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sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

“Uma das festas populares mais belas de todo o Brasil”

Descrita com arte pelo pernambucano Odorico Tavares, que adotou a Bahia e foi por ela adotado como filho, mostra neste texto do início dos anos 1960 que a Festa do Bonfim, realizada nesta semana em Salvador, é herança dos colonialistas e clericais portugueses. Com o tempo, a fé católica se misturou ao profano e a homenagem ao Senhor do Bonfim se converteu em uma das festas populares mais belas de todo o Brasil.


Carybé
Ilustração de Carybé para o livro de Odorico Tavares Ilustração de Carybé para o livro de Odorico Tavares
Leia um capítulo do livro Bahia – imagens da terra e do povo, de Odorico Tavares:

O Ciclo do Bonfim

Do Elevador Lacerda, avista-se, lá longe, sobre a Colina Sagrada, a Basílica do Senhor do Bonfim, toda iluminada. Durante sua festa, a Bahia inteira se locomove para render graças ao Grande Líder. E nos vem à lembrança o nome do capitão-de-mar-e-guerra da marinha lusitana, Teodósio Rodrigues de Faria, que, em 1754, instituiu, nesta cidade, a devoção do Senhor Born Jesus do Bonfim, venerado em Setúbal. O capitão português fez mais: ao lado de suas atividades de classificador de fumo exportado para a metrópole ou para a África, cuidou com um carinho extremado da devoção do seu Santo; trouxe a imagem de Setúbal, instituiu a Irmandade e, nove anos depois, inaugurava, com festas, a capela, erigida no alto da colina, que outrora se chamava do Montesserrate. Desde então as graças alcançadas pelos devotos, os milagres realizados pelo Senhor Crucificado, foram carreando legiões que se vinham prostrar a seus pés. Teodósio Rodrigues tinha trazido uma força insuspeitada: a fé encontraria no alto da colina um reduto que todo o país receberia como expressão major de religiosidade de seu povo.

A estas horas, muitos estarão pisando a lousa mortuária do capito-de-mar-e-guerra Teodósio Rodrigues de Faria, no interior da igreja, sem saber que ele foi o portador da imagem divina, instituidor do seu culto, zelador de sua Glória até que a morte o acolheu. E desde o ato de Pio VII, em 1804, que "por pedido dos diretores da Irmandade e Igreja do Senhor Jesus do Bonfim concedeu Breve Apostólico para que a festa do mesmo Senhor fosse celebrada na segunda dominga depois da Epifania, dia em que se festeja o SS. Nome de Jesus", que as multidões, nesta data, acorrem de todas as partes para festejar o santo amado do povo baiano e de todo o povo brasileiro.

Quem tiver a felicidade de chegar à Bahia no mês de janeiro tome nota de todas as particularidades relativas à festa do Bonfim: há como que um programa traçado pelas autoridades eclesiásticas e programa traçado pelo povo. Se nem sempre se conciliam, em última análise, se confundem, no mesmo carinho com que ambos traduzem a força da fé, o amor pelo santo. O povo, além da liturgia, do esplendor da Igreja, dos atos religiosos, traz a espontaneidade de sua fé primitiva, o Ímpeto avassalante de todas as maneiras de expressar sua alegria de viver: sua maneira de render graças ao Senhor, tão solicitado nas horas da desgraça. Portanto, conheçam-se as solenidades religiosas, a novena, as missas de uma grande pompa, sobretudo a do último domingo, mas fique-se a par também, dos festejos profanos. Todo o colorido da imaginação, do espirito criador popular, está na colina do Bonfim para mostrar que séculos não fizeram diminuir o entusiasmo do povo.

Este esplendor de luz, que divisamos tão longe, lá no alto da Colina, é o sinal de que se iniciou a reza e nove dias de festas serão decorridos para que tudo se acabe no carnaval da Ribeira.
Da sexta-feira inicial ate a próxima quinta-feira, tudo terá o caráter comum das chamadas festas de igreja do Norte. A novena, o movimento noturno das barracas de prendas, dos restaurantes improvisados, dos sambas pela noite adentro, aqui e ali rodas de capoeira, até que chega a quinta-feira da Lavagem. Então, o visitante terá de assistir a uma das festas populares mais belas de todo o Brasil.

Logo cedo, em frente à igreja da Conceição da Praia, no bairro comercial, a uns seis quilômetros do Bonfim, inicia-se a concentração dos que vão integrar o cortejo dos lavadores da igreja. E quando começa a se movimentar, ruas a fora, indiferente ao calor, ao sol, à luz forte da manhã, como que as ruas se orgulham do seu préstito tão cheio de colorido, de graça, força poética que emana do povo.
Abrindo o cortejo vão as baianas, solenes, graves, nos seus vestidos ricos, vestidos que são a inveja de outras mulheres, encantadas com seus bordados e suas rendas, bordados os mais caprichosos, rendas as mais delicadas. Que riqueza nos seus barangandãs, antigos de muitos anos, saídos das mãos de artífices, feitos para salientar a beleza das mães-de-santo, das negras baianas, mulheres mais elegantes do mundo, das quais se disse uma vez que as rainhas europeias desmaiariam de inveja ante a dignidade de seu porte. E que gravidade nas suas expressões, não gravidade de tristeza, mas de satisfação sentida em ir reverenciar o Senhor do Bonfim! As bilhas e as jarras se equilibram milagrosamente nas suas cabeças, fartas de flores, da riqueza de um colorido, de uns excelentes desenhos que fazem gosto à vista. Lá vão elas - abrindo o cortejo, recebendo as palmas do povo.

Vêm os carrinhos enfeitados de papel de seda recortado pela tesoura que mãos hábeis sabem lidar para adornar, com tanta graça, com as cores populares, o azul, o vermelho, o verde, o amarelo. Os burrinhos seguem sonolentos, puxando os carros, conduzindo os meninos. E nestas carroças, o préstito atinge uma graça surpreendente. Vemos até um menino, dentro de uma vasta gaiola, belo pássaro branco que será libertado à porta da igreja. E os baleiros que não foram vender os seus "queimados", porque era o dia de festejar o seu santo. Vão os baleiros, com seus ramos de pitangueiras, alegres, cantando suas canções, as canções que aprendem com seus pais, as canções da Bahia, o samba e as tristes canções dos terreiros. Nunca os baleiros foram mais alegres. O seu grito característico não chamará os outros meninos no dia da lavagem do Bonfim porque hoje, eles estão muito mais satisfeitos do que as outras crianças que compram suas "balas". Gloria, pois, aos baleiros.

E passam os caminhões, todos enfeitados de branco, com as afilhadas do Bonfim, adolescentes também de branco, que é a cor do Santo. As suas bilhas tem os enfeites os mais caprichosos e carregam nas cores dos seus jarros, já que os vestidos das afilhadas do Bonfim só de branco poderão ser. E atrás vêm os vassoureiros, caminhões carregando a água que lavará o templo do Deus dos pobres e dos ricos. Ate as filarmônicas dão mais alegria ao cortejo, sabem que tocarão durante todo o dia e ninguém se cansará, porque ninguém se cansa quando vai glorificar o Senhor do Bonfim. O chefe da banda sereno e satisfeito, certo de que não haverá arruaças, porque o povo não furará o bombo da banda, como nos tempos do Coronel Gonçalo que ia beber vinho e cantar seus sambas no Bonfim, ao lado de Manuel Querino. Vejam como é lindo o cortejo pelas ruas da cidade baixa! Vejam que entusiasmo, que canções, que vivas ao Deus de todos, que cores, que harmonia, que fusão humana! E lindo o cortejo através das ruas desta Bahia generosa, mostrando ao Brasil inteiro a beleza do seu povo, a alma do seu povo, cioso dos seus encantos e dos seus costumes.

E os que não seguem o cortejo vão de ônibus, de automóvel, de caminhão, de camioneta, de carroça. Chegarão mais cedo, aguardarão o préstito à porta da igreja, admirarão o espetáculo da subida pela colina. E enquanto não chegam os aguadeiros, o pátio já transborda da mais pura alegria que se manifesta nas aclarações ao Grande Senhor, manifesta-se nas violas e nos violões que estão hoje nos seus grandes dias, como seus outros companheiros mais humildes, que são o pandeiro, o tamborim, o reco-reco e a grave cuíca, como sempre falando grosso. Todos esperam o cortejo e enquanto não vem, que se cante e os mais impacientes que caiam nas boas comidas e nas repousantes bebidas.

Lá para as 11 horas, o visitante verá surgir ao pé da ladeira, os lavadores. Que entusiasmo em aplaudir aos que vão prosseguir numa das mais admiráveis festas populares. E ao delírio da chegada, tanto quanto possível a palavra ordem possa ter sentido, começa a chegada à frente da igreja: primeiro as autoridades, depois as solenes "baianas", com seus belos potes enfeitados das mais ricas flores e com água perfumada dos mais suaves perfumes; logo, em seguida, as afilhadas do Bonfim entram com suas moringas e seus vestidos brancos e os baleiros com suas vassourinhas, os aguadeiros, com as grandes jarras, o povo todo chega à Casa do Senhor porque sabe que ali é como se fosse a sua própria casa boa e fraterna. E as vozes ressoam fortes e entusiásticos dando vivas entusiásticos ao Senhor do Bonfim.

Que calor na cerimônia! Joga-se o primeiro jato, o segundo e a água inunda o adro da Igreja; todos fazem questão de passar sua vassoura no chão da Casa de Deus. E enquanto se lava, os hinos religiosos misturam-se com graves canções, onde não raro se ouvem palavras africanas já ouvidas nos candomblés, por exemplo.

José Eduardo Freire de Carvalho Filho a quem devemos excelente monografia sobre a "Devoção do Senhor Born Jesus do Bonfim e sua história", e a quem estamos recorrendo na parte histórica desta crônica, salienta que desde os tempos primitivos se costumava, na quinta-feira anterior ao domingo de sua festa proceder à lavagem da capela, por pessoas que moravam próximas e depois pelos romeiros que afluíam de toda parte e ficavam, em barracas, dias inteiros assistindo à festa, já que as dificuldades de transporte eram imensas. E acrescenta Freire de Carvalho que "até certo tempo, não obstante a concorrência, esta prática conservou-se numa espécie de devoção e conveniente decência, mas depois foi se transformando numa verdadeira bacanal, sendo mister acabar-se com essa solenidade, a bem da religião e da moral". E acrescenta que, em 1890, acabou-se com a lavagem "onde não raro viam-se no interior da Capela mulheres lamentavelmente descompostas pelo arregaçado das saias e decote das camisas. Homens e mulheres derramavam água e, com as vassouras esfregavam o lajedo, em uma vozeria pelos cânticos de benditos e outras rezas desencontradas e diversas, ao mesmo tempo que eram erguidos estrepitosos vivas ao Senhor do Bonfim e a Nossa Senhora da Guia. Difícil era conter essa gente que assim o fazia, por entender creio eu que desse modo não desrespeitava a Deus e bem servia ao Senhor" (*).

Depois da quinta-feira da lavagem, a festa do Bonfim ganha afluência excepcional. À colina, acorrem multidões. E o movimento das barracas de prendas, jogos dos mais sutis e dos mais camuflados, rodas de sambas e os capoeiristas mostrando que não morreu a arte de Samuel de Deus. As residências das redondezas estão abertas para conhecidos e desconhecidos e já assistimos, há anos, em casa do saudoso medico Deraldo Miranda, almoçarem mais de cem pessoas na quinta-feira da lavagem e, no sábado, o jantar teve o mesmo comparecimento, sem que se perguntasse o nome do conviva ou quem o havia convidado. A hospitalidade baiana assumindo seu velho e antigo esplendor.

No pátio, muitos compram as medidas, os registros, as imagens, "cujo uso foi introduzidopelo Tesoureiro Manuel Antônio da Silva Serva e assim tem continuado há mais de cem anos ininterruptos". São pequenas imagens, são estampas do Senhor do Bonfim, que romeiros e viajantes levam como lembranças, são as medidas, pedaços de fitas de todas as cores, com o tamanho exato do braço da imagem sagrada. Estas medidas todo mundo usa na Bahia: qualquer viajante as encontrará dependuradas nos automóveis ao lado do chofer, no escritório comercial, na residência do pobre e do rico. São adquiridas não somente aos vendedores que ficam à porta da Igreja, como também no interior, para a caixa da Devoção.

E vão, os romeiros à sala dos milagres, onde a força da fé ali se manifesta pela gratidão dos curados ao Senhor. Moldagens de cera, representando cabeças, pernas, braços, tórax, com as mais complicadas formas, com as mais estranhas marcas, em que se identifica a doença que o Senhor do Bonfim curou. São pinturas populares de uma riqueza, de um poder pictórico admirável, onde há o afogado salvo na hora extrema; ou o barco que chega ao seu porto na hora da tempestade; a criança que caiu do segundo andar e não se molestou; a família que através da floresta é surpreendida pela onça feroz que se curvou humilhada à primeira invocação do Senhor do Bonfim. São radiografias onde se patenteia a cura da tuberculose, quadros de formatura de estudantes gratos pela conclusão dos seus cursos. Políticos que se elegeram. Soldados da FEB que regressaram; marinheiros que se salvaram, outros que deixam o seu retrato, como preito de gratidão. Milhares e milhares ali afluem. E, na sacristia, podem-se ver estranhos balangandãs: ex-votos dos ricos que oferecem, pernas, braços, tórax, em ouro e prata.

No sábado, à noite, a festa atinge o auge e já de madrugada, todos estão esperando a chegada dos ternos, que se vêm exibir ante a majestade do Senhor do Bonfim. Ali entoam suas canções, ante as aclamações populares, porque todos têm suas preferências e com a gravidade com que chegaram, vão saindo. É a visita solene, a visita de todos os anos, dos ternos, que no dia de Reis, se exibem na Lapinha, relembrando o nascimento do Senhor, numa revivescência dos autos de Natal. Se o leitor vai assistir à festa do Bonfim não se esqueça de ficar no sábado, à noite, à espera dos ternos. É um espetáculo o seu desfile, rendendo graças ao Senhor. Ostentando seus estandartes, suas baianas de encantadoras vestes, suas orquestras, seus cânticos. É a nota do sábado do Bonfim o desfile dos ternos.

No domingo - "a segunda dominga depois da Epifania" - dia da festa de Devoção do Bom Jesus do Bonfim, portanto, oficialmente a data final da novena, terá lugar, com o esplendor da liturgia católica, a missa solene, às 9 horas da manhã. Comparecem o governador, secretários, prefeito, todo o mundo oficial, enquanto católicos de todas as classes enchem as dependências da Igreja, acomodam-se pelo adro, ficam pelo pátio a fora. A pompa é dada pelas autoridades eclesiásticas que contam com o apoio das autoridades civis e militares. "Glória ao Senhor do Bonfim" e os coros ressoam pela basílica, entoando os hinos de louvores. Quase ao meio-dia termina a missa solene. E lá fora, prosseguem os festejos populares, até a madrugada do dia seguinte.

Mas ninguém se iluda. Se o calendário religioso marca o fim dos festejos do Bonfim no domingo de sua festa, há o grande remate na segunda-feira. É a festa da Ribeira, o carnaval da Ribeira, arrabalde próximo ao Bonfim, na ponta final da península de Itapagipe. Neste dia, sim, que se encerra verdadeiramente o ciclo do Bonfim, neste dia é que o povo gasta as suas ultimas reservas, para que as festas do Santo acabem debaixo do maior entusiasmo. As autoridades eclesiásticas nada têm com a festa da Ribeira, pois de fato são de caráter inteiramente pagão, é carnaval na sua legitima expressão. E adverte Freire de Carvalho: "É uma festa, se como tal pode-se chamar, toda de rua, nada religiosa, nem promovida pela mesa Administrativa da Devoção do Senhor do Bonfim". É um apêndice e, segundo o cronista da Devoção, surgiu do movimento das pessoas que deixavam a festa na madrugada do domingo para a segunda-feira e se dirigiam às suas casas pelas ruas de Itapagipe, "eram famílias que saiam de dia a passeio do Bonfim à Penha ou vice-versa; eram ranchos de romeiros ou festeiros, que se retiravam a pé, cantando e tocando violões, flautas, castanholas, etc."

O certo porém é que poucas festas, hoje, na Bahia, arrastam tamanha multidão como a da Ribeira. Todos os meios possíveis são empregados para o transporte da população que para ali se abala: saveiros, lanchas, automóveis, ônibus, caminhões, bondes, tudo se emprega para ali chegar. Desde cedo que a Cidade Baixa mostra um movimento desusado. Os elevadores públicos estão congestionados, os coletivos superlotados. Basta dizer que o comércio na sua totalidade não abre; os gazeteiros não procuram os jornais, ninguém vai trabalhar. Todos à festa da Ribeira.

Em que consiste a festa? Podemos dizer: que praticamente em nada ou melhor consiste na multidão se expandindo na sua alegria. No largo da Ribeira, a brisa do mar refrescando o calor de Janeiro, o povo em blocos, em grupos, em rodas de samba. Música e danças dominam todos. As residências de Itapagipe são, em grande número nesta manhã, nesta tarde, nesta noite, salas de baile, onde se dança, come e bebe, sem ter necessidade de se perguntar o nome do dono da casa. Estão todas abertas. E grupos passam carregando seus tamborins, suas cuícas, seus violões, outros carregam os pendões de cana, que dominam o ambiente. É um verdadeiro prelúdio ao carnaval que se aproxima: ali aparecem os primeiros sambas, as primeiras marchas dos folguedos carnavalescos. Ali como que se esgotam todas as reservas que o povo trouxe de energias para as festas do Bonfim. Como que se despede de sua festa máxima.

Através dos anos, algo pode ter mudado nos festejos do Senhor do Bonfim. Já hoje os grandes archotes ou as estopas embebidas em azeite de peixe não iluminam a fachada da igreja nos dias de festas e sim os mais belos arranjos em lâmpadas elétricas; já hoje a população não chega a cavalo, a pé ou nas "gondolas" da segunda metade do século passado: vai em ônibus, lotações, automóveis. Já hoje não aparecem à porta da igreja os "cucumbis" grupos de pretos africanos, vestidos com saiotes, coletes e calças curtas, tudo de cores vivas e variadas; capacete ou gorro encarnado, braços enfeitados de penas ou miçangas multicores; pescoço adornado com colares de búzios pequenos e miçangas; cintura e tornozelos enfeitados com penas e o rosto sarapintado com traços de várias cores" e que "marchavam dançando e cantando na sua língua ao som de um instrumento africano, canazás e berimbaus de arco, corda e cabaça, contendo pequenos seixos, chererés ou chocalhos, tabaques, etc.". Nem mais as cheganças "grupos de crioulos, negros nacionais, vestidos a maruja, compostos de um almirante, um piloto, um padre e crescido numero de marinheiros que simulavam a tripulação de urna pequena nau de guerra". De outras maneiras mostra o povo sua fé, sua força criadora. Mas hoje, como em todas as épocas, a começar do ano em que Teodósio Rodrigues de Faria, capitão-de-mar-e-guerra da marinha lusitana, instituiu no Brasil a devoção do Senhor do Bonfim, o povo vem à colina sagrada expressar, por todas as formas, seu reconhecimento, dando assim oportunidade em ser conhecido no esplendor de sua poesia, de sua beleza, do seu colorido. O Senhor do Bonfim tem aos seus pés um grande povo.

- "Gloria, pois, ao Senhor do Bonfim", repetimos nós, olhando o letreiro luminoso no alto de sua Igreja.

(*) A lavagem, hoje, por determinação eclesiástica, processa-se no adro e não no interior da igreja.

A obra foi extraída do livro de Odorico Tavares Bahia – imagens da terra e do povo, da editora Civilização Brasileira S.A, publicado em 1961. As ilustrações são Carybé.

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