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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

"Comunicação e Cultura são eixos centrais para o desenvolvimento"

"A comunicação não é um produtor de mercadoria, mas o responsável pela construção e disseminação da informação, base de uma sociedade democrática", declarou a Rádio Vermelho a deputada Luciana Santos (PCdoB/PE) ao fazer balanço sobre as atividades da bancada comunista no Congresso Nacional em áreas como a Cultura e Comunicação. Segundo a parlamentar, "a comunicação e Cultura são eixos centrais para o desenvolvimento".


Joanne Mota, da Rádio Vermelho em São Paulo 


Durante a entrevista, Luciana Santos falou sobre os principais debates em torno do financiamento da mídia independente no Brasil. Ela destacou que "o foco dos debates foi o financiamento. E quando se debate financiamento, você debate como se estrutura o círculo vicioso desse setor no Brasil, no qual os grande meios de comunicação, que controlam a informação,  são os mesmos que recebem toda a forma de financiamento, seja ele público ou privado".

A parlamentar informou que, no que se refere ao debate sobre o financiamento da mídia independente, "os resultados obtidos são fruto de uma amplo e intenso debate. Foram dois anos de discussões, entre audiências publicas e reuniões bilateriais, que mobilizou universidades, movimentos sociais, além da representação das empresas através de instituiões como a Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert)".

Luciana pontuou que o resultado dessa bateria de audiências e reuniões é um amplo e crítico relatório que apresenta um panorama do que é o retrato da mídia hoje no Brasil. "Observamos, com clareza, a alta concentração dos meios de comunicação nas mãos de famílias que detêm mais de 90% do que nós lemos, ouvimos e assistimos. Esse cenário precisa ser urgentemente alterado", concluiu a parlamentar.

Segundo ela, o relatório também foi apresentou o faturamento bruto das empresas de mídia e da publicidade veiculada nessas empresas. "Para se ter uma ideia do cenário, somente a Globo abocanhou, em 2012, mais de R$ 50 milhões em publicidade", denunciou.

Propostas

Diante dessa realidade, a deputada comunista diz que algumas diretivas foram encaminhadas. “Propomos 6 projetos de Lei que definem que as rádios e TVs comunitárias e educativas possam receber recursos de publicidade, seja ele público ou privado. Outra proposta encaminhada, é a exigência de que 20% da publicidade dos entes federativos (Judiciário, Executivo e Legislativo) sejam destinados, obrigatoriamente, aos meios comunitários, educativos, entre outros. Sem falar na proposta de criação de um Fundo para a comunicação", informou. 

Outro tema que foi abordado ao longo do processo de debates sobre a Comunicação no Congresso Nacional, e que, segundo Luciana Santos, se torna central nessa luta, é o fortalecimento da comunicação estatal no Brasil.

“Encaminhamos, ainda, três indicações. A primeira àSecretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom), na perspectiva de fortalecer a Empresa Brasil de comunicação (EBC); a segunda ao Ministério da Cultura, na perspectiva de ampliar as ações até aqui implementadas e fomentar uma nova arrancada nesse setor; e a terceita, ao Ministério de Desenvolvimento, Indústria e Comércio, na perspecitva de ampliar o debate em torno do Banco Nacional de Desenvolvimento (BNDES), no que se refere à destinação de recursos desse banco para o fomento à comunicação independente no Brasil.

Cultura

Na oportunidade, Luciana Santos também apresentou breve balanço sobre o debate da Cultura no Congresso Nacional e pontuou as vitórias obtidas em 2013. “Graças ao empenho de parlamentares como a deputada federal Jandira Feghali (PCdoB/RJ), somente esse ano, conseguimos aprovar a PEC da Música e o Vale Cultura. Lembrando que em 2012, aprovamos o Sistema Nacional de Cultura, uma grade ferramenta de planejamento da Cultura no país", salientou.

Ele pontuou que nesse momento o foco é com o financiamanto da cultura. “Está se aproximando a votação do orçamento e nossa expectativa é que ampliemos o financiamento para esse setor. A cultura, pela sua importância e centralidade, merece muito mais", reforçou.

Outra luta acentuada pela parlamentar é pelo destravamento da tramitação da projeto que institui o Programa Nacional de Fomento e Incentivo à Cultura (Procultura). "Nossa meta é que ele entre na pauta. Além disso, estamos correndo atrás da Emenda Constitucional que prevê 2% do Orçamento para a Cultura e fazendo campanha para que os parlamentares façam emendas individuais ao orçamento para esse setor. E por que todo esse esforço? Porque o nosso entendimento sobre a cultura é que não haverá um país soberano e de consciencia politca elevada, enquanto não houver um significativo investimento nesse setor".

“Rede Globo, fantástico é o seu racismo!”

"A escravidão permanecerá por muito tempo como a característica nacional do Brasil", deveras sentenciou Joaquim Nabuco. Mas na versão global, ironicamente "inteligente", ele diz: "O Brasil já é um país mestiço! E não vamos tolerar preconceito!".


Por Douglas Belchior. Geledés Instituto da Mulher Negra




Imagem: reprodução TV Globo

Nas últimas semanas escrevi dois textos sobre a relação entre meios de comunicação, publicidade e humor e a prática de racismo, o primeiro provocado por uma peça publicitária de divulgação do vestibular da PUC-PR e o segundo por conta de um programa de humor que ridicularizava as religiões de matriz africana. Hoje, graças À Rede Globo de televisão, retorno ao tema.

Neste domingo 3 de novembro o programa Fantástico, em seu quadro humorístico "O Baú do Baú do Fantástico", exibiu um episódio cujo tema é muito caro para a história da população negra Brasil.

Passado mais da metade do programa, eis que de repente surge a simpática Renata Vasconcellos. Sorriso estonteante ainda embriagado pela repentina promoção: "Vamos voltar no tempo agora, mas voltar muito: 13 de maio de 1888, no dia em que a Princesa Isabel aboliu a escravidão. Adivinha quem tava lá? Ele, o repórter da história, Bruno Mazeo!"

Assista aqui ao vídeo sobre a abolição da escravidão exibido pelo Fantástico.

O quadro, assinado por Bruno Mazzeo, Elisa Palatnik e Rosana Ferrão, faz uma sátira do momento histórico da abolição da escravidão no Brasil. Na “brincadeira” o repórter entrevista Joaquim Nabuco, importante abolicionista, apresentado como líder do movimento “NMS – Negros, mulatos e simpatizantes”!

Princesa Isabel também entrevistada, diz que os ex-escravos serão amparados pelo governo com programas como o “Bolsa Família Afrodescendente”, o “Bolsa Escola – o Senzalão da Educação” e com Palhoças Populares do programa “Minha Palhoça, minha vida”!

“Mas por enquanto a hora é de comemorar! Por isso eles (os ex-escravos) fazem festa e prometem dançar e cantar a noite inteira…” registra o repórter, quando o microfone é tomado por um homem negro que, festejando, passa a gritar: “É carnaval! É carnaval!”

O contexto

Não acredito que qualquer conteúdo seja veiculado por um dos maiores conglomerados de comunicação do mundo, apenas por um acaso ou sem alguma intencionalidade para além da nobre missão de “informar” os milhões de telespectadores, ora com seus corpos e cérebros entregues aos prazeres educativos da TV brasileira em suas últimas horas de descanso antes da segunda feira – “dia de branco”.

E me perguntei: Por que – cargas d’água, a Rede Globo exibiria um conteúdo tão politicamente questionável? O que teria a ganhar com isso? Sequer estamos em maio! Que “gancho” ou motivação conjuntural haveria para justificar esse conteúdo?

Bom, estamos em novembro. Este é o mês reconhecido oficialmente como de celebração da Consciência Negra. É o mês em que a população a f r o d e s c e n d e n t e rememora, no dia 20, Zumbi dos Palmares, líder do mais famoso quilombo e personagem que figura no Livro de Aço como um dos Heróis Nacionais, no Panteão da Pátria. Relevante não?

Estamos também na véspera da III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, que começa nesta terça, dia 5 e segue até dia 7 de Novembro, em Brasília, momento ímpar de reflexão e debates sobre os rumos das ações governamentais relacionadas a busca de uma igualdade entre brancos e negros que jamais existiu no Brasil. Isso somado à conjuntura de denúncia de violência e assassinatos que tem como principais vítimas os jovens negros, essa Conferência se torna ainda mais importante.

Voltando ao Fantástico, evidente que há quem leia as cenas apenas como um mero quadro humorístico e como exagero de “nossa” parte. Mas daí surge novas perguntas:

Um regime de escravidão que durou 388 anos; Que custou o sequestro e o assassinato de aproximadamente 7 milhões de seres humanos africanos e outros tantos milhões de seus descendentes; e que fora amplamente denunciado como um dos maiores crimes de lesa-humanidade já vistos, deve/pode ser motivo de piadas?

Quantas cenas de “humor inteligente” relacionado ao holocausto; Ou às vítimas de Hiroshima e Nagasaki; Ou às vítimas do Word Trade Center ou – para ficar no Brasil – às vítimas do incêndio na Boate Kiss, assistiremos em nossas noites de domingo?

Ah, mas ex-escravizados festejando em carnaval a “liberdade” concebida pela áurea princesa boazinha, isso pode! E ainda com status de humor crítico e inteligente.

Minha professora Conceição Oliveira diria: “Racismo meu filho. Racismo!”.

A democratização dos meios de comunicação como forma de combate ao racismo

Uma das tarefas fundamentais dos meios de comunicação dirigidos pelas oligarquias e elites brasileiras tem sido a propagação direta e indireta – muitas vezes subliminar, do racismo. É preciso perceber o que está por trás da permanente degradação da imagem da população negra nesses espaços. Há um pensamento racista que é, ao mesmo tempo, reformulado, naturalizado e divulgado para a coletividade.

A arte em forma de publicidade, teledramaturgia, cinema e programas humorísticos são poderosos instrumentos de formação da mentalidade. O que vemos no Brasil, infelizmente, é esse poder a serviço do fomento a valores racistas e preconceituosos que, por sua vez, gera muita violência. A democratização dos meios de comunicação é fundamental para combater essa realidade. No mais, é preciso cobrar do governo federal e do congresso nacional: O uso de concessão pública para fins de depreciação, desvalorização e prática do racismo, machismo, sexismo, homofobia e todos os tipos de discriminação e violência não são suficientes para colocar em risco a concessão destes veículos? Por que Venezuela, Bolívia e Argentina, vizinhos latino-americanos, avançam no sentido de diminuir a concentração de poder de certos grupos de comunicação e no Brasil os privilégios para este setor só aumentam?

Tantas perguntas…

domingo, 3 de novembro de 2013

A poesia é uma forma de resistência



A poesia é incapaz de derrubar governos; ela não mobiliza exércitos, não controla impérios econômicos, não manipula a mídia nem detém a tecnologia de armas de destruição em massa. A palavra poética, no entanto, é uma das formas de resistência contra modelos autoritários de dominação dos povos.

Por Claudio Daniel (*)


Concretismo russo
  
Para que poetas em tempos de pobreza?Friedrich Holderlin (1770-1843)
 

Desde a rebelião romântica, iniciada em meados do século XIX, até os movimentos de vanguarda das primeiras décadas do século XX, o sonho da Modernidade foi conciliar o “mudar a vida” de Rimbaud com o “mudar o mundo” de Marx – na célebre equação apresentada por André Breton (em que está implícito o “mudar a arte” de Lautréamont). Para os surrealistas, por exemplo, não bastava mudar a maneira de fazer arte – a inovação estética (presente em obras radicais como o Peixe solúvel, do próprio Breton, e nos poemas de autores como Robert Desnos e Antonin Artaud, especialmente as peças escritas em glossolalia); seu projeto era muito mais amplo e consistente, e incluía desde o apoio à revolução socialista (Aragon e Éluard filiaram-se ao Partido Comunista Francês) à apologia dos direitos imateriais da espécie humana, como a riqueza da imaginação, a busca de novas formas de espiritualidade, a diversidade sexual e comportamental e a pluralidade de afetos, contra toda forma de censura e repreensão da moral religiosa vigente. Assim como seus colegas, os cubofuturistas russos, os poetas surrealistas franceses repensaram a polis para além da mera reprodução de um ente abstrato divinizado (o capital) e das relações de dominação entre produtores e proprietários. A poesia, nesse contexto histórico, tornou-se um elemento de mudança cultural, de questionamento de ideias e valores e proposição de novas formas de vida. Claro, nem todas as vanguardas artísticas do século passado estavam animadas com esse furor utópico – dadaístas e expressionistas, por exemplo, preferiram retratar a violência, a miséria e o absurdo da condição humana, não raro em tom melancólico e niilista. Podemos falar, nesse sentido, de duas famílias de vanguardas: as propositivas, que denunciaram a feiúra do mundo burguês como ponto de partida para a sua transformação, e as pessimistas, que se limitaram ao retrato caricatural do caos. 

Maiakovski, Neruda e Oswald de Andrade são alguns dos autores que se filiaram à primeira corrente; Tristan Tzara, Georg Trakl, Paul Celan destacam-se na segunda. O ciclo das vanguardas históricas foi tragicamente interrompido com a ascensão de regimes fascistas e com a eclosão da II Guerra Mundial – numerosos poetas e artistas europeus morreram em combate, nos campos de concentração, enlouqueceram ou se suicidaram – e o projeto utópico foi congelado, nas décadas seguintes, pelo macarthismo e pela Guerra Fria. Nos Estados Unidos e na Europa Ocidental, a pesquisa estética foi retomada por pequenos grupos de autores experimentais, como o Oulipo na França e a Language Poetry, nos EUA. Porém, os novos vanguardistas centraram o foco de seu interesse na construção formal, sem um projeto cultural mais amplo (a conjunção arte/vida/mundo de Breton e seus amigos). Na antiga União Soviética, na China e nos países do Leste Europeu, por outro lado, consolidou-se o Realismo Socialista como arte oficial e única de estado, matando a diversidade na pesquisa artística (situação que seria revertida, lentamente, a partir da década de 1960). 

É possível rastrearmos poetas que nas últimas décadas conciliaram o trabalho formal com o conteúdo político – para ficarmos apenas no caso do Brasil, podemos citar a fase participante da Poesia Concreta (os poemas Greve e Luxo/Lixo, de Augusto de Campos; o Cristo-dólar e o Mallarmé vietcong, de Décio Pignatari; a série Servidão de passagem, de Haroldo de Campos), e ainda os poemas engajados de Ferreira Gullar e boa parte da música popular de alto repertório dos anos 1960-1970,contemporânea dos regimes autoritários no Brasil e na América Latina (Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Vandré, Gilberto Gil, Capinam, Milton Nascimento e muitos outros). 

A redemocratização do continente sul-americano, a partir dos anos 1980, somada à queda do Muro de Berlim e ao fim do antigo campo socialista na Europa, criaram as bases ideológicas da chamada pós-modernidade, que declarou o suposto “fracasso” das vanguardas artísticas, assim como dos projetos políticos revolucionários, que teriam naufragado num ocaso das utopias. A nova fé animou escritores, músicos, cineastas e artistas plásticos que incorporaram a seu vocabulário a palavra “mercado” e criaram obras com o objetivo declarado de atingir a demanda de determinado público e obter retorno para a indústria cultural. 

Dentro dessa perspectiva, que tem como dogmas a hipotética superioridade da economia de mercado globalizado e das instituições da democracia liberal representativa, a arte distanciou-se não apenas do engajamento e da utopia, mas até da simples moralidade: para artistas como Egberto Gismonti, Gilberto Gil ou Gal Costa, cantar em Israel é um negócio como outro qualquer, sendo suficiente o pagamento do “valor de mercado” de seus shows. 

O cenário neoliberal, porém, revelou-se bem menos tranquilo do que o esperado por Francis Fukuyama, o guru norte-americano que declarou o “fim da história”. Se a década de 1990 foi o período áureo do neoliberalismo, nos anos seguintes o modelo foi mergulhando num fracasso cada vez mais profundo, atingindo não apenas a América Latina como os países do chamado Primeiro Mundo, especialmente os seus elos mais fracos – Itália, Espanha, Portugal, Grécia – cujas economias estão sendo destruídas pelas receitas neoliberais. 

Estamos longe, ainda, de uma nova situação revolucionária, porém, as fissuras no monolito ideológico do “pensamento único” criam situação propícia para que os produtores culturais voltem a exercer uma reflexão crítica sobre os fatos do mundo. Neste ponto, vamos, finalmente, falar da Palestina. A poesia, sozinha, é incapaz de mudar o mundo, mas pode ser uma ferramenta importante, no campo da cultura, para a denúncia das atrocidades cometidas pelo sionismo nos territórios palestinos ocupados, exercendo um jornalismo poético crítico e uma solidariedade ativa. Poemas sobre a Palestina publicados em sites, jornais e revistas, recitais de poesia em homenagem ao povo palestino, são também atividades políticas, de informação histórica e conscientização. A revista Zunái, no link Opinião, publica regularmente os Cadernos da Palestina, com poemas, artigos, desenhos e fotos relativos ao tema, e dessa experiência nasceu a plaquete Poemas para a Palestina, com textos de autores brasileiros,distribuída gratuitamente ao público durante o Fórum Social Mundial Palestina Livre, realizado em Porto Alegre, em 2012. 

Essa publicação, acrescida de traduções dos poemas para o idioma árabe, será reeditada no início de 2014, em versão ampliada, e parte da tiragem será enviada a escolas e universidades palestinas,como um presente de solidariedade dos poetas brasileiros ao povo palestino. Um presente que traz uma mensagem política clara: NÓS ESTAMOS COM VOCÊS! 

A revista Zunái também se engajou para a realização da exposição fotográfica dedicada aos 30 anos do massacre de Sabra e Chatila, exposta em 2012 na Biblioteca Alceu Amoroso Lima, e neste ano foi uma das organizadoras de um recital de poesia em solidariedade à Palestina, que aconteceu em São Paulo, no Club Homs. Poetas, sozinhos, são incapazes de mudar o mundo, mas podem questionar preconceitos e valores ideológicos veiculados pela mídia, apresentar uma outra versão da história, diferente da oficial, colaborar para a conscientização do caráter autoritário e racista do sionismo e atrair setores da intelectualidade para o apoio solidário à luta do povo palestino por sua autodeterminação, liberdade e soberania.


(*) Poeta, curador de literatura no Centro Cultural São Paulo, colunista da CULT e editor da revista Zunái. Participa do GT Árabe e do Comitê pelo Estado da Palestina Já.

Berço do samba, Madureira é sinônimo de alegria e de tradição cultural


Bairro cantado em verso e prosa por diversos nomes daMPB é classificado como rico quando o quesito é cultura. Seja na vocação para berço do samba ou para ser o segundo maior polo comercial da cidade, Madureira carrega o verdadeiro espírito do subúrbio carioca. 

Confira o roteiro para você curtir os pontos mais importantes do bairro:
Escolas de Samba
Em 1910, Madureira já respirava carnaval e alguns blocos já faziam parte do cotidiano da região. Na década seguinte, o bairro ganhou sua primeira escola de samba  -Prazer da Serrinha-, que mais tarde, em 1947, se tornaria a atual agremiação Império Serrano. Hoje a sede da escola fica na Avenida Ministro Edgard Romero, umas das mais movimentadas da região, bem ao lado da Estação Mercadão de Madureira. O Império Serrano é uma das escolas mais tradicionais da cidade e já foi campeã do carnaval carioca nove vezes. Belíssimos sambas coroam a história da verde e branca como “AquarelaBrasileira”, “Heróis da Liberdade” e “Bumbum Paticumbum Prugurundum”.
Outra escola natural do bairro é a Portela, conhecida como “A Majestade do Samba”, é uma das escolas que deram origem ao carnaval carioca. Foi fundada em 1923, em Oswaldo Cruz, e só em meados da década de 1930 passou a se chamar Portela; com o tempo também se mudou para Madureira onde está até hoje. Na quadra da azul e branca você se sente em casa, mas chegue cedo. A feijoada e os ensaios da escola, que é a maior vencedora do carnaval carioca com 21 títulos, são bastante concorridos. 
Jongo da Serrinha
Antes mesmo do samba nascer e se popularizar, o Rio de Janeiro já era presenteado com outro ritmo. Em 1920 o Jongo chega à comunidade da Serrinha, quando famílias vindas de áreas rurais onde se praticava a dança – oriunda de regiões africanas - ocuparam o morro, trazendo ainda mais diversidade cultural a Madureira. Em pouco tempo, o jongo era o ritmo mais tocado no alto dos morros da cidade. Era comum os antigos sambistas das velhas guardas das escolas de  samba realizarem rodas de jongonas suas casas e vice-versa. Diferente do samba, o jongo era restrito ao ambiente familiar, por isso foi pouco divulgado.
Hoje, o morro da Serrinha é o único do Rio que conseguiu preservar e transmitir a tradição jongueira.
Muito desta preservação se deve ao grupo Jongo da Serrinha, responsável por levar o ritmo aos palcos cariocas. O grupo faz um trabalho de resgate da sua memória. Hoje eles se apresentam em diversas casas de shows da cidade como o Trapiche Gamboa e lançaram o segundo CD do grupo no Centro Cultural Justiça Federal. O “Vida ao Jongo” conta com participações de diversos cantores como Zeca Pagodinho e Sandra de Sá e tem composições de Paulo César Pinheiro, Wilson Moreira e diversos compositores do jongo, além de direção musical de Paulão 7 Cordas.
Baile Charme do Viaduto de Madureira
O hip hop e a black music também têm lugar em Madureira. No dia 19 de maio de 1990 acontecia o primeiro Baile Charme do Viaduto Negrão de Lima. Na primeira edição, os DJs residentes Markin New Charm, Kally e Loop recebiam os DJs Malboro, Fernandinho e Corello. Nesse dia, iniciava-se a história de um dos movimentos mais marcantes da cultura do bairro, assim como as escolas de samba da região e o jongo. O Viaduto Negrão de Lima, mas conhecido como Viaduto de Madureira, tornou-se centro de difusão da cultura popular negra na Zona Norte. Após 23 anos, o evento continua fiel à tradição, mas agora ao som dos DJs Michel, Fernandinho e Guto. Esse ano, o baile ganhou o título de “Bem Cultural de Natureza Imaterial” da cidade.
Feira da Yabás
Como diz Arlindo Cruz, Madureira “é bem perto de Oswaldo Cruz...”, e é por lá que acontece a Feira das Yabás. “Yabás”, “tias”, “barraqueiras”. Assim são chamadas as 16 cozinheiras que fazem parte do time. Desde 2008, a tradicional feira oferece gastronomia e roda de samba, na Praça Paulo Portela, em Oswaldo Cruz. O evento, que é mensal, acontece no segundo domingo do mês. A iniciativa foi do sambista Marquinhos de Oswaldo Cruz, que depois de promover o Trem do Samba e a Feijoada da Portela, decidiu juntar samba de raiz com comida negra carioca, e assim, nasceu a Feira das Yabás. O nome Yabá significa Mãe Rainha e define todos os orixás femininos. As mulheres são as principais figuras do evento, e nas 16 barracas espalhadas pela praça, elas preparam deliciosos pratos da cozinha brasileira, mas que levam uma pitada da culinária africana. É um convite à experimentação. 
Mercadão de Madureira 
Outra vertente expressiva de Madureira é o comércio. Passear pela mistura de cores e cheiros dos corredores do Mercadão de Madureira é ter a certeza que irá se surpreender com a quantidade de produtos dos mais variados tipos que se encontra por lá. É uma verdadeira experiência para os sentidos e não pode ficar de fora do seu roteiro. Ele é um ponto de encontro bem no coração do bairro e carrega o espírito carioca. O Mercadão de Madureira, além de ser um dos mais tradicionais e maiores do país, é considerado o mais completo da cidade e a sua história se confunde com a própria história do bairro. Em 2014 chega aos 100 anos. O polo de compras foi inaugurado como ponto de vendas de produtos agrícolas e, hoje, recebe cerca de 80 mil pessoas por dia. Elas vêm de todos os cantos e chegam cedo para aproveitar cada produto que o lugar oferece. São cosméticos, roupas, ervas, alimentos e muito mais. Perto de completar um século, o Mercadão tornou-se o mais novo Patrimônio Cultural do Povo Carioca, reconhecendo o espaço como uma das principais atrações da cidade.
Parque Madureira
Há pouco mais de um ano, Madureira e seus moradores receberam um presente. O Parque Madureira atrai cada vez mais visitantes para o bairro, que hoje conta com a terceira maior área verde da cidade. Durante a semana famílias inteiras vão ao lugar para fazer um simples piquenique na grama ou se refrescar nos chafarizes. As apresentações culturais também ganharam vez, artistas se apresentam na Arena Carioca batizada de Fernanda Torres e na Praça do Samba. A atração que mais chama o público para o Parque Madureira, talvez seja o esporte. Além das ciclovias, academias para idosos e das quadras poliesportivas, o parque conta com a melhor pista de skate do país. Batizado com o nome de um dos pioneiros do skate carioca, Jorge Luiz Souza, o Tatu. O Skate Park é o segundo maior do Brasil e conta com quase 4.000 metros quadrados, atendendo quase todas as vertentes do esporte. A pista foi feita pelos padrões nacionais e internacionais de skate e tem todas as credenciais para receber grandes eventos esportivos. Cada modalidade tem seu espaço, uma ladeira para os praticantes de Downhill, uma ampla área para street, com escadas, corrimãos e outros elementos urbanos que são utilizados como obstáculos pelos skatistas. Uma pista Bowl, em formato de piscina arredondada também foi construída no parque, que recebe em um mesmo lugar gente de todas as regiões e tribos com uma única finalidade: a diversão. 

sábado, 2 de novembro de 2013

Filme “Ajuda” revela realidade e surpreende participantes

Durante algumas horas, os pequenos atores Marjorie Blatt e Victor de Sá, de 9 anos, fizeram-se passar por crianças de baixa renda no centro de São Paulo, aproximando-se dos pedestres e pedindo ajuda. Eles não queriam dinheiro. Na verdade, precisavam de ajuda para resolver dúvidas de português. A experiência, criada pela AlmapBBDO, foi documentada pela produtora Cine e está no filme “Ajuda”, de 1 minuto, para a Casa do Zezinho. 




As raízes portuguesas da retórica brasileira

No recém lançado Retórica à moda brasileira, a historiadora Maria Renata da Cruz Duran examina o ensino, no passado, para descobrir as raízes desse hábito nacional


Retórica à moda brasileira
  
Para escrever Retórica à moda brasileira, a historiadora Maria Renata da Cruz Duran diz ter seguido “um impulso de explicar, por um lado, o modo de ser do brasileiro, seu gosto pela conversa fiada, suas silabadas políticas; e, por outro, de descobrir a genealogia dos sistemas acadêmicos luso-brasileiros, revelando o fraco dos intelectuais tupiniquins pelo louvor, pela exibição pública, pela esgrima das palavras”.

Ela seguiu esse impulso, investigando e analisando a instrução de caráter retórico ministrada desde o tempo do Marquês de Pombal, cujo governo modernizante em Portugal durou de 1750 a 1777, quen teve reflexos no Brasil sob Pedro I, trazidos por José Bonifácio. 

O período é balizado por duas obras relevantes para a história das relações escolares no país: O verdadeiro método de estudar, de Luís Antônio Verney, de 1746, base teórica para a reforma na instrução lusófona, e asLições elementares de eloquência nacional para uso da mocidade de ambos os hemisférios, de Francisco Freire de Carvalho, de 1834, que uniformizaram o ensino da retórica no Brasil.

Num texto claro e com pitadas de bom humor, a autora revela a importância que o ensino da retórica teve no uso da língua portuguesa, na medida em que a matéria contribuiu no estabelecimento de regras comuns para o idioma e influenciou a formação de “um conjunto de palavras comuns e de um jeito de falar peculiar que, depois, chamou-se de brasileiro”. 

A partir desse quadro, ela analisa como a cultura oral marcada pela retórica transferiu-se para a cultura escrita, representada pela imprensa da época, e de que forma fomentou o gosto pela leitura e pela escrita no Rio de Janeiro da época.

ServiçoMaria Renata da Cruz Duran
Retórica à moda brasileira - Transições da cultura oral para a cultura escrita no ensino fluminense de 1746 a 1834São Paulo, Editora Unesp

Fellini: há 20 anos o mundo ficava menos iluminado

Federico Fellini
Federico Fellini (1930-1993)

Em 31 de outubro de 1993, o universo perdia uma estrela e o mundo ficou menos iluminado. Federico Fellini deixou de viver, aos 73 anos de idade. Foi um grande cineasta; apresentou a alma dos italianos na telona ao mesmo tempo em que mergulhava profundamente na alma humana, levando o público a reflexões sobre o mundo, a sociedade, o indivíduo e tudo que se relaciona com a vida de todos. 


Por Marcos Aurélio Ruy


Fellini inovou a sétima arte com enquadramentos diferenciados e montagens antológicas. Por isso, sua obra jamais vai para o esquecimento, mas que permanece viva em diversos outros cineastas que influenciou. 

Os filmes de Fellini retratam a Itália e os italianos de maneira límpida e honesta. E por ser tão específico tornou-se universal e conquistou uma legião de fãs; sua magia, apresentada na telona, foram referência inclusive para filmes como o brasileiro O Palhaço (2011), de Selton Mello. Justamente na delicadeza demonstrada em observar a magia da vida na realidade específica, inserindo-a no contexto humano e universal.

Para o jornalista Goffredo Fofi ele “conseguia, sem esforço, transformar os nossos vícios em virtudes”. Já o também italiano Ítalo Calvino o definia como um “homem de múltiplas curiosidades intelectuais e humanas”, capaz de “relacioná-las para compor uma imagem do mundo com uma coerência interna e um sentido das causas do mistério”. E o crítico Gianni Volpi viu a obra de Fellini como o retrato de um mundo disforme, antes que deformado.

Fellini dirigiu obras que fazem parte da história do cinema e, mesmo 20 anos após sua morte, não perdem a atualidade. como Mulheres e Luzes (1950), Abismo de um Sonho (1952), Os Boas Vidas (1953), A Trapaça(1955), Noites de Cabíria (1957), A Doce Vida (1960), 8 ½ (1963), Satyricon (1969), Os Palhaços (1970),Amarcord (1973), Casanova (1976), Ensaio de Orquestra (1979), Cidade das Mulheres (1980), E la Nave Va(1983), Ginger e Fred (1985), A Voz da Lua (1990), entre tantos.... 

Marcaram a carreira de um dos maiores nomes do cinema mundial, que nasceu em Rimini, à margem do Adriático, em 20 de janeiro de 1920. “As cores da escuridão que vivem em mim, que vivem em nós”, disse Fellini sobre a sua obra, definindo o mergulho que empreendia no olhar do ser humano, mas com espectro do social nas vidas de todos. Pare ele, “a luz é tudo, o verdadeiro universo de expressão do cinema. É sentimento, ideologia, filosofia, adjetivação”. Essa assertiva muito presente em suas películas que se aproximavam da perfeição no casamento entre beleza estética e conteúdo, sempre preocupado em provocar reflexões. 

Federico Fellini, que foi casado com a também grandiosa atriz Giulietta Masina, sofria com as durezas da crise econômica da Itália e com a crescente concorrência exercida pela televisão e pelas novas tecnologias, que ameaçam o cinema. “Acho impossível aceitar que não exista mais, que seja fechada uma sala de exibição – onde as pessoas que saíram de casa se reúnem, se encontram, entram, sentam e aí a luz se apaga, um feixe luminoso parte e ilumina uma grande tela, e aparecem rostos enormes, que começam a falar”, reclamava. 

“Guerra” entre o tradicional e as inovações tecnológicas que, entretanto, é refletida em suas obras, que procuram um caminho para utilização das novas tecnologias, sem abandonar a Inteligência.



Ver o filme