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No nosso blog: Brasileiros, Norte Americanos, Portugueses, Canadenses, Russos, Ingleses, Italianos, Eslovenos, enfim, todos que gostam da cultura Brasileira e que tem nos acompanhado.

quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

As palavras e as coisas: sobre as ditaduras

O flagrante dos otavinhos ao ter chamado a ditadura militar de “ditabranda” se repete no Chile. O governo neo-pinochetista de Sebastian Piñera aprovou no Congresso a substituição de ditadura militar por “governo militar” nos textos escolares e o de Pinochet de general e não de ditador. A trama fracassou lá também, mas deixa lições.

Que importância tem chamar as coisas pelos seus nomes? Dizer que ditadura foi ditadura e não ditabranda ou governo militar ou “regime autoritário” (como o chama FHC em suas análises)?

Chamar ditadura de ditadura é dizer que é o oposto de democracia. Dizer que se tratou de uma ditadura militar, quer dizer que as FFAA, como instituição, violaram as atribuições constitucionais, e assumiram o poder do Estado.

Chamar aquele regime de “autoritário” ou de “ditabranda” ou de “governo militar” é esconder sua natureza essencial: de governo imposto pela força das armas, derrubando a um governo legalmente constituído.

Quando os órgãos da velha mídia brasileira chamam Castello Branco, Costa e Silva, Garrastazu Medici, Ernesto Geisel, e Joao Figueiredo de presidentes ou de ex-presidentes e não de ditadores, está equiparando-os aos que foram eleitos pelo voto popular e escondendo seu caráter essencial de governantes apoiados na força das armas e não na vontade popular.

Esconder a natureza de ditadura militar serve para tentar esconder o papel que teve essa mesma mídia ao pregar contra o governo democraticamente constituído, alegando que preparava um golpe e caracterizar o movimento golpista como de “salvação da democracia em perigo”. O famoso “pega ladrão”, que serviu para acobertar justamente o que diziam que buscavam evitar: um golpe e a instauração do mais brutal regime que nossa historia conheceu, uma ditadura militar.

Chamam - como fez a própria ditadura, que eles apoiaram – os seus opositores de “terroristas”, a forma de desqualificar os que, ao contrário deles e contra eles, resistiram, lutaram contra a ditadura, jogando sua vida nesse embate. Alegam que os que lutavam contra a ditadura queriam instaurar aqui outro tipo de ditadura. Uma leitura de intenções muito particular de quem pregou o golpe militar alegando que ia ser dado um golpe militar. Enquanto que o que os militares, com seu apoio e conivência, realmente deram foi um golpe, instauraram uma ditadura militar e um regime de terror durante mais de duas décadas.

Chamar democracia de democracia e ditadura de ditadura, conta. FHC chamou a ditadura de “autoritarismo”, e a democratização do país simplesmente de luta contra “os resquícios autoritários”. A partir dessa visão, a democratização era uma operação política superficial, de tirar a maquiagem de um regime autoritário para que ele se tornasse democrático. Apenas desconcentrar o poder político em torno do Executivo e desconcentrar o poder econômico em torno do Estado, como foi a concepção de FHC, que terminou predominando no Brasil, em que as estruturas de poder – dos bancos, da terra, dos meios de comunicação, entre outros – não foram tocadas.

Assim, pelo que se entendia por ditadura – ou autoritarismo – se pode entender o que cada um entende por democracia. Se simplesmente a igualdade jurídica proposta pelo liberalismo ou se profunda democratização das estruturas econômicas, sociais, políticas, da sociedade.

Chamar as coisas pelo seu nome é mais do que um problema nominal. É nomear seu conteúdo, suas determinações sociais, suas características políticas. As coisas não se reduzem a seus nomes, mas os nomes designam – ou escondem – a natureza de cada coisa.

Fonte: Blog do Emir Sader

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Palhaço Benjamim, o precursor da luta contra o racismo na arte




Você sabia que a tradição circense não admitia palhaços ou artistas negros? Neste sentido o Palhaço Benjamim, negro, foi precursor da democratização e da luta anti-racismo nas artes cênicas brasileiras.


O Palhaço Benjamim, como era conhecido, mantinha um circo e depois um pavilhão no início do século 20 no Campo de Santana, no Rio de Janeiro, e era muito bem sucedido em suas apresentações.

Talvez, por ser negro e circense, poucos registros se fazem dele ainda hoje. Benjamim abriu caminho para gerações de artistas negros honrarem o Brasil:

Grande Othelo, Chocolate, Abdias do Nascimento, Zózimo Bulbul, e muitos outros precursoes que ainda nos deleitam com sua presença como Léa Garcia e Milton Gonçalves, pedindo perdão se não cito todos, tamanha a lista que Benjamin abriu.

Foto de 1902 .


Fonte: Blog Bemvindo Sequeira

domingo, 8 de janeiro de 2012

Dia de Reis, festa do povo




A Festa de Reis é vista, quase sempre, como o encerramento do ciclo natalino. É a hora de desmontar a árvore de natal, o presépio, e marca a volta da vida ao normal.

Por Lúcia Beatriz Torres (1) e Raphael Cavalcante (2)

A Festa de Reis, que abrange múltiplas formas de expressão, tem lugar reservado, e nobre, nas festas populares brasileiras. Suas origens perdem-se no catolicismo dos países latinos, e principalmente ibéricos, fonte original da influência europeia na cultura brasileira.

O ciclo natalino reproduz comemorações milenares com as quais os povos assinalam, no hemisfério norte, o início do inverno - e do verão, no hemisfério sul. O Natal herdou essa tradição milenar - foi no século terceiro da nossa era que a Igreja fez coincidir a data de nascimento de Cristo com o solstício de inverno na Europa, que ocorria em 25 de dezembro. Originalmente essa data era considerada como de nascimento do Deus Sol e foi adotada pela Igreja para facilitar a conversão de povos não cristianizados do Império Romano. Tradicionalmente, os povos latinos festejavam o nascimento de Jesus no dia 6 de janeiro que passou, desde então, a ser a festa da visita dos reis magos ao menino nascido em Nazaré .

A fixação pela Igreja, em 350 a. D., do 25 de dezembro como provável dia do nascimento de Jesus Cristo (o Natal) abriu caminho para a comemoração da chegada dos reis magos (Melchior, Baltasar e Gaspar) em 6 de janeiro. Em alguns países latinos, principalmente ibéricos, esta data era tradicionalmente mais importante do que o Natal - dai a forte presença de sua comemoração na tradição popular brasileira, enriquecida com contribuições culturais indígenas e africanas, herdada do catolicismo popular latino e ibérico. O Portal Vermelho publica aqui um estudo de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante sobre esta tradição popular (José Carlos Ruy).


Festas de Santos Reis


Aprender é (re) viver


“Partiram [os Magos] de suas terras [no Oriente]e, guiados pela luz de uma estrela resplandecente, chegaram à gruta, em Belém, na Judéia, para adorar o lho de Deus que havia nascido, ofertando-lhe régios presentes: Ouro, Incenso e Mirra.”

Síntese da Viagem dos Reis Magos baseada no Evangelho de Mateus (2, 1-12) (3).


O texto bíblico de Mateus alude vagamente a respeito dos Magos, não especificando seus nomes e respectivas categorias, número, locais de procedência no Oriente, entre outros aspectos. O enigma que envolve essa narrativa bíblica tem ensejado infindáveis reinterpretações ao longo dos tempos. Conhecida, em sua forma mais popular, como a “Adoração dos Reis Magos”, essa passagem da Escritura Sagrada é fonte de inspiração para as mais variadas manifestações nas letras e nas artes, contribuindo para o desenvolvimento de tradições populares as mais diversas (Silva, 2006).Este contexto levou Mâle, nos alvores do século 20, à seguinte reflexão:

“A imaginação popular cedo foi aos evangelhos, tentando complementá-los, no que faltava. As lendas originaram-se nos mais antigos séculos da cristandade. Elas nasceram do amor, de um tocante desejo de conhecer mais Jesus e aqueles próximos[...]. O povo achava os evangelhos muito sucintos [...]. Nenhuma das cenas da infância de Cristo forneceu mais rico material para o povo que a Adoração dos Magos. Suas misteriosas figuras, mostradas veladamente nos evangelhos, despertavam ávida curiosidade nas pessoas. (Émile Mâle, L’Art Religieux de XII siècle, inserido no Gazette de Beaux Arts,1904).

A propósito, o título de Reis, atribuído aos Magos do Oriente, foi devido a Cesário [São Cesário], Bispo de Arles, França, no século 6. No século seguinte, o Papa Leão I assegurou, em seus “Sermões” sobre a celebração da Epifania, que os Reis Magos eram em número de três. Todavia, seus nomes somente mais tarde foram estabelecidos. As tradições populares do ciclo natalino eram comuns em toda a Europa Cristã, em países como França, Itália, Alemanha (4), Portugal e Espanha. Os dramas litúrgicos medievais eram utilizados como instrumento de ensino e divulgação da doutrina cristã. O episódio dos Magos do Oriente, desde cedo, tornou-se um dos temas prediletos para efeito de dramatização (Officium Stellae). Representações de rituais litúrgicos relativos aos Magos, que, a princípio, eram realizados no interior das igrejas, foram, pouco a pouco, popularizando-se, transportados para espaços abertos – praças e ruas. Assim surgiram os cortejos, vinculados aos templos religiosos das cidades, que encenavam a temática dos Magos, bem como grupos peditórios, no âmbito dos povoados rurais que, de casa em casa, levavam a mensagem do nascimento de Jesus Cristo. Atualmente, alguns países europeus ainda mantêm essas tradições milenares como, por exemplo, o Cortejo dos Reis Magos na Basílica de Santo Eustórgio (5) em Milão, Itália, e a Cabalgata de Reyes Magos, em Sevilha, Espanha, bem como o costume dos Grupos de Villancicos (Espanha) e de Janeiras e Reis (Portugal).

No período colonial, os colonizadores, em conjunto com os missionários jesuítas que aportaram ao Brasil, vindos com o primeiro Governador Geral Tomé de Sousa, em 1559 e em anos seguintes, trouxeram essas tradições da Península Ibérica. Estes utilizavam autos litúrgicos com a temática dos Reis Magos, sob a forma de canto, dança e encenação, no processo de catequese e ensino, tanto dos nativos indígenas como dos próprios colonos portugueses(reinóis) e, posteriormente, dos escravos negros. O catequista José de Anchieta, considerado por muitos o precursor das letras brasileiras, formado na escola de Gil Vicente, compôs, ensaiou e representou sua peça teatral inicial, “Pregação Universal”, reintitulada “Na Festa de Natal”, na Igreja dos Jesuítas, em São Paulo de Piratininga (atual cidade de São Paulo), no Natal de 1561, no Ano Novo e no dia de Reis de 1562. Este é o primeiro registro de um Auto encenado no Brasil que, com adaptações diversas, foi repetido por toda a costa brasileira, em aldeamentos jesuíticos como São Lourenço [Niterói] e São Vicente [São Paulo], Reis Magos [Espírito Santo], entre outros (Silva, 2006).

Na segunda década do século XVIII, Nuno Marques Pereira, em seu Compêndio Narrativo do Peregrino da América (Câmara Cascuco, 1998), registra a presença de Grupos de Reis peditórios na Bahia: “[...] uma noite dos Santos Reis saíram estes [homens]com vários instrumentos pelas portas dos moradores de uma vila cantando para lhes darem os Reis em prêmio que uns lhes davam dinheiro e outros doces, frutas, etc.”

Tudo indica que, no início da colonização, junto aos núcleos de povoamento mais consolidados (Salvador/vilas próximas do Recôncavo, Olinda e, pouco depois Recife, já sob o domínio holandês, Rio de Janeiro/Niterói e São Vicente/São Paulo de Piratininga) moldaram-se as formas iniciais das tradições de Reis no Brasil. Presépios, Lapinhas e Pastoris, seguindo-se de outras representações folclóricas derivadas, Reisados, Rancho de Reis, Terno de Reis (versão baiana), Guerreiros, etc. O processo de transplantação dessas tradições intensificou-se durante o Ciclo do Ouro [em terras do atual estado de Minas Gerais, em cidades como Ouro Preto, Sabará, São João del Rei, entre outras], uma vez que aumentou, significativamente, o fluxo imigratório de colonos oriundos do norte de Portugal (Porto, Minho e Trás-os-Montes), regiões agrícola - pastoris, com expressivas tradições de Reis. Na medida em que o povoamento expandiu-se, essas manifestações se ramificaram e se difundiram por todo o território colonizado. Naturalmente, essas tradições que chegaram ao Brasil sofreram, gradativamente, a influência local pela incorporação dos elementos da cultura negra e indígena, através de hibridismos religiosos e culturais, ou seja, como preconizam diversos folcloristas brasileiros, adquiram a “cor local”.

O processo de popularização dos ritos litúrgicos, através das novas formas de representação que surgiram, em particular sobre a influência dos Reis Magos, resultou, em muitos casos, em “excessos de profanização”. Tal fato levou a Igreja a reprovar essas manifestações populares, passando a impedir a entrada desses Grupos no interior das Igrejas, afastando-se, desse modo, de seus fiéis que, no entanto, a seu modo, continuaram a levar a palavra de Deus para lugares aonde o catolicismo não chegava ou não os aceitava.

Na década de 1980, com a vinda do Papa João Paulo II a Santo Domingo (América Central), houve, contudo, uma mudança dessa postura eclesial. A partir daí, a Igreja Católica, através do processo de inculturação, abriu novamente suas portas a essas manifestações populares, reaproximando-se, assim, de seus seguidores, dando novo impulso às Festas dessas tradições de Reis.

Colocando a inculturação na linha da encarnação promovida pelo Cristo, compreende-se que se trata de atingir os níveis mais profundos que constituem uma cultura, nas organizações da sociedade, nos relacionamentos entre os homens e com Deus 6.

No Brasil, as tradições populares do Ciclo Natalino, baseadas nos costumes religiosos ibéricos, são designadas por Reisados. Segundo o mestre folclorista brasileiro Câmara Cascudo “[...] sem especificação maior refere-se sempre aos ranchos, ternos e grupos que festejam o Natal e Reis. O Reisado pode ser apenas a cantoria como também possuir enredo” (Câmara Cascudo,1998). É necessário lembrar que, dentro do ciclo natalino, existem manifestações que, apesar de serem habitualmente chamadas de Reisados, não possuem a temática dos Reis Magos e do Menino Jesus, o que não impossibilita a participação desses grupos nas Festas de Santos Reis. Como exemplo, temos a Chegança e a Marujada (temática náutica, envolvendo a luta dos Mouros contra os Cristãos), a Taieira e o Ticumbi (temática afro-brasileira).

Falta unanimidade na definição conceitual por parte de estudiosos dos Reisados, em função da dificuldade classificatória dessas manifestações, posto que se compreendem em um numeroso grupo: as Folias/Companhias/Embaixadas de Reis, o Terno de Reis(baiano e sulino), Pastor, Tiração de Reis, o Presépio, as Pastorinhas, os Pastoris, o Bumba-meu-boi do Nordeste brasileiro oriental, o Boi-de-Mamão, o Boi de Reis, o Reis de Bois, o Cavalo-Marinho, a Companhia de Pastores, as Reiadas, Reis de Careta e tantas outras manifestações, cobrindo praticamente todo o território brasileiro. Encerra a questão o folclorista Ulisses Passarelli:

“A verdadeira riqueza do folclore brasileiro está na variedade inclassificável, no sincretismo, nos fenômenos de transposição, interpenetração e influências folclóricas, nas múltiplas variantes, em toda a criatividade, plasticidade, presença de espírito e dinâmica com que o povo os cria, recria, adapta, extingue e ressuscita”. (“Reisados Brasileiros: tipologia”, 2003).

Em alguns Grupos de Reis, o período de jornada/giro adianta-se ou estende-se aquém ou além do período de 24 de dezembro até 6 de janeiro. A partir do dia 8 de dezembro (Nossa Senhora da Conceição) até o dia de São Brás (3 de fevereiro – entendendo que, por advogar contra problemas de garganta, o Santo possa garantir uma boa voz para a cantoria), os Grupos podem encerrar sua jornada/giro. O tradicional Dia de Reis (6 de janeiro) é o mais marcante, seguido, em alguns lugares, pelo dia de São Sebastião (20 de janeiro – Folias de São Sebastião) e ainda pelo dia de Nossa Senhora das Candeias (2 de fevereiro).

No caso das Folias/Companhias/Embaixadas de Reis, as formas de representação dos grupos e de seus componentes, como também os estilos de cantoria, entre outras características, variam de região para região, entretanto a essência, o núcleo dramático dessas tradições “que é contar, rememorar a viagem dos Três Reis Magos, o culto ao Menino Jesus” (Diniz, 2007) não muda. De uma maneira mais ampla, todos os reisados, sob influência dos Reis Magos, constituem autos populares ou grupos de cantoria, formados: “[...] por grupos de músicos, cantadores e dançadores, que vão de porta em porta, no período de 24 de dezembro a 6 de janeiro, anunciar a Chegada do Messias, homenagear os Três Reis Magos e fazer louvações aos donos das casas onde dançam”. (Rocha, 1984)

Normalmente, saem por promessa e/ou devoção aos Santos Reis, e nas visitas, os Grupos de Reis entram nas casas, cantam à saúde e pedem a proteção de seus moradores, desejam o melhor para todos, através de bênçãos, recebendo, em contrapartida, donativos (dinheiro, mantimentos, entre outros). Esse “[...] ritual de reciprocidade [...] que se processa entre pessoas do grupo e dos moradores das casas visitadas”(Silva, 2006, 174) é o que os identifica, pois é nesse momento em que se percebem as trocas simbólicas imbuídas dessa outra característica marcante dos grupos, o peditório, que, de acordo com Théo Brandão (7), “[...] é o que lhe dá o verdadeiro [sentido] e lhe cria individualidade”. Os donativos arrecadados são utilizados para a realização da Festa de Encerramento do Grupo, ou Festa do (Ar)Remate, evento que marca o fim da jornada/giro, com fartura de comida e bebida, ansiosamente aguardado pelos componentes, familiares e convidados. Em muitas regiões, é comum a presença da figura do Festeiro (indivíduo que se prontifica a realizar essa festa),e em algumas regiões o responsável ou dono do Grupo (Mestre/Embaixador/ Capitão) assume esse papel.

As Festas de Santos Reis contam com grande envolvimento da comunidade. Os moradores/devotos incentivam os Grupos de Reis, ajudando como podem. Muitas famílias fazem questão de recebê-los em suas casas, oferecendo lanches para os integrantes. Costureiras costumam destinar um pouco de seu tempo para a confecção das indumentárias e artistas plásticos doam um pouco de sua arte aos “Santos Reis”. Outros se destinam a acompanhar os Grupos em suas peregrinações pelas ruas das cidades, ajudando no que for preciso.

A participação de pessoas da mesma família e de amigos nos Grupos de Reis é um fato de extrema importância para entendermos a resistência das tradições, na medida em que fica mais fácil se organizar e preservar suas raízes culturais, transmitidas de geração para geração, de pai para filho. Cada pessoa possui um papel importante dentro do complexo universo ritual e dos Grupos de Reis, que inclusive podem ter regulamento (estatuto) interno, com normas que devem ser seguidas pelos componentes e que estabelecem uma hierarquia e conduta mais responsável, disciplinada e fraterna podendo, inclusive, “punir” com a desfliação o integrante que não seguir esses preceitos. O mesmo se passa com as associações constituídas por um ou mais grupos de uma localidade, município ou região.

Por se tratar de uma enorme família, é bem representativo o número de crianças que participam desses grupos, o que estimula e desenvolve o seu lado lúdico, fazendo-as interagir internamente (entre elas) e externamente (com outros grupos), acelerando o processo de ensino-aprendizagem, inerente ao meio acadêmico (escolas) – primeiro contato com educação patrimonial. Essa experiência e a aproximação dos mais jovens são fundamentais para a perpetuação dessas tradições, uma vez que os detentores do “conhecimento dos antigos” encontram-se, em sua maioria, com idade avançada e, em alguns casos, infelizmente, não podem mais difundir seu rico legado. Vivenciando o fato folclórico, as crianças conhecem/absorvem melhor esse conhecimento transmitido pelos Mestres, reforçando seus laços culturais e conscientizando-se de sua identidade.
Cabe observar um expressivo surgimento de Associações/Organizações de Grupos de Reisados pelo Brasil, impulsionado pela busca de recursos e apoio por parte de seus participantes, resultando também na mobilização de seus integrantes e na participação das comunidades de seu entorno. Geralmente essas instituições da sociedade civil atuam em parceria com órgãos municipais encarregados da execução das Festas/Encontros de Reis (palco/ palanque, sonorização, transporte, alimentação, etc.).

A construção de Igrejas e Capelas de Santos Reis constituiu um ponderável componente de preservação das tradições. Esses espaços sagrados agregaram cerimônias religiosas populares como: missas solenes, procissões, dramatizações, apresentações decorais, etc., facilitando as atividades das Festas. Nos salões e outras instalações agregadas possibilitam também a realização de eventos comunitários. Essa iniciativa de erguer templos aos Reis ganhou mais força com a constituição dos Grupos em entidades associativas.

Os Grupos, geralmente compostos por pessoas humildes, de localidades/ bairros periféricos, precisam adaptar-se aos novos tempos que impõem, em função da necessidade de se trabalhar, que seus integrantes saiam para as jornadas/giros ou de noite ou nos finais de semana, muitas vezes também deixando para usar suas férias durante esse período. Sacrifícios à parte, o ritual é sempre muito bonito e composto de “etapas” ou “fases”, que podem variar de acordo coma região, mas com algumas poucas alterações: chegada/abrição de portas; saudação aos donos da casa, louvação ao presépio, despedida e, dependendo da manifestação, apresentação cantada/recitada e/ou dançada dos palhaços (e seus congêneres regionais). Podem ainda apresentar “cantos circunstanciais”, com temas diversos. O teor dos versos cantados é normalmente de natureza bíblica.

Em resumo, individualmente, podemos identificar claramente que existem dois tipos de Festa de Reis: as festas de encerramento de cada grupo e de “confraternização coletiva”, onde diversos grupos se apresentam publicamente “fora de sua base ritualística de ampla significação” (Idem, p. 8.), assinalando uma nova perspectiva: maior intercâmbio entre os grupos locais e regionais, apresentações fora do período tradicional e, consequentemente, maior participação dos moradores. Essas Festas de confraternização coletiva recebem diferentes denominações: Encontro de Folia de Reis, Festival de Folias de Reis, Festa de Santos Reis, Chegada das Bandeiras, entre outros, e costumam reunir um grande público. Os grupos participantes ganham troféus, certificados, visibilidade social e, algumas vezes, dinheiro. Alguns pesquisadores admitem que essas festas sejam um dos principais instrumentos de preservação da tradição e onde “[...] essas relações [comunitárias e associativas] atingem o auge” (Pereira, 1997).

Festas de Santos Reis pesquisadas no Brasil, por cidades e principais grupos de reisados participantes (SILVA, 2006):

• Pará: Belém, Ananindeua – Tiração de Reis e Folia de Reis

• Maranhão: São Luís e Caxias – Pastor e Reis de Careta;

• Piauí: Teresina – Reis de Careta

• Ceará: Juazeiro do Norte, Crato e Barbalha - Reisado

• Rio Grande do Norte: Natal – Boi de Reis (Boi Calemba);

• Paraíba: João Pessoa, Tacimas e Bananeiras – Boi de Reis e Cavalo-Marinho;

• Pernambuco: Carpina, Santa Maria da Boa Vista e Garanhuns – Pastoril, Bumba-meu-boi,
Reisado, Cavalo-Marinho;

• Alagoas: São José das Lajes – Reisado e Guerreiro

• Sergipe: Laranjeiras e Japaratuba - Reisado:

• Bahia: Salvador e Santo Amaro da Purificação – Terno de Reis;

• Espírito Santo: Muqui, São Mateus e Conceição da Barra – Folia de Reis e Reis de Boi;

• Minas Gerais: Juiz de Fora, Poços de Caldas, Passos, Três Corações, Três Pontas, Itaú de Minas, Uberaba, Uberlândia, Araxá, Romaria, Patos de Minas, Jequitibá, Sete Lagoas, Montes Claros, Bocaiúva e Pirapora – Folia de Reis, Pastorinha e Companhia de Pastores;

• Rio de Janeiro: Nova Friburgo, Cordeiro, Barra Mansa, Duas Barras, Valença, Rio das Flores, Vassouras, São Fidélis e Itaocara – Folia de Reis;

• São Paulo: Ribeirão Preto, Batatais, Altinópolis, Cajuru, Santo Antônio da Alegria, Cássia dos Coqueiros, São José do Rio Preto, Votuporanga, Nhandeara e Assis – Companhia de Reis;

• Goiás: Goiânia – Folia de Reis;

• Distrito Federal: Brasília – Folia de Reis;

• Mato Grosso do Sul: Cassilândia, Parnaíba e Aparecida do Taboado – Folia de Reis;

• Paraná: Londrina, Maringá e Sarandi – Folia de Reis;

• Santa Catarina: Florianópolis e Itajaí – Boi-de-Mamão e Terno de Reis;

• Rio Grande do Sul: Osório, Gravataí e Santo Antônio da Patrulha – Terno de Reis.

Observa-se que os Grupos de reisados estão mais organizados, dispõem de maior apoio do poder público e realizam as Festas, a cada ano, com maior repercussão social. Entretanto, continuam realizando a sua produção de forma independente, fazendo praticamente tudo com recursos próprios: vestimentas (grupos saem com roupas doadas por outros grupos), conserto/compra de instrumentos, contratação de músicos quando necessário (sanfoneiro, cavaquinho, etc.), compra de alimentos para as Festas de Arremate. Alguns Grupos já produzem, sob forma de gravação (cassete, CDs e até em DVD), o registro de suas apresentações.

Hoje em dia, as Igrejas Pentecostais, que se instalaram nas periferias das localidades, têm contribuído para o arrefecimento das tradições de Reis, retirando muitos componentes dos Grupos de Reisados, normalmente por intolerância ou preconceito. O respeito à diversidade cultural independe de crenças e deveria ser tratado como um valor de cidadania.

Após a leitura desse texto, devemos refletir sobre a importância de se levar o conteúdo das Festas Populares para debate com profissionais da área da educação e, posteriormente, para os jovens nas escolas. Essas celebrações acontecem no âmbito da pedagogia da aprendizagem (“escola da vida”) e complementam a pedagogia da instituição de ensino, derrubando diferenças sociais e “desenvolvendo seus mecanismos próprios de transmissão do conhecimento” (Idem, p. 14.)

Existem assuntos relativos às Festas que, se tratados de maneira transversal dentro das escolas, preencheriam lacunas historicamente excludentes dos menos favorecidos, como também aproveitar para pensar em um Natal mais brasileiro, refletindo, tanto quanto possível, os valores de nosso patrimônio artístico-cultural. É um momento que os pobres se levantam, dizem sua voz, apresentam sua resistência, e para aqueles que sabem ver, está aqui o grito de libertação, o grito de justiça, o grito de vida nova. (depoimento do Padre Medoro de Souza, da Igreja Matriz de Valença/RJ, para o documentário Dias de Reis, de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante,2006).

Bibliografa:

Silva, Affonso Furtado. Reis Magos: história, arte, tradições. Rio de Janeiro, Léo Christiano Editorial, 2006.

Mâle, Émile. L’Art Religieux de XII siècle, inserido no Gazette de Beaux Arts (1904).
Câmara Cascudo, Luís de. Dicionário do Folclore Brasileiro.9a edição. Rio de Janeiro, Ediouro, 1998.

Revista Mundo e Missão. http://www.pime.org.br/mundoemissao/evanincultigreja.htm.

Passarelli, Ulisses. Reisados Brasileiros: tipologia, 2003.

Diniz, Domingos. As Folias de Santos Reis, 2007. www.aguacomprida.mg.gov.br/hist_folia.html. (publicado pela Comissão Mineira de Folclore)

Rocha, José Maria Tenório. Folguedos e danças de Alagoas: sistematização e classifcação. Maceió : Depto da Assuntos Culturais, 1984.

Pereira, Edimílson. A Educação pela Festa, para “Carranca” – Órgão informativo da Comissão Mineira de Folclore (Ano 2, nº. 23,agosto de 1997).

Dias de Reis, documentário de Lúcia Beatriz Torres e Raphael Cavalcante (2006).

Notas

(1) Jornalista e Radialista. Graduada em Comunicação Social pela UFRJ.

(2) Produtor Cultural.

(3) Este e outros textos deste artigo são baseados no livro Reis Magos: história, arte, tradições – fontes e referências (Silva, Affonso Furtado da. Rio de Janeiro: Léo Christiano Editorial, 2006).

(4) É interessante assinalar, como exemplo, a existência, até hoje, dos Grupos de Stern- singers (Cantadores da Estrela), atualmente apoiados por uma organização missionária alemã, Kindermissionwerk , que desenvolve projetos de educação cristã, em nível mundial, com crianças carentes.

(5) Essa celebração acontece desde 6 de janeiro de 1336, conforme registrado por Muratori (“ Rerum Italic Scriptors”, Milan, 1728, t. XII, p. 1018).

(6) Revista Mundo e Missão – www.pime.org.br/mundoemissao/evanincultigre- ja.htm.

(7) Em um de seus muitos trabalhos sobre os folguedos natalinos.

Este texto integra o boletim do programa “Festas de Santos Reis” da série “Aprender e ensinar nas festas populares”, abril, 2007. www.tvebrasil.com.br/ salto/

Do livro: Cultura popular e educação. Organização René Marc da Costa Silva. Brasília: Ministério da Educação, Secretaria de Educação a Distância, 2008.

O centenário de Jorge Amado, o contador de histórias






Houve um tempo em que os escritores brasileiros de ficção costumavam despertar paixão entre os leitores. Jorge Amado era um deles, possivelmente o que mais paixão provocava no grande público, num grupo que incluía Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, José Lins do Rego, Érico Veríssimo, entre outros. Esse tempo acabou. Hoje, a relação dos brasileiros com seus autores contemporâneos é de outra ordem.

"Assistimos a um momento em que não há mais a mesma paixão", reconhece o poeta Alberto da Costa e Silva, representante da Academia Brasileira de Letras (ABL) na comissão que organiza as atividades do centenário de Amado, que nasceu em 9 de agosto de 1912, em Ferradas, na região cacaueira do sul da Bahia.

Nessa comemoração, o Brasil vai reviver a antiga paixão por meio de uma série de atividades que lembrarão o escritor. A começar pelo Carnaval da Bahia e do Rio, nos quais personagens amadianos vão protagonizar eventos populares que trarão novamente à cena as tramas pitorescas que, quando lançadas, atraíam milhares de pessoas ávidas para lê-las.

A Rede Globo prepara a readaptação de "Gabriela, Cravo e Canela" e o Museu da Língua Portuguesa, em São Paulo, vai inaugurar neste primeiro semestre uma grande exposição sobre o autor. De vários países, chegam à família Amado propostas de homenagens que se pretende prestar a ele.

Um escritor de ficção só atinge seu grande momento junto ao público quando cria grandes personagens, observa Costa e Silva: "Jorge Amado foi mestre nisso, com personagens inesquecíveis". E esta peculiaridade: além dos protagonistas, seus romances se apoiam "numa multidão de outros personagens, coadjuvantes do maior interesse".

A obra de Amado já foi traduzida para 48 idiomas, em 54 países, segundo dados da Fundação Casa de Jorge Amado. As reedições realizadas desde 2008 pela Companhia das Letras, que já publicou 37 títulos do autor, venderam 240 mil exemplares em livrarias, sem contar encomendas de governo.

Para saber o total vendido até hoje, a pesquisadora Ilana Goldstein, autora de "O Brasil Best Seller de Jorge Amado" (Senac), realizou um levantamento junto às editoras antigas do escritor e estima que o montante se encontre na casa dos 30 milhões. "É um autor extraordinariamente importante para nossa história. Iniciou muita gente na leitura e ajudou um país inteiro a aprender a ler. Foi o escritor brasileiro mais popular do século XX, e com qualidade literária", destaca João Ubaldo Ribeiro.

Mesmo com a popularidade e elogios como esses, não se deve esperar unanimidade nas discussões em torno de seu legado. Os livros de Amado sempre foram alvo de fortes ressalvas. A severidade no julgamento - seus personagens seriam rasos, estereotipados, o português descuidado, etc. - fez com que fosse menosprezado nas análises universitárias de letras, apesar de sempre apreciado por antropólogos e sociólogos.

A postura dos críticos literários contribuiu para um certo descrédito de sua obra e possivelmente para o afastamento dos leitores, sobretudo os mais jovens, algo que as reedições iniciadas em 2008 pela Companhia das Letras têm buscado reverter. O centenário será um momento-chave nessa reconquista, com debates, filmes, show, peças teatrais, livros, além da novela. Toda essa movimentação será uma oportunidade para que se renove também o debate sobre a nova relação da literatura e da crítica com os leitores.

A escritora Myriam Fraga, diretora-executiva da Fundação Casa de Jorge Amado, com sede no Pelourinho, em Salvador, recorda-se do furor que o surgimento de "Gabriela, Cravo e Canela" provocou, em 1958: "Eu era adolescente quando o livro foi publicado e o lançamento levou horas, com filas e mais filas".

Myriam, no cargo desde quando a Fundação foi criada, há 25 anos, convivia quase diariamente com Amado, que morreu em 2001. O Partido Comunista do Brasil, do qual o escritor foi dirigente, ajudava na sua projeção, mas não explicava o arrebatamento. "Muitos autores comunistas não chegaram a lugar nenhum", constata Myriam. O mesmo tipo de fenômeno ocorria no exterior.

O húngaro Ferenc Pál, professor de literatura brasileira em Budapeste, reconhece que os livros de Amado circulavam nos países do Leste europeu em virtude da filiação política do autor, mas não por esse motivo as pessoas os liam. O baiano foi o escritor estrangeiro mais popular da Hungria em meados do século passado.

Nos países lusófonos, Amado era igualmente muito estimado. Quando a reedição de sua obra foi anunciada, há três anos, escritores portugueses e africanos (de língua portuguesa) demonstraram grande entusiasmo - ainda mais que os brasileiros, conta o editor da Companhia das Letras Thyago Nogueira. "Eu me surpreendi, e ainda hoje me surpreendo, ao constatar a penetração que Jorge Amado teve no mundo todo. Sua obra circulou num grau do qual eu acho difícil termos a exata dimensão."

Em sua opinião, o escritor combinava boa literatura com apelo popular. "Atualmente, existe um certo pudor em relação a isso, como se tudo que fosse popular fosse menor. Mas, para Jorge Amado, o povo era a matéria-prima. Ele tinha ouvido grande para o que acontecia nas ruas e fazia uma transposição interessante do ponto de vista literário. Sua escrita é oral, engraçada, irônica e incorpora uma série de registros. Para editar seus livros, precisei ir milhões de vezes ao dicionário. Muitas vezes, ele usava palavras que tinha ouvido apenas na rua", afirma Nogueira.

O mergulho no universo popular, como o do candomblé, foi motivo de crítica e preconceito, lembra Myriam. "Essa aproximação com a cultura afro-baiana, muito viva na Bahia, começou no romance "Jubiabá" [1935] e não foi bem aceita." Pois é justamente a maneira como Amado lida com esses temas um dos motivos da admiração do escritor Alberto Mussa, que, em sua obra, transita entre o erudito e o popular:

"Jorge Amado trata as pessoas do povo e do candomblé com respeito e consegue tirar desse ambiente uma matéria literária. Não se vê isso o tempo inteiro e é algo pouco valorizado. Ou existe um distanciamento ou uma representação muito estereotipada".

Temas populares teriam saído de moda. A média dos autores contemporâneos, segundo Mussa, prefere personagens urbanos, confinados a apartamentos, que sofrem com angústias psicológicas e exercem a mesma profissão que eles, como a de escritores ou professores. "Mas uma literatura em que o personagem é a cópia do autor resulta empobrecedora. Jorge Amado tem a vantagem de se lançar em outros mundos. É difícil retratar bem um marujo, nunca tendo sido um", elogia Mussa.

O romance "Terras do Sem-Fim" (1943), sobre a disputa de coronéis pelo cacau, é considerado pelo escritor um dos melhores da literatura brasileira no século XX. Outros títulos de Amado que destaca são "Dona Flor e Seus Dois Maridos" (1966) e "Os Velhos Marinheiros" (1961), composto da novela "A Morte e a Morte de Quincas Berro D'Água" e do romance "O Capitão-de-Longo-Curso".

"Em termos de linguagem, prefiro algo mais trabalhado e clássico, mas suas histórias são muito boas. Retratam uma parte do Brasil pouco conhecida, como a região baiana do cacau, e trazem personagens exuberantes. Os livros são extremamente bem construídos em termos de fruição e prazer. Se sua valorização é sinal de que estamos recuperando a vontade narrativa, isto já será muito bom", diz Mussa.

Os escritores, hoje, não dão prioridade à opção de contar histórias, analisa Musa. "É como se fosse algo inferior, que relacionam talvez ao modelo narrativo do cinema. A literatura verdadeira estaria, então, em outro lugar."

Sem histórias interessantes, corre-se o risco de tornar os leitores arredios, comenta Costa e Silva. "Jorge Amado se propôs ser um contador de histórias, e logrou sua proposta. Ele escolheu por assunto a vida cotidiana, com seus dramas e alegrias, e não lida com grandes angústias."

Esse universo - aparentemente simples - dificultaria a tarefa dos críticos. "É mais fácil escrever teses sobre quem traz muita coisa nova na forma de escrever, como Rosa ou João Cabral de Melo Neto. Autores como Jorge Amado ou Manuel Bandeira são um bocado difíceis. Mas a crítica está mudando. Vamos assistir a um cansaço muito grande do formalismo pelo formalismo."

O centenário, na opinião de Costa e Silva, será uma ótima oportunidade para o reexame, sobretudo estético, da obra amadiana. "É necessário recolocar seus livros no lugar em que merecem estar."

Se suas frases soam descuidadas, trata-se de efeito proposital, analisa Costa e Silva: "Ele era cônscio de suas responsabilidades artísticas e escrevia querendo escrever de determinada maneira. O estudo do Jorge criador de linguagem e artista poderá abrir novos caminhos para o entendimento de sua obra. Ficou uma ideia de que ele era um improvisador, mas não há nada de frouxo nele". Seus personagens tampouco seriam rasos: "Não vejo nenhum deles que não seja repleto de contradições e de mudanças no desenrolar da história".

No entanto, quem defende o autor de "Mar Morto" sabe que a controvérsia pode não tardar. "Jorge Amado sempre foi polêmico", assinala Myriam. A crítica costuma se dividir entre os que o consideram um mestre do romance e os que o veem como um trivial contador de histórias, e ainda sobre outras questões, como o elogio que faz da mestiçagem.

"Sua obra encerra uma utopia. E ele sentia muito orgulho em ser reconhecido como contador de histórias. Jorge queria fazer uma obra acessível, acreditava que a literatura poderia ser um meio de libertação", diz Myriam.

Costa e Silva destaca outro aspecto positivo: "É algo curioso, uma de suas grandes qualidades, apreciada pelo leitor. Todo livro de Jorge Amado que se leia, seja 'Capitães da "Areia' [1937] ou 'Tocaia Grande' [1984], apesar da violência e das indignidades que apresentam, sempre nos deixa de cabeça alta. Ninguém sai acabrunhado de um livro de Jorge. É um autor que destila esperança".

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

Exemplos da educação chinesa

Luciano Rezende *


A revista Veja faz jus a oposição que recebe dos democratas brasileiros que a acusam de golpista, pois do ponto de vista político o semanário é abertamente pró-imperialista e não se acanha em lançar mão dos métodos mais abjetos para desestabilizar governos progressistas como o da presidente Dilma. Mas não se pode negar a qualidade de várias de suas matérias, em diversos temas.


Feita esta ressalva, é digna de citação a excelente reportagem sobre o sistema educacional chinês, na edição do dia 21 de dezembro, que numa destas contradições existentes no seio da burguesia coloca o país socialista como um exemplo a ser seguido. Com algumas ressalvas pontuais, assino embaixo.

A campanha dos movimentos sociais, especialmente o estudantil, que reivindica do governo brasileiro a destinação de 10% do Produto Interno Bruto para a Educação é bandeira justa. Porém, apenas ampliar investimentos e não se patrocinar uma profunda reforma educacional, capaz de otimizar a aplicação destes recursos, não nos fará avançar no ritmo que exige o nosso crescimento econômico. A sexta economia do mundo não pode aceitar a 54ª posição entre 65 países avaliados pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), que mede a qualidade do ensino. A China (Xangai) aparece em primeiro lugar geral mesmo investindo apenas 3,6% do seu PIB em educação!

A reportagem é relativamente densa e aborda temas que em nosso país ainda são vistos como tabus. Enquanto no Brasil uma corrente pedagógica insiste em tratar alunos carentes simplesmente como ‘oprimidos’ - sem ao menos lutar por uma política permanente de assistência estudantil capaz de nivelar minimamente as condições de estudos para todos -, o sistema educacional chinês é baseado no mérito e há cobranças por resultados. No final do ano o aluno chinês, pobre ou rico, sabe que não poderá contar com a benevolência de um Conselho de Classe que o aprovará automaticamente, a fim de se evitar que sua escola receba menos recursos dos governos, como ocorre sistematicamente no Brasil.

Outro aspecto que merece menção é o binômio eficiência/simplicidade das escolas chinesas. Uma sala-de-aula limpa e silenciosa, uma bandeira nacional acima da lousa, um projetor de multimídia, professores qualificados ministrando aulas e cumprindo todo o conteúdo programático do ano são os “segredos” do sucesso chinês. Nenhuma pirotecnia.

Diferentemente do Brasil em que mestrado e doutorado são concebidos como a forma exclusiva de qualificação docente e a única opção de ascensão salarial para os professores (mesmo para os que não têm nenhuma afinidade com a pesquisa ou aqueles em final de carreira que são forçados a fazerem doutorado para tão-somente se aposentarem com um salário mais digno), a China investe também na preparação dos professores voltado para a sala-de-aula como formação continuada.

Claro que o aspecto cultural é muito importante. “Se raramente um aluno falta, um professor, nunca”. Até a famosa chamada é evitada de ser feita pelos professores chineses que se preocupam em evitar perder valiosos minutos de aula. Ninguém chega atrasado. Não têm ilusão de que o aprendizado é mais uma questão de “inspiração” do que “transpiração”.

Avançamos muito nos últimos governos em relação ao aumento de vagas e matrículas e o Plano Nacional de Educação 2011-2020 aponta para metas ainda mais audaciosas neste sentido. Mas o grande desafio que se apresenta na atualidade é a qualidade do ensino.

O crime cada vez mais comum de se permitir que jovens brasileiros cheguem até o ensino médio sem saber ler e escrever deve ser combatido tenazmente. Saber assinar o nome não pode ser computado como “aluno alfabetizado” e nem estrar nas estatísticas oficiais como número a ser comemorado. A partir do momento em que o Estado oferece mais condições de estudo, deve-se também cobrar mais resultados (que deve ir além daqueles propostos pelo Índice de Desenvolvimento da Educação Básica) de todos os segmentos.

A China superou muitos tabus. Seremos capazes de superar os nossos também?

Em estreia no Rio, Chico Buarque dedica show a Niemeyer

6 de Janeiro de 2012




Em seu primeiro show do ano e de estreia no Rio, Chico Buarque dedicou a apresentação a Oscar Niemeyer que assistiu ao espetáculo, inteiro, na primeira fila no Vivo Rio, na noite desta quinta-feira (5). A dedicatória do show ocorreu já ao fim da apresentação e arrancou aplausos de pé do público. As luzes chegaram a se acender e um foco de luz foi “disparado” sobre o arquiteto de 104 anos.

O show teve plateia cheia de estrelas como a atriz Fernanda Montenegro e sua filha, Fernanda Torres, além de Renata Sorrah, Andréa Beltrão, Hugo Carvana, Cacá Diegues e também parte do clã dos Buarque de Holanda, como Miúcha e a ministra da Cultura e irmã de Chico, Ana de Holanda.

Mas, o “foco” de Chico estava sentado bem à sua frente. Sua namorada, a cantora Thaís Gulin, dividiu a mesa, na frente do artista, com alguns membros da família.

Quem esperava um raro Chico falante ficou na decepção. As poucas palavras do artista foram logo na primeira música Velho Francisco, quando ele agradeceu com um “obrigado meu grande Rio” e depois somente na homenagem a Niemeyer.

Chico começou o show com 25 minutos de atraso e seguiu a risca o setlist já anunciado pelo próprio site do músico, com canções novas como Querido Diário, aquela que fala da enigmática “mulher sem orifícios”, Essa pequena, Tipo um baião, Se eu soubesse e Sem você 2.

Mas o público começou a cantar junto mesmo foi com Bastidores. Depois do refrão “cantei, cantei” a plateia não parou mesmo de cantar junto com Chico, que ouviu um “lindo!” entre uma música e outra. Sem se deixar levar pelas “cantadas” do público – em sua maioria feminino – Chico sorria e seguia com as canções, sem dar mais conversa à plateia.

Em Sou Eu e Teresa da Praia, Chico faz um dueto com seu baterista, o sambista Wilson das Neves, que estava de terno branco e sapato bicolor. Ao contrário de Chico, todo vestido de preto.

O show traz Geni e o Zepelim acompanhada de iluminação que interage com a música, dando um ritmo mais teatral à apresentação. Aliás, a iluminação, de Maneco Quinderé, e o cenário, com pinturas de Cândido Portinari, de Helio Eichbauer, fazem um espetáculo à parte.

Na penúltima música, Chico traz um Cálice incompreendido pela plateia, com letra do músico paulistano Criolo. Demorou um pouco até o público entender que “Pai, afasta de mim a biqueira, pai” substituiu “Pai, afasta de mim esse cálice, pai”.

O show terminou com Sinhá, mas Chico voltou para o bis com Futuros amantes e O Grande Circo Místico, que levou parte do público para a cabeceira do palco. Quem se aventurou em se debruçar no palco ganhou surpreendentes tapinhas nas mãos do tímido, mas já descontraído, Chico Buarque.

Do Blog Estação BM - Há uma cabeça de burro enterrada em Barra Mansa?







Piscina do Clube Municipal atualmente



Na última semana, um dos assuntos que dominaram as conversas em Barra Mansa foi o abandono da piscina do Clube Municipal, que teria se transformado em um grande viveiro do mosquito da dengue. Não é preciso ir muito longe no tempo para lembrar de boas épocas do referido clube - shows, festas de réveillon, piscina, festas etc. Sabemos que os clubes do país todo tiveram um período de decadência, mas o Clube Municipal de Barra Mansa, simplesmente, não existe mais! Infelizmente, surgem as comparações: vejam o Clube dos Funcionários de Volta Redonda, que representa para a Cidade do Aço o que o Municipal representava para Barra Mansa. O Clube dos Funcionários continua realizando shows e mantém razoável movimentação em seu quadro social.


E aí vem a inevitável pergunta: o que acontece com Barra Mansa? Nossa população cresceu muito do final dos anos 80 (início da decadência do Clube Municipal) para cá, estamos entre Rio e São Paulo, em um grande pólo industrial, vemos pessoas que demonstram prosperidade na vida profissional (será?), mas... e Barra Mansa? A sensação é de estarmos sempre atrás de nossas vizinhas.


Qual seria o motivo do atraso de Barra Mansa? Falta de amor de seus filhos? Muito discurso e pouca ação (falar é sempre fácil)? Falta de capacidade dos barramansenses? E mesmo que haja amor à terra, ação e capacidade, qual seria o caminho, para onde crescer, crescer em quê?


Esperamos que 2012 traga respostas para nossa cidade, porque às vezes parece impossível entender Barra Mansa.