesa como hoje quer ser caricatamente americana. Partiu para ajudar a destruir aquilo que, para ele, era ameaça, barbárie e fanatismo sertanejo - e que, na verdade, era o esboço em bruto da nossa grandeza, da nossa justiça, da nossa futura verdade singular de nação. Fique logo claro que, comparados os dois palácios, existe ainda uma diferença a favor do Catete e contra o da Alvorada, no que se refere à verdade brasileira. Talvez por causa disso, Euclides da Cunha mesmo ofuscado, ao se ver diante do povo brasileiro real, pôde tomar seu lado - e o grande livro que é Os sertões resultou do choque experimentado ante aquele Brasil brutal, mas verdadeiro, que ele via pela primeira vez em Canudos e que amou com seu sangue e com seu coração, se bem que nunca o tenha compreendido inteiramente com sua cabeça, meio deformada pela falsa ciência europeia que o Brasil oficial venerava, e ainda venera, como dogma. Quando ele fala com base nesta falsa ciência, erra. E acerta quando deixa falar sua genial intuição de poeta. A sorte é que aquela pseudociência, enfatuada, pretensiosa e equívoca perde-se no galope épico da ação, no cenário e nos personagens, erguidos e transfigurados pela extraordinária linguagem alegórica, áspera e profética que ele criou. Se queremos, mesmo, encontrar um caminho para nosso País, temos que segui-lo, levando adiante, na medida das forças de cada um, a chama iluminadora daquele que foi e continua a ser a obra fundamental para o entendimento do Brasil. A pedra angular para a futura edificação de nossa Pátria como Nação. Uma nação na qual a cisão atual seja substituída pela indispensável identificação e onde, pela primeira vez em nossa atormentada História, o Brasil oficial se torne expressão do Brasil real.

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Exposição de Modigliani atrai 50 mil pessoas no Rio


Mais de 50 mil pessoas já visitaram a exposição Modigliani: Imagens de uma Vida, que se despede no próximo domingo (6) do Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), no Rio de Janeiro. 


‘Retrato de Marevna’ (1919), óleo sobre tela de Amedeo Modigliani / Agência O Globo

Considerada um dos mais importantes eventos do calendário oficial do Momento Itália-Brasil 2012, a mostra foi inaugurada no dia 31 de janeiro, apresentando pela primeira vez na América Latina uma coleção de 12 pinturas e cinco esculturas originais, além de desenhos, documentos, fotos e manuscritos do italiano Amedeo Modigliani (1884-1920).

De acordo com o curador da mostra, o francês Christian Parisot, Modigliani, definido como “artista sem mestre e sem discípulos”, se destaca no panorama das artes plásticas por ter sido fiel à sua visão figurativa, “conseguindo chegar a uma síntese perfeita entre a imagem e o sentimento que ela suscita”. As obras expostas na mostra foram cedidas por colecionadores particulares e por instituições, como a Modigliani Institut Archivés Légales Paris-Roma, presidido por Parisot.

Nesta última semana de visitação da exposição, o MNBA tem entrada franca todos os dias e o horário foi estendido: hoje (3) e amanhã (4), das 10h às 20h, e sábado e domingo, das 11h às 18h. No sábado (5), o museu vai oferecer oficinas gratuitas, às 14h e às 15h30, destinadas a crianças e suas famílias, que poderão ouvir histórias e participar de atividades artísticas. O MNBA fica na Avenida Rio Branco, 199, no centro do Rio.

Após a temporada no Museu Nacional de Belas Artes, a exposição segue para o Museu de Arte de São Paulo (Masp), na capital paulista, onde fica de 17 de maio a 15 de julho. Depois, a mostra vai para o Museu Oscar Niemeyer, em Curitiba, de 26 de julho a 30 de setembro.

Fonte: Agência Brasil

quinta-feira, 3 de maio de 2012

Festival mostra que São Paulo também tem samba no pé


“O samba não levanta mais poeira/ Asfalto hoje cobriu o nosso chão”. Os versos de Geraldo Firme (1928-1995) mostram que, influenciado pelas mudanças da cidade, o samba de hoje pode até não ser mais o mesmo. Apesar disso, o compositor atesta: “é tradição e o samba continua”.



Os versos da canção Tradição (vai no Bexiga pra ver) dão nome a um festival que promete colocar muito samba no pé dos paulistanos durante esta semana. O festival É Tradição e o Samba Continua vai até domingo (6) no Memorial da América Latina, na zona oeste da capital paulista. De hoje (3) a sábado (5), o festival começa às 21h. No domingo (6), os sambistas Toinho Melodia, Chapinha, Osvaldinho da Cuíca e a Velha Guarda da Camisa Verde e Branco vão tocar a partir das 20h.

“É uma mostra de samba cuja ideia é apresentar um panorama do samba atual feito em São Paulo, reunindo artistas novos e da velha geração”, explicou Sérgio Mendonça, coordenador-geral do projeto.

O festival de samba também pretende mostrar que se faz samba de qualidade na terra da garoa. “São Paulo tem muito artista de qualidade. O samba em São Paulo, nos últimos dez anos, vem crescendo muito”, destacou Mendonça. Segundo ele, o samba que se faz na capital paulista não é diferente do que é feito no Rio de Janeiro ou em outras regiões do país. 

“Samba é samba em São Paulo, no Rio, no Ceará. O samba tem uma linguagem muito parecida. O que tem se diferenciado em São Paulo é o surgimento, nos últimos anos, de diversas comunidades do samba nas periferias, que se reúnem todas as semanas”, destacou.

Em cada uma das noites do festival, um grande nome do samba paulista será homenageado: Adoniran Barbosa, Paulo Vanzolini, Geraldo Filme, Toninho Batuqueiro, Eduardo Gudin e Osvaldinho da Cuíca.

Esta é a segunda edição do projeto que teve início em 2009. O intervalo entre as edições se deve, segundo Mendonça, à grande dificuldade em conseguir patrocínios. “Esperamos que, a partir deste ano, ele se torne anual”, contou.

Vinte e dois artistas vão se apresentar durante todos os dias do evento. “Faltaram muitos dias para contemplar o que realmente o samba de São Paulo tem”, disse Mendonça.

Fonte: Agência Brasil

Livros, música e cultura: é a 4ª Festa Literária de Pirenópolis

Você gosta de literatura e música? Para quem é fã, já pode anotar na agenda uma programação para curtir entre os dias 2 a 6 de maio. Na 4ª edição da Flipiri - Festa Literária de Pirenópolis (GO), o visitante poderá acompanhar cursos, oficinas, saraus, apresentações musicais e a presença de escritores de todo o país. 


Livros, música e cultura: é a 4ª Festa Literária de Pirenópolis
Flipiri
A Feira começa na quarta-feira e vai até domingo. 
Os pontos culturais da cidade, o Cine Pirineus, a Praça da Leitura, o Theatro de Pyrenópolis Sebastião Pompeu de Pina, o Centro de Artes e Música e as escolas públicas são os lugares escolhidos para a festa. Eles receberão encontros com bate-papos, histórias, falação de poesias, shows e concertos musicais, tudo para integrá-los com o espírito cultural.

As escolas serão visitadas por escritores nos dias 2, 3 e 4 de maio. Para que os encontros sejam aproveitados da melhor forma possível, os alunos vão receber livros dos escritores para que conheçam as obras de cada um. A expectativa é de que a Flipiri contemple mais de 6 mil alunos.

Aprendizado

O objetivo do evento também é o de promover o conhecimento da língua portuguesa e o aprendizado da gramática. Na primeira edição, em 2009, a Flipiri chegou a quatro municípios e ao Centro Histórico. Nela, autores de Brasília e Goiás estiveram presentes. Nesta 4ª edição a festa ampliará seu alcance incluindo mais dois municípios, Corumbá de Goiás e Cocalzinho. Autores de São Paulo e do Rio Grande do Sul também foram convidados.

A festa deste ano vai homenagear o cronista, historiador, ensaísta e poeta goiano José Mendonça Teles e o escritor pirenopolino Isócrates de Oliveira (1922-1999). No dia 5 de maio, o evento recebe o escritor Luis Fernando Veríssimo. Ele participará de bate-papos e uma sessão de autógrafos. Junto com ele, o público verá o show da banda Jazz6.

A cidade de Pirenópolis fica a 150 Km de Brasília (DF) e 120 de Goiânia (GO). Tombada como patrimônio histórico nacional, o município é polo turístico regional, com seus casarões seculares e cercado por natureza exuberante, como cachoeiras, reservas ecológicas, parques e mirantes. 

Com informações do Ministério do Turismo

O lado desconhecido de Pixinguinha

No ano em que comemoraria seu 115º aniversário, completado no último dia 23, data em que também se celebra o Dia Nacional do Choro, Pixinguinha (Alfredo da Rocha Viana – 1897-1973) ainda tem preciosidades musicais a serem reveladas ao público. O Instituto Moreira Salles (IMS), há mais de dez anos guardião do acervo do compositor carioca, lança o livro Pixinguinha – Inéditas e Redescobertas , com 20 partituras, nove totalmente inéditas e 11 desconhecidas, embora editadas anteriormente


De acordo com a Agência Brasil, são músicas que refletem períodos históricos e influências diversas na carreira do compositor e são o resultado de um trabalho de prospecção iniciado em 2008 no acervo, sob a responsabilidade da coordenadora de música do IMS, Bia Paes Leme. Esse trabalho já produziu em 2010 uma primeira publicação, feita - como a que vai ser lançada agora - em parceria com a Imprensa Oficial do Estado de São Paulo. Trata-se do álbumPixinguinha na Pauta, reunindo 36 arranjos do mestre do choro para o programa de rádio O Pessoal da Velha Guarda, comandado por Almirante na década de 1940.

De acordo com Bia Paes Leme, as partituras descobertas e redescobertas para esta nova publicação revelam composições de alto nível. “Tanto pela confirmação da autoria explícita nas partituras quanto pela análise da composição em si encontramos nove músicas inéditas e mais uma que chegou a ser gravada em 78 rotações. Para completar o álbum, encontramos composições que já haviam sido editadas em papel, mas que nunca foram gravadas. Fizemos um grande trabalho de recuperação dessas músicas de excelente qualidade, desconhecidas até agora do repertório de Pixinguinha”, conta.

A partir da publicação do livro com as partituras, a expectativa é de que as composições inéditas de Pixinguinha sejam gravadas. “A nossa preocupação dentro do IMS é de fornecer as partituras para que os músicos tomem a iniciativa de gravar. Nos propomos a publicar partituras de excelente qualidade, com um trabalho criterioso de edição, que ficam disponibilizadas para quem quiser”, explica a coordenadora de música da instituição.

Serviço
Pixinguinha - Inéditas e redescobertas
Show 4 de maio (sexta-feira), às 21h – São Paulo
Teatro da Fecap
Av. Liberdade, nº 532, Liberdade
Ingressos na bilheteria do teatro, quinta (03) e sexta-feira (04), a partir das 14h.
(11) 4003-1212
R$30 (inteira) e R$15 (meia)

Show 5 de maio (sábado), às 21h – São Paulo
Teatro da Fecap - SP
Av. Liberdade, nº 532, Liberdade
Entrada gratuita – VIRADA CULTURAL DE SÃO PAULO
Retirada de ingressos na bilheteria a partir das 19h


Fonte: Direto da Redação e Instituto Moreira Salles

terça-feira, 1 de maio de 2012

FESTA DO TRABALHADOR - UMA REFLEXÃO

1º de Maio, dia de luta da classe trabalhadora


Primeiro de Maio. Dia dos Trabalhadores, data universal de toda a classe. Dia da classe operária de todos os países, de suas lutas, agruras e vitórias. Dia da unidade de ação, de reafirmação de compromissos, de descortino de perspectivas, politização das lutas, vislumbre de novos horizontes de desenvolvimento social e político e luta por uma nova sociedade. Dia de relembrar combates e batalhas vividos e os heróis de sempre no enfrentamento contra a opressão e exploração capitalistas.


Nunca é demais relembrar os fatos que estão na origem da designação do 1º de Maio como dia dos Trabalhadores.

Em 1885, associações de trabalhadores dos Estados Unidos convocam uma greve para o dia 1º de Maio de 1886, reivindicando a jornada de oito horas, o que dá origem a um ascenso das lutas operárias, reprimidas a ferro e fogo. No dia 1º de Maio realiza-se em Chicago uma manifestação de dezenas de milhares de grevistas. Dias depois, 4 de maio, durante um comício de solidariedade com os trabalhadores de uma empresa onde a repressão causara numerosos mortos e feridos, provocadores fazem explodir uma bomba, resultando na morte de policiais e trabalhadores e dando início a uma repressão generalizada. Oito líderes dos trabalhadores, que passam á história como os “mártires de Chicago”, são condenados numa farsa judicial como os principais responsáveis pelos acontecimentos de 4 de Maio. Quatro deles são enforcados em 11 de Novembro de 1887.

Para homenagear os “mártires de Chicago”, o Congresso fundador da Internacional Socialista, reunido em Paris em 14 de Julho de 1889 - centenário da Revolução Francesa - propôs a proclamação do 1º de Maio como Dia Internacional do Trabalhador. Em 1º de Maio do ano seguinte, essa manifestação simultânea teve lugar em diversos países, a primeira ação unitária da classe operária, materializando a consigna do Manifesto Comunista - “Proletários de todos os países, uni-vos!”.

Desde então – e já se vão 122 anos - o dia 1º de Maio ficou caracterizado como o dia de luta de todos os trabalhadores. Com o passar do tempo, não apenas a luta pela jornada de 8 horas, mas pelo conjunto das reivindicações econômicas, sociais e políticas dos trabalhadores, pela sua afirmação como classe independente no terreno da luta social e política, por sua organização sindical e política, intervenção eleitoral, por democracia, contra o fascismo, o imperialismo e a guerra, pela justiça, o progresso e a paz, por uma sociedade livre da opressão e exploração capitalistas.

A partir da vitória da Revolução de Outubro de 1917 e a sucessão de acontecimentos revolucionários no século 20, o 1º de Maio passou a ser também uma data de afirmação do internacionalismo proletário e da luta pelo socialismo, do fortalecimento da organização popular, da aliança das classes oprimidas e do afiançamento do partido comunista como força dirigente da luta da classe trabalhadora.

Nos últimos anos, o 1º de Maio é celebrado pelos trabalhadores num ambiente político, econômico e social adverso, em meio a inusitada regressão de conquistas e brutal ofensiva por parte da burguesia monopolista e financeira reacionária em todo o mundo contra os direitos dos trabalhadores. Em profunda e inarredável crise sistêmica, as classes retrógradas que comandam o capitalismo percorrem o caminho da barbárie e atiram sobre os ombros de quem trabalha o pesado ônus da abismal situação em que se encontra.

Indistintamente, as políticas em prática em todas as latitudes são as neoliberais e conservadoras, de desregulamentação financeira, privatizações, liberalização dos mercados, especulação, parasitismo, que têm como contraface a privação de direitos dos trabalhadores, a deterioração do seu padrão de vida, a degradação geral da sociedade.

Campeiam o desemprego, a precariedade, intensificam-se os mecanismos de extração de mais-valia e exploração do trabalho, deteriora-se o poder de compra dos salários, atacam-se conquistas históricas como os direitos previdenciários. Crescentemente, os governos burgueses afastam-se das suas obrigações essenciais de prover os serviços públicos, saúde, educação, infraestrutura urbana - tudo privatizado e transformado em mercadoria.

Este cenário de crise e ofensiva contra direitos sinaliza quanto são graves as ameaças que pesam sobre os trabalhadores, oriundas do sistema capitalista opressor. Ameaças que se tornam ainda mais perigosas quando acrescidas pela ofensiva política e militar das potências imperialistas, traduzidas por ações intervencionistas, guerras de rapina, brutais atentados à paz, à segurança internacional , à soberania de povos e nações.

A América latina vive há mais de uma década um novo ciclo político, no qual está inserido também o Brasil. Resultado do acúmulo de lutas, este ciclo materializa-se em conquistas democráticas e patrióticas, em que o combate contra as injustiças sociais e à dominação imperialista avança, elevando pedagogicamente a consciência política dos trabalhadores e dos povos. Mas seria grosseiro equívoco imaginar que por um passe de mágica, transformamo-nos em uma ilha de tranquilidade e no ambiente propício à conciliação de classes, viabilizada por meio de medidas econômicas tenocráticas.

O 1º de Maio é o momento em que falam mais alto os trabalhadores, em que sua voz se transforma em brado e chamamento à emancipação. Em face da crise do capitalismo e da ofensiva das classes dominantes conservadoras e retrógradas, é indispensável afirmar a luta, a unidade, a organização, a solidariedade e a perspectiva de ruptura dos trabalhadores com o sistema opressor. Celebrar o 1º de Maio é promover a pedagogia dos oprimidos e conscientizá-los de que só a luta anticapitalista e anti-imperialista abrirá caminho à sua emancipação.

Por óbvio, não é uma luta imediatista, a realizar e vencer de um só golpe. É luta de longo fôlego, que exigirá lucidez, maturidade política, discernimento ideológico, clareza de propósitos, domínio e manejo de adequados procedimentos e meios estratégicos e táticos.

Viver com intensidade o novo ciclo político que o país e a América Latina estão atravessando faz parte do processo de acumulação de forças e é o campo de prova em que os trabalhadores farão seu aprendizado na prática e viverão a própria experiência, lutando por reivindicações concretas, conquistando espaços, acumulando vitórias e construindo seus instrumentos organizativos na esfera política.

A esquerda, as forças que se reivindicam como portadores dos ideais socialistas e comunistas, têm imensas responsabilidades nesse processo. Para elas o 1º de Maio é também um momento de aprendizado, reflexão e orientação. Justas diretivas no sentido da unidade e da luta combativa com perspectiva classista constituem um dos fatores decisivos para o êxito no processo de acumulação revolucionária de forças.

Editorial do Vermelho

RESPOSTA À REVISTA VEJA: Professora Vanessa Storrer


Sou professora do Estado do Paraná e fiquei indignada com a reportagem da jornalista Roberta de Abreu Lima “Aula Cronometrada”.

É com grande pesar que vejo quão distante estão seus argumentos sobre as causas do mau desempenho escolar com as VERDADEIRAS razões que geram este panorama desalentador. Não há necessidade de cronômetros, nem de especialistas para diagnosticar as falhas da educação. Há necessidade de todos os que pensam que: “os professores é que são incapazes de atrair a atenção de alunos repletos de estímulos e inseridos na era digital” entrem numa sala de aula e observem a realidade brasileira.

Que alunos são esses “repletos de estímulos” que muitas vezes não têm o que comer em suas casas quanto mais inseridos na era digital? Em que pais de famílias oriundas da pobreza trabalham tanto que não têm como acompanhar os filhos em suas atividades escolares, e pior em orientá-los para a vida? Isso sem falar nas famílias impregnadas pelas drogas e destruídas pela ignorância e violência, causas essas que infelizmente são trazidas para dentro da maioria das escolas brasileiras.

Está na hora dos professores se rebelarem contra as acusações que lhes são impostas. Problemas da sociedade deverão ser resolvidos pela sociedade e não somente pela escola. Não gosto de comparar épocas, mas quando penso na minha infância, onde pai e mãe, tios e avós estavam presentes e onde era inadmissível faltar com o respeito aos mais velhos, quanto mais aos professores, e não cumprir as obrigações fossem escolares ou simplesmente caseiras, faço comparações com os alunos de hoje “repletos de estímulos”. Estímulos de quê? De passar o dia na rua, não fazer as tarefas, ficar em frente ao computador, alguns até altas horas da noite, (quando o têm), brincando no Orkut, ou, o que é ainda pior, envolvidos nas drogas. Sem disciplina seguem perdidos na vida.

Realmente, nada está bom. Porque o que essas crianças e jovens procuram é amor, atenção, orientação e disciplina.

Rememorando, o que tínhamos nós, os mais velhos, há uns anos atrás de estímulos? Simplesmente: responsabilidade, esperança, alegria. Esperança que se estudássemos teríamos uma profissão, seríamos realizados na vida. Hoje os jovens constatam que se venderem drogas vão ganhar mais.

Para quê o estudo? Por que numa época com tantos estímulos não vemos olhos brilhantes nos jovens? Quem, dos mais velhos, não lembra a emoção de somente brincar com os amigos, de ir aos piqueniques, subir em árvores?

E, nas aulas, havia respeito, amor pela Pátria.. Cantávamos o hino nacional diariamente, tínhamos aulas “chatas” só na lousa e sabíamos ler, escrever e fazer contas com fluência.

Se não soubéssemos não iríamos para a 5ª. Série. Precisávamos passar pelo terrível, mas eficiente, exame de admissão. E tínhamos motivação para isso.

Hoje, professores “incapazes” dão aulas na lousa, levam filmes, trabalham com tecnologia, trazem livros de literatura juvenil para leitura em sala-de-aula (o que às vezes resulta em uma revolução), levam alunos à biblioteca e a outros locais educativos (benza, Deus, só os mais corajosos!) e, algumas escolas públicas onde a renda dos pais comporta, até a "passeios interessantes", planejados minuciosamente, como ir ao Beto Carrero.

E, mesmo, assim, a indisciplina está presente, nada está bom.

Além disso, esses mesmos professores “incapazes”, elaboram atividades escolares como provas, planejamentos, correções nos fins-de-semana, tudo sem remuneração;

Todos os profissionais têm direito a um intervalo que não é cronometrado quando estão cansados. Professores têm 10 minutos de intervalo, quando têm de escolher entre ir ao banheiro ou tomar às pressas o cafezinho. Todos os profissionais têm direito ao vale alimentação, professor tem que se sujeitar a um lanchinho, pago do próprio bolso, mesmo que trabalhe 40h semanais.

E a saúde? É a única profissão que conheço que embora apresente atestado médico tem que repor as aulas. Plano de saúde? Muito precário.

Há de se pensar, então, que são bem remunerados... Mera ilusão! Por isso, cada vez vemos menos profissionais nessa área, só permanecem os que realmente gostam de ensinar, os que estão aposentando-se e estão perplexos com as mudanças havidas no ensino nos últimos tempos e os que aguardam uma chance de “cair fora”.Todos devem ter vocação para Madre Teresa de Calcutá, porque por mais que se esforcem em ministrar boas aulas, ainda ouvem alunos chamá-los de “vaca”,”puta”, “gordos “, “velhos” entre outras coisas.

Como isso é motivante..e temos ainda que ter forças para motivar. Mas, ainda não é tão grave.

Temos notícias, dia-a-dia, até de agressões a professores por alunos. Futuramente, esses mesmos alunos, talvez agridam seus pais e familiares.

Lembro de um artigo lido, na revista Veja, de Cláudio de Moura Castro, que dizia que um país sucumbe quando o grau de incivilidade de seus cidadãos ultrapassa um certo limite.

E acho que esse grau já ultrapassou. Chega de passar alunos que não merecem. Assim, nunca vão saber porque devem estudar e comportar-se na sala de aula; se passam sem estudar mesmo, diante de tantas chances, e com indisciplina... E isso é um crime! Vão passando série após série, e não sabem escrever nem fazer contas simples. Depois a sociedade os exclui, porque não passa a mão na cabeça. Ela é cruel e eles já são adultos.

Por que os alunos do Japão estudam? Por que há cronômetros? Os professores são mais capacitados? Talvez, mas o mais importante é porque há disciplina. E é isso que precisamos e não de cronômetros.

Lembrando: o professor estadual só percorre sua íngreme carreira mediante cursos, capacitações que são realizadas, preferencialmente aos sábados. Portanto, a grande maioria dos professores está constantemente estudando e aprimorando-se. Em vez de cronômetros, precisamos de carteiras escolares, livros, materiais, quadras-esportivas cobertas (um luxo para a grande maioria de nossas escolas), e de lousas, sim, em melhores condições e em maior quantidade..

Existem muitos colégios nesse Brasil afora que nem cadeiras possuem para os alunos se sentarem. E é essa a nossa realidade! E, precisamos, também, urgentemente deeducação para que tudo que for fornecido ao aluno não seja destruído por ele mesmo

Em plena era digital, os professores ainda são obrigados a preencher os tais livros de chamada, à mão: sem erros, nem borrões (ô, coisa arcaica!), e ainda assim se ouve falar em cronômetros. Francamente!!!

Passou da hora de todos abrirem os olhos e fazerem algo para evitar uma calamidade no país, futuramente. Os professores não são culpados de uma sociedade incivilizada e de banditismo, e finalmente, se os professores até agora não responderam a todas as acusações de serem despreparados e “incapazes” de prender a atenção do aluno com aulas motivadoras é porque não tiveram TEMPO.

Responder a essa reportagem custou-me metade do meu domingo, e duas turmas sem as provas corrigidas.

Vamos fazer uma corrente via internet, repasse a todos os seus! Grata

Vamos começar uma corrente nacional que pelo menos dê aos professores respaldo legal quando um aluno o xinga, o agride... chega de ECA que não resolve nada, chega de Conselho Tutelar que só vai a favor da criança e adolescente (capazes às vezes de matar, roubar e coisas piores), chega de salário baixo, todas as profissões e pessoas passam por professores, deve ser a carreira mais bem paga do país, afinal os deputados que ganham 67% de aumento tiveram professores, até mesmo os "alfabetizados funcionais".

Pelo amor de Deus somos uma classe com força!!! Somos politizados, somos cultos, não precisamos fechar escolas, fazer greves, vamos apresentar um projeto de Lei que nos ampare e valorize a profissão.



Vanessa Storrer - professora da rede Municipal de Curitiba!