Assis Ângelo *
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Nos seus inspirados improvisos, Patativa cantou as mazelas, as tristezas, os anseios, a esperança impalpável, mas real e eterna do povo; do povo nordestino. Tanto que não foi à toa que pelo menos 20 mil pessoas acompanharam o seu féretro, ora em silêncio, ora chorando; ora cantando e aplaudindo pelas ruas da pequena cidade que o viu nascer — Assaré — , há 93 anos. Além do povo, jornalistas, escritores, cantores, como Fagner; e políticos de todos os naipes e colorações, incluindo o governador do Estado — que decretou um feriado e luto por três dias —, deram adeus ao vate nonagenário, que por mais de meio século fez-se identificar Brasil e mundo afora pelo pássaro miudinho e de cantar singelo que habita as matas nem sempre verdes do Nordeste brasileiro. O poeta de Assaré foi o primeiro, em toda a América Latina, a falar em versos da importância e necessidade de se fazer fixar o homem do campo no seu próprio habitat; foi também o primeiro poeta a falar claramente, de forma lógica e prática sobre reforma agrária. Ele disse:
De compleição física franzina; pequeno, desgarrado, carente, frágil, abandonado; a-pa-ren-te-men-te frágil e abandonado, entenda-se, Patativa era dono de uma personalidade ímpar, fortíssima, inabalável. Era como o quê uma rocha, uma montanha irremovível, um gigante na postura e no falar sem precedentes; imperativo, quase ditador na sua individualidade sertaneja.
O seu grito era de paz
Patativa não perdoava erros, tampouco mentiras. De forma geral, tinha ojeriza a políticos; e ai do filho que não lhe estendesse a mão quando o visse, para lhe pedir a bênção... Era católico apostólico romano, praticante -morava ao lado da igreja matriz de Assaré, que freqüentou por muitos anos. O poeta compunha com a mesma rapidez e facilidade de quem bebe água ou respira, e guardava na memória centenas de versos; poemas inteiros, enormes, seus e de Castro Alves, por quem nutria grande admiração; e de Camões, seu colega cego de um olho... Era capaz de passar horas a fio falando de forma versejada, para tanto bastava gostar do interlocutor. Eu, que o conheci bem, posso dizer isto. Com sua permissão, gravei o seu falar muitas vezes, os seus poemas, as suas risadas e alguns dos seus desabafos: "Não faço da minha lira profissão, se fizesse estaria rico", dizia, emendando: "Mas tem muita gente que se aproveita disso". Como repentista que outrora foi, e dos bons, Patativa via em Oliveira de Panelas, Geraldo Amâncio e Lorinaldo Vitorino um pouco de si; e também um pouco de si ele via Ao conhecer Patativa, no começo dos anos 60, Gonzaga tentou, em vão, convencê-lo a vender-lhe a toada A Triste Partida, composta anos antes, e que raro era o cantador que já não a cantava de trás pra frente e de frente pra trás... O rei do baião uma vez me disse que a música que considerava mais importante de todo o seu repertório era, ao lado de Asa Branca, A Triste Partida, que gravara em 1964. Patativa gostava de Gonzaga, mas gostava também de Jackson do Pandeiro, sem conhecê-lo pessoalmente; e gostava de Geraldo Vandré, a quem passou a desgostar depois de conhecê-lo pessoalmente...
Patativa era sistemático; era um ser incrível
Outro dia o poeta Peter Alouche, mais conhecido por Pedro Nordestino, um dos prefaciadores do livro O Poeta do Povo, Vida e Obra de Patativa do Assaré, junto com Mário Chamie e Raimundo Fagner, escreveu-me resumidamente um e-mail em que dizia: "Patativa cantou com a voz cristalina de um pássaro e com a visão messiânica de um profeta as dores e alegrias de um povo simples e sofrido. Clamou no sertão como João Batista no deserto, contra a injustiça e as desigualdades sociais. Sua literatura simples e pura conseguiu chegar aos ouvidos dos poderosos. Os temas de sua arte poética não se limitaram às coisas do Nordeste brasileiro. Falou um pouco de tudo, sempre com a lucidez dos profetas e com a ousadia e a coragem dos que não temem dizer a verdade. Por isso talvez não seja exagero afirmar que ele foi o Victor Hugo do Nordeste popular". Zé Ramalho, também seguindo esse raciocínio, disse:"Patativa do Assaré foi um diamante belo e bruto da poesia nordestina. Simples e profundo, carregado de natureza e atitudes humanas que expressou sua força em versos que, como um turbilhão, derrama-se em palavras que se assentam na alma do povo do sertão e do solo nordestino". O poeta da pequena Assaré não mudou o mundo; sequer mudou as condições de vida do seu irmão nordestino, mas mostrou que é possível viver a vida com alegria e dignidade, mesmo diante da dureza do solo e da insensibilidade dos políticos e dos manda-chuvas em geral... Viva Patativa! |
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quarta-feira, 20 de março de 2013
Patativa bateu asas e voou
Dupla Amorim e Elias Viola conta a história de dois anos de carreira
Cristiane Mendes cristiane.mendes@diariodovale.com.br A moda sertaneja ou moda de viola não é tão comum aqui na região. Mas, em Barra Mansa há quem divulga o trabalho e vive do sertanejo de raiz. A dupla Amorim e Elias Viola é um exemplo. Eles contam com exclusividade ao DIÁRIO DO VALE a satisfação de viver da música, os desafios e os planos para a carreira. Segundo Amorim, a história da dupla começou há exatos dois anos. - Antes de começar a cantar com o Elias Viola, eu fazia dupla com outro músico. Há exatos dois anos nós nos unimos e começamos a divulgar o nosso trabalho pela região - conta, acrescentando que não é difícil viver da moda de viola. - Apesar da invasão do sertanejo universitário, temos um público muito cativo e fiel à moda de viola. Os jovens de hoje também têm o interesse pelo ritmo e nós sentimos que o sertanejo de raiz é algo que nunca vai perder a tradição - fala. Com média de cinco a dez shows no mês na região, Amorim comenta que a dupla está divulgando em todo país o primeiro CD da carreira dos músicos. O álbum "Só Modão Raiz" tem canções tocadas em várias rádios do Brasil. - Nosso primeiro trabalho conta com 18 faixas, sendo que quatro são composições nossa. É um CD que está sendo muito bem divulgado e aceito pelo público. Nós não esperávamos esse reconhecimento - comenta, dizendo que entre as canções uma chama mais atenção. - Eu escrevi uma música que está no álbum e ela tem ganhado muito destaque pelas rádios do Brasil. A canção "Mestre Jesus" é uma música de reflexão e está sendo muito bem divulgada - salienta. O músico também fala que o sertanejo de raiz tem um papel muito importante na música, tanto é que eles participam de diversos programas de TV pelo país. - Nós sentimos que o sertanejo de raiz é algo que nunca vai perder sua característica. Hoje levamos o nosso som para diversos estados do país, participamos de muitos programas de TV que tratam diretamente do tema e o público é sempre grande - comenta. A dupla já está em fase de produção do próximo álbum que deve ser lançado no primeiro semestre de 2014. - Já estamos pensando no segundo CD, podemos dizer que ele já está em fase de produção. A nossa intenção é fazer o lançamento no ano que vem - adianta, acrescentando que algumas músicas são tradição em todos os shows. - O sertanejo de raiz, assim como outros ritmos, tem clássicos que nós não podemos deixar de cantar. O público pede "Menino da Viola", "Saudades da Minha Terra" entre outras músicas que estão sempre no nosso repertório - fala. A conquista de um sonho Com pouco tempo de carreia a dupla já vem conseguindo um reconhecimento por onde passa, prova disso é a homenagem que eles receberam da Câmara Municipal de São Paulo este ano. - Fomos homenageados com o prêmio Dia da Música de Raiz. A gente sempre tocou nesse prêmio, mas receber esta homenagem foi uma grande satisfação, já que nós não esperávamos esse reconhecimento. Ficamos surpresos e com mais vontade de continuar a divulgar o nosso trabalho - comenta Amorim, acrescentando que a internet e a rádio são dois veículos de grande divulgação da dupla. - Hoje com a internet podemos divulgar nossa música para todo mundo através da rede social Facebook. Eu também participo do programa Arena da Viola pela rádio Mix, de Volta Redonda, e nele conseguimos mostrar nossa música para toda região, inclusive para pessoas de fora do país como Portugal e até mesmo do Japão - finaliza, agradecendo o apoio do público. - Em nome da dupla quero agradecer nosso público que é sempre fiel aos nossos shows e a nossa música. Nosso trabalho só está tendo essa dimensão graças a eles, então, nosso sentimento é sempre de gratidão - fala. Serviço Informações sobre shows e contratações pelo telefone (24) 3324- 3910 ou pelo Facebook da dupla [www.facebook.com/amorimeeliasviola]. | |||||
Leia mais: http://diariodovale.uol.com.br/noticias/3,70881,Dupla-Amorim-e-Elias-Viola-conta-a-historia-de-dois-anos-de-carreira.html#ixzz2O5VKDX00
terça-feira, 19 de março de 2013
Documentário confirma ajuda dos EUA no golpe de 64, diz diretor
O documentário "O Dia que durou 21 Anos" , que trata da participação do governo dos Estados Unidos no golpe militar de 1964, levou quase cinco anos para ser feito, da ideia inicial até a finalização. O filme estreia no Brasil dia 29 de março, após participar de festivais de cinema no país e no mundo.
Divulgação

Em maio, disputa os prêmios de melhor direção e melhor documentário estrangeiro no Festival de Cinema de Saint-Tropez, na França. 
O presidente Lyndon Johnson (D) deu aval para o embaixador Gordon (E) desestabilizar Goulart e autorizou envio de navios ao Brasil.
Em entrevista à imprensa, o diretor Camilo Tavares conta como sua equipe pesquisou e descobriu arquivos e áudios que mostram como os EUA atuaram em ações de desestabilização do governo João Goulart e apoiaram os militares, inclusive com a autorização de envio de uma força-tarefa naval ao Brasil. Além da criminalização do comunismo no Brasil e em outras regiões do globo..
O filme consumiu cerca de R$ 1,8 milhão, dos quais só um terço teve patrocínio. "Tivemos de investir do próprio bolso e pegar empréstimos", disse Karla Ladeia, produtora-executiva do filme e mulher de Camilo Tavares.
Camilo Tavares destacou que, inicialmente, a ideia era totalmente diferente do filme final. "Queríamos compilar as crônicas da vida de meu pai (o jornalista Flávio Tavares), seguindo sua carreira estudantil e como jornalista, com foco em fatos que marcaram a política do Brasil. Mas em uma reunião de roteiro, quando meu pai levou uma antiga pasta com fac-símiles de telegramas do embaixador Gordon, datados de 1961, percebi que tínhamos nas mãos algo inédito e confidencial. Demos então um novo enfoque ao filme: a câmera estaria na Casa Branca, e os documentos originais top secret, quase todos desconhecidos do grande público, seriam o roteiro do filme: tudo que está ali é verdade, texto original e foi garimpado nos arquivos de Washington com uma equipe incansável!"
Tavares informou que, para a produção do filme, a equipe teve acesso a áudios de conversas dos presidentes norte-americanos Kennedy e Johnson. "Além dos telegramas entre a CIA, do embaixador, e da Casa Branca, a pesquisa encontrou joias como os áudios originais do Presidente Kennedy e Lyndon Johnson. Parte deste material foi liberado em 2004 e 2005 através da Lei de Acesso à Informação pela qual o NARA, Instituto em Washington, coordenado por Peter Kornbluh (que está no filme) se destaca. Com o apoio de Carlos Fico (professor da UFRJ), garimpamos a mídia dos EUA , buscando programas de 1962 e 1963 na TV americana (rede CBS e NBC), peças-chave na época da Guerra Fria para convencer o público e a mídia interna dos EUA da "ameaça comunista" que o Brasil representava com Jango no poder. Muito parecido com o que vivemos hoje, se pensarmos no poder da mídia".
Com informações do IG
segunda-feira, 18 de março de 2013
Sistemas Estaduais e Municipais de Cultura
Oficinas de implementação serão realizadas pelo MinC em todas as regiões do Brasil
O Ministério da Cultura (MinC) realizará Oficinas de Implementação de Sistemas Estaduais e Municipais de Cultura em
todas as regiões do país. Sob a coordenação da Secretaria de Articulação Institucional (SAI/MinC), os encontros começam nesta quarta-feira, 13 de março, e seguem até o mês de julho, com previsão de capacitação de 569 gestores.
A oficina desta quarta-feira será realizada em Cuiabá, no Mato Grosso, no Deville Cuiabá (Avenida Isaac Póvoas, 1.000), com duração até o dia 15.
Em todo o país serão implementadas 17 oficinas para capacitar os agentes culturais para a implementação de Sistemas de Cultura em estados e municípios.
A partir do Acordo de Cooperação Federativa assinado com o MinC, os entes se comprometem a criar e a estruturar os Sistemas de Cultura e seus componentes (órgão gestor, conselho de política cultural, conferências, comissão intergestores, plano de cultura, sistema de financiamento da cultura, sistema de informações e indicadores culturais, programa de formação na área da cultura e sistemas setoriais).
Confira a programação elaborada para cada região.
Metodologia
Cada oficina apresentará os conceitos, princípios e componentes do Sistema Nacional de Cultura (SNC), por meio de metodologia de palestras e debates com mediação e utilização de exercícios práticos sobre planejamento de atividades para a construção dos sistemas. O material didático referente às oficinas será disponibilizado pelo MinC em apostilas e também em formato digital.
Os encontros terão duração de três dias e as atividades serão ministradas por equipe de servidores da SAI/MinC, em colaboração com as Representações Regionais do Ministério e colaboradores dos governos estaduais e municipais. As oficinas serão analisadas por consultores da Unesco.
Para o diretor de Programas Integrados e Sistema Nacional de Cultura do MinC, Bernardo Novais da Mata Machado, a “inclusão do SNC à Constituição Nacional pede a aceleração da efetiva implementação dos sistemas nacional, estaduais e municipais”. Recentemente, o SNC passou a fazer parte do arcabouço jurídico brasileiro com a promulgação da Emenda Constitucional nº 71/2012.
Até o momento, 23 estados, o Distrito Federal e 1.515 municípios assinaram o Acordo de Cooperação Federativa. Destes, cerca de 800 municípios já cumpriram todas as fases de formalização do acordo iniciando o processo de construção dos seus Sistemas de Cultura.
SNC
O SNC é um modelo de gestão e promoção conjunta de políticas públicas de Cultura, pactuadas entre os entes da Federação e a sociedade civil. Esse novo mecanismo assegura a transparência e o controle social do setor cultural, a partir da implementação de Conselhos de Política Cultural, Conferências de Cultura e outras formas de participação de produtores culturais e da comunidade em geral.
todas as regiões do país. Sob a coordenação da Secretaria de Articulação Institucional (SAI/MinC), os encontros começam nesta quarta-feira, 13 de março, e seguem até o mês de julho, com previsão de capacitação de 569 gestores.A oficina desta quarta-feira será realizada em Cuiabá, no Mato Grosso, no Deville Cuiabá (Avenida Isaac Póvoas, 1.000), com duração até o dia 15.
Em todo o país serão implementadas 17 oficinas para capacitar os agentes culturais para a implementação de Sistemas de Cultura em estados e municípios.
A partir do Acordo de Cooperação Federativa assinado com o MinC, os entes se comprometem a criar e a estruturar os Sistemas de Cultura e seus componentes (órgão gestor, conselho de política cultural, conferências, comissão intergestores, plano de cultura, sistema de financiamento da cultura, sistema de informações e indicadores culturais, programa de formação na área da cultura e sistemas setoriais).
Confira a programação elaborada para cada região.
Metodologia
Cada oficina apresentará os conceitos, princípios e componentes do Sistema Nacional de Cultura (SNC), por meio de metodologia de palestras e debates com mediação e utilização de exercícios práticos sobre planejamento de atividades para a construção dos sistemas. O material didático referente às oficinas será disponibilizado pelo MinC em apostilas e também em formato digital.
Os encontros terão duração de três dias e as atividades serão ministradas por equipe de servidores da SAI/MinC, em colaboração com as Representações Regionais do Ministério e colaboradores dos governos estaduais e municipais. As oficinas serão analisadas por consultores da Unesco.
Para o diretor de Programas Integrados e Sistema Nacional de Cultura do MinC, Bernardo Novais da Mata Machado, a “inclusão do SNC à Constituição Nacional pede a aceleração da efetiva implementação dos sistemas nacional, estaduais e municipais”. Recentemente, o SNC passou a fazer parte do arcabouço jurídico brasileiro com a promulgação da Emenda Constitucional nº 71/2012.
Até o momento, 23 estados, o Distrito Federal e 1.515 municípios assinaram o Acordo de Cooperação Federativa. Destes, cerca de 800 municípios já cumpriram todas as fases de formalização do acordo iniciando o processo de construção dos seus Sistemas de Cultura.
SNC
O SNC é um modelo de gestão e promoção conjunta de políticas públicas de Cultura, pactuadas entre os entes da Federação e a sociedade civil. Esse novo mecanismo assegura a transparência e o controle social do setor cultural, a partir da implementação de Conselhos de Política Cultural, Conferências de Cultura e outras formas de participação de produtores culturais e da comunidade em geral.
Semana Santa tem vasta programação no litoral
FOTO: DIVULGAÇÃO |
| Exposição retrata história da data mais importante do calendário católico |
Dia 22 de março Dia 23 de março Dia 28 de março |
Postado em 18/03/2013 13:15:34
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Natália Forcat: Arte e Resistência
Em meados do século 19, no sul dos Estados Unidos, os escravos que tentavam fugir repetidamente eram considerados portadores de um distúrbio chamado "drapetomania", uma "doença" que, segundo alguns médicos, afetava apenas negros.
Por Natália Forcat*
Charge de Carlos Latuff
Solidariedade ao Povo Palestino.
Um estudo definindo as características do "distúrbio" foi apresentado pelo dr. Samuel Cartwright numa revista médica e muitos colegas de profissão e membros respeitáveis da sociedade daquela época consideraram totalmente razoável que pessoas que apenas queriam ser livres estivessem acometidas de alguma "doença".
Solidariedade ao Povo Palestino.Desta forma, a sociedade, que tinha interesses financeiros em manter aquele grupo humano escravizado criou uma "palavrinha" para catalogar os que não aceitavam ser oprimidos e dessa forma maquiavam a realidade cruel da escravidão. Não é muito diferente a forma como vem se utilizando o termo "antissemitismo" na atualidade.
O sionismo e seus apoiadores se negam a ver que os palestinos não padecem de alguma "doença" como a catalogada pelo dr. Cartwright e que apenas desejam ser livres e poder decidir seu próprio destino. Muitos artistas que se solidarizam com a luta do povo palestino vêm sendo definidos, não como doentes, mas como criminosos, pelos apoiadores do colonialismo israelense, numa tentativa burra de censura institucionalizada ainda mais violenta.
Felizmente, sabemos que o desejo de liberdade é uma chama poderosa que acalenta os corações dos seres humanos desde tempos remotos e assim como hoje nos resulta inadmissível pensar que um dia se catalogou como "doentes" a pessoas que apenas queriam ser livres, sabemos que num futuro próximo os que defendem a liberdade do povo palestino deixarão de ser considerados criminosos.
Em várias épocas, artistas tem se engajado na luta pela emancipação dos povos. Poetas criaram cânticos e trovas, escritores, fábulas e romances. Na recente história do Brasil não faltam exemplos de artistas engajados que expressavam através da arte o desejo acalentado pela maioria do povo brasileiro. Chico Buarque, Henfil e outros deram forma ao desejo coletivo e, obviamente, foram perseguidos e catalogados de "subversivos" pelos que queriam manter o "status quo". Algo parecido aconteceu com o cartunista e ativista Carlos Latuff, que recentemente foi vítima do rótulo de "antissemitismo" por parte de uma instituição que atualmente se dedica a impedir que a verdade sobre o desrespeito dos direitos humanos cometidos pelo estado de Israel venha a tona. O cartunista brasileiro foi considerado o terceiro maior "antissemita" do mundo pelo Centro Simon Wiesenthal, por realizar e veicular um cartum denunciando o uso eleitoral, por parte de Benjamin Netanyahu, da última agressão militar israelense a Gaza.
Carlos Latuff abraçou a causa palestina após uma viagem aos territórios ocupados da Cisjordânia, em 1999, ao ver com seus próprios olhos a situação degradante em que vive esse povo sob a ocupação sionista, e desde então dedica boa parte de seu trabalho a esse tema. Latuff pratica um tipo de ativismo artístico, produzindo desenhos copyleft para servirem de ferramenta aos que lutam contra a opressão e a injustiça. Vários artistas, ativistas e intelectuais do Brasil e do mundo se solidarizaram publicamente com o cartunista brasileiro e manifestaram sua indignação com o uso arbitrário do rótulo de antissemitismo para tentar censurar o artista.
Outras vítimas do rótulo de "antissemitismo"
Em 2012, uma charge publicada pelo jornal português “Diário de Notícias” causou a revolta da comunidade judaica no país e da embaixada de Israel em Lisboa. “É horrível. Penso que todas as pessoas ficaram indignadas, não só os israelenses. Tira sarro das almas e da memória dos seis milhões de judeus executados nos campos de concentração da Alemanha”, criticou o presidente da Comunidade Israelita de Lisboa, José Carp.
O criador do cartum, André Carrilho, negou ser antissemita. “Eu tento me colocar do lado das pessoas que são vítimas. Quis mostrar que uma pessoa que já foi vítima também pode se tornar agressor”. O cartunista português esclareceu que o cartum não retrata o povo judeu, mas o governo de Israel.
Eloar Guazelli, premiado num salão de humor organizado pela Iranian House of Cartoon, também precisou se explicar para tentar se livrar do rótulo de antissemitismo. "Perdi minha fé na raça humana quando vi que o povo que havia sofrido o Holocausto acabou criando uma máquina de matar por razões de Estado. A lógica de usar a força para tratar questões políticas é a mesma lógica militarista do nazismo” afirmou ao Jornal Folha de S. Paulo o cartunista Eloar Guazzelli.
Outros artistas graficos engajados na luta pela emancipacao do povo palestino.
O artista palestino Naji al-Ali foi assassinado em Londres em 1987 aos 50 anos, quando ia em direção aos escritórios do jornal kuwaitiano Al-Qabas. Os criminosos nunca foram identificados. Naji continua sendo um dos cartunistas mais destacados no mundo árabe. Os cartuns de al-Ali retratam sua experiência como refugiado palestino desde a infância e refletem sua posição política, frequentemente crítica aos governos árabes que ele considerava traidores. Handala é o nome do garotinho que está sempre presente nos cartuns e que represem o proprio Naji, criança frente aos horrores provocados pela ocupação sionista.
Banksy é o artista mais destacado do mundo em street art. Ele não faz só grafite, mas também é um ativista político, um "cartunista das ruas". Apesar de sua fama e seu ativismo, a sua identidade é desconhecida.
Em 2005, Banksy viajou para a Palestina. Lá, ele fez diversas obras onde critica o tratamento dado aos palestinos, o racismo e condena o muro do Apartheid. Segundo Banksy, o muro construído por Israel “essencialmente transformou a Palestina na maior prisão aberta do mundo.”
Palestina é resultado de uma viagem que Joe Sacco fez ao Oriente Médio. Durante dois meses, Sacco coletou histórias nas ruas, nos hospitais, nas escolas e nas casas dos refugiados. Presenciou violentos confrontos dos soldados com a população e entrevistou vítimas de tortura. Conversou com militantes, com outros já conformados com a situação, com velhos e com crianças. Tudo isso virou arte, a forma que o artista encontrou de dar voz aos oprimidos.
Assim como o negro que insistia em ser livre e ignorava o diagnóstico medico de "drapetomania", os artistas continuarão a ignorar os eufemismos inventados pelos opressores para silenciar as vozes dos que lutam pela liberdade, e é bom que assim seja!
*Natália Forcat é escritora e artista plástica.
Fonte: Revista ZUNÁI
Domenico Losurdo e o “retorno” da luta de classes
Acaba de ser publicado na Itália, pela Editora Laterza o novo livro do filósofo político marxista Domenico Losurdo: A luta de classes - Uma história política e filosófica. Em mais um trabalho de fôlego, de 388 páginas, o filósofo marxista italiano enfrenta polêmicas sobre temas instigantes contra as correntes oportunistas que negam a luta de classes ou distorcem seu sentido. A entrevista foi realizada por Paolo Ercolari, para a revista italiana Critica Liberale.
Domenico Losurdo é um dos estudiosos italianos de filosofia mais traduzidos no mundo. Todos os seus livros tiveram de fato edições em inglês, britânico e estadunidense, alemão, francês, espanhol e também em português, chinês, japonês e grego. Seguramente, esquecemos de mencionar algum idioma. Os jornais Financial Times e Frankfurter Allgmeine Zeitung, entre outros, lhe dedicaram páginas inteiras. Um tratamento que contrasta com o que lhe é reservado no próprio país, onde frequentemente, de maneira deliberada, os seus trabalhos são objeto de um silêncio bem estudado. O que, entretanto, não incide sobre suas vendas, tendo em conta as reiteradas edições dos seus livros.
Nos últimos dias veio à luz o seu novo trabalho intitulado A luta de classes - Uma história política e filosófica (388 páginas, Ed. Laterza). Por esta razão, Critica Liberale o entrevistou na sua casa/biblioteca, situada numa colina no entorno da cidade italiana de Urbino. (Paolo Ercolari)
Nos últimos dias veio à luz o seu novo trabalho intitulado A luta de classes - Uma história política e filosófica (388 páginas, Ed. Laterza). Por esta razão, Critica Liberale o entrevistou na sua casa/biblioteca, situada numa colina no entorno da cidade italiana de Urbino. (Paolo Ercolari)
Critica Liberale: Professor Losurdo, como explica esta ideia de escrever um livro sobre a luta de classes, conceito tido por muitos como morto?Domenico Losurdo: Enquanto grassa a crise econômica, engrossam os ensaios que evocam o “retorno da luta de classe”. Tinha desaparecido? Na realidade, os intelectuais e os políticos que proclamavam o crepúsculo da teoria marxista da luta de classe cometiam um duplo erro. Por um lado, embelezavam a realidade do capitalismo. Nos anos 1950, Ralf Dahrendorf afirmava que se estava verificando um “nivelamento das diferenças sociais” e que aquelas mesmas modestas “diferenças” eram somente o resultado do mérito escolástico; contudo, bastava ler a imprensa estadunidense, até a mais alinhada, para dar-se conta de que mesmo nos países-guia do Ocidente subsistiam pavorosos bolsões de uma miséria que se transmitia hereditariamente de uma geração a outra. Ainda mais grave era o segundo erro, de caráter mais propriamente teórico. Eram os anos em que se desenvolvia a revolução anticolonial no Vietnã, em Cuba, no Terceiro Mundo; nos Estados Unidos os negros lutavam para pôr fim à supremacia branca, ao sistema de segregação, discriminação e opressão racial que ainda pesava sobre eles. Os teóricos da superação da luta de classes estavam cegos ante as ásperas lutas de classes que se desenvolviam sob seus olhos.
Critica Liberale: Se não entendemos mal, você amplia bastante o campo semântico da expressão “luta de classes”, compreendendo em seu interior uma gama de problemas e questões muito mais amplas?
DL: Sim, Marx e Engels chamavam a atenção não somente para a exploração que tem lugar no âmbito de um país singular, mas também para a “exploração de uma nação por parte de outra”. Outrossim, nesse segundo caso temos a ver com uma luta de classe. Na Irlanda, onde os camponeses eram sistematicamente expropriados pelos colonos ingleses, a “questão social” assumia a forma de “questão nacional”, e a luta de libertação nacional do povo irlandês não só era uma luta de classes, mas uma luta de classes de particular relevância: é nas colônias de fato – observa Marx – que “a intrínseca barbárie da civilização burguesa” se revela na sua nudez e em toda a sua repugnância.
Critica Liberale: Pode-se explicar melhor a gênese histórico-filosófica desta sua leitura tão incomum a respeito de categorias tradicionais?DL: A cultura do século 19 era chamada a responder a três desafios teóricos. Em primeiro lugar, de que modo explicar a marcha irresistível do Ocidente, que com o seu expansionismo colonial subordinava todo o planeta, esmagando até mesmo países de antiquíssima civilização como a China? Em segundo lugar, enquanto triunfava no plano internacional, o Ocidente se via ameaçado internamente pela revolta das massas populares que pela primeira vez irrompiam, e de maneira avassaladora, na cena da história. Pois bem, quais eram as causas desse fenômeno inaudito e aflitivo? Em terceiro lugar, o Ocidente apresentava um quadro bastante diferenciado de país a país. Se na Inglaterra e nos Estados Unidos assistia-se a um desenvolvimento gradual e pacífico em nome de uma liberdade bem ordenada, totalmente diferente era o caso da França: aqui à revolução se sucedia a contrarrevolução, por sua vez varrida por uma nova revolução; a partir de 1789, os mais diferentes regimes políticos (monarquia absoluta, monarquia constitucional, terror jacobino, ditadura militar napoleônica, império, república democrática, bonapartismo) se sucederam um ao outro, sem que jamais se realizasse a liberdade com ordem. Bem, qual era a maldição que pesava sobre a França? A todos estes três desafios teóricos a cultura dominante do século 19 respondia remetendo de um ou outro modo à “natureza”. Para dizer com Disraeli, a raça é “a chave da história”, “tudo é raça e não existe outra verdade”, e a definir uma raça “é só uma coisa, o sangue”; esta era também a opinião de Gobineau. Explicavam-se assim o triunfo do Ocidente ou da superior raça branca e ariana, a revolta daqueles “bárbaros” e “selvagens” que eram os operários e as convulsões incessantes de um país como a França, devastado pela miscigenação. Em outros momentos, a natureza a que se remetia tinha um significado mais brando. Para Tocqueville não havia dúvidas: o triunfo da “raça europeia” sobre “todas as demais raças” era vontade da Providência; a conduta mais ordenada da Inglaterra e dos Estados Unidos era a prova do mais robusto senso moral e senso prático dos anglo-saxões em comparação com os franceses, os quais eram devastados pela loucura revolucionária ou pelo “vírus de uma espécie nova e desconhecida”. Como se vê, o paradigma racial em sentido estrito (caro a Gobineau e Disraeli) tendia a ser substituído pelo paradigma etnológico-racial e pelo psicopatológico. Permanecia a referência a uma “natureza” mais ou menos imaginária e o abandono do terreno da história.
Foi sobre a onda da luta contra esta visão que Marx e Engels elaboraram a teoria da luta de classe. A marcha triunfal do Ocidente não se explicava nem com a hierarquia racial nem com os desígnios da Providência; ela exprimia o expansionismo da burguesia industrial e a sua tendência a construir o “mercado mundial” esmagando e explorando os povos e países mais débeis e mais atrasados. Os protagonistas das revoltas populares no Ocidente não eram bárbaros nem loucos; eram proletários, em seguida ao desenvolvimento industrial, tornavam-se cada vez mais numerosos e adquiriam uma consciência de classe mais madura. Em um país como os Estados Unidos o conflito social burguesia/proletariado era menos agudo, mas somente porque a expropriação e a deportação dos nativos permitia transformar em proprietários de terras uma parte consistente de proletários, enquanto a escravização dos negros tornava possível o controle férreo das “classes perigosas”. Mas tudo isto não tinha nada a ver com um superior senso moral e prático dos americanos, como foi confirmado pela sangrentíssima guerra civil, que entre os anos de 1861 e 1865 viu o confronto entre a burguesia industrial do Norte e a aristocracia proprietária de terras e escravista do Sul e, na última fase do conflito, os escravos (arregimentados no exército da União) contra os seus patrões ou ex-patrões.
Para compreender a ação histórica, é necessário remeter à história e à luta de classes, aliás às “lutas de classes” que assumem formas múltiplas e variegadas, entrelaçam-se umas às outras de modo peculiar e conferem uma configuração sempre diferente às diversas situações históricas.
Critica Liberale: O seu discurso parece, portanto, partir de uma leitura nova do legado de Marx e Engels?DL: A minha leitura de Marx e Engels pode surpreender, mas releiamos o Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda sociedade que existiu até agora é a história das lutas de classes” e estas assumem “formas diversas”. O recurso ao plural faz entender que aquela entre o proletariado e a burguesia ou entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias é apenas uma das lutas de classes. É também a luta de classes de uma nação que sofre a exploração colonial. Não é necessário, enfim, esquecer um ponto sobre o qual Engels insiste de modo particular: “a primeira opressão de classe coincide com aquela do sexo feminino por parte do masculino”; no âmbito da família tradicional “a mulher representa o proletariado”. Estamos, portanto, em presença de três grandes lutas de classes: os explorados e oprimidos são chamados a modificar radicalmente a divisão do trabalho e as relações de exploração e de opressão que subsistem em nível internacional, em um país singular e no âmbito da família.
Critica Liberale: Um discurso que vai longe, mas que pode ajudar a ler o passado com uma ótica nova.DL: Somente assim podemos compreender o século passado. Nos nossos dias, um historiador de grande sucesso, Niall Ferguson, escreve que na grande crise histórica da primeira metade do século 20, a “luta de classe”, aliás, “a presumida hostilidade entre o proletariado e a burguesia”, tem desempenhado um papel bem modesto; bem mais relevantes teriam sido as “divisões étnicas”. Contudo, argumentando de tal maneira, mantém-se firme no ponto de vista do nazismo que lia a guerra no Leste como uma “grande guerra racial”. Mas quais eram os objetivos reais daqueles? São explícitos os discursos secretos de Heinrich Himmler: “Se não enchermos os nossos campos de trabalho de escravos – neste aspecto posso definir a coisa de modo líquido e claro – de operários-escravos que construam as nossas cidades, os nossos povoados, as nossas fábricas, sem ter em conta as perdas”, o programa de colonização e germanização dos territórios conquistados na Europa oriental não poderá ser realizado. A luta de todo um povo para evitar o destino de escravos sob domínio de uma suposta raça de senhores e patrões é claramente uma luta de classes!
Um acontecimento análogo ocorre na Ásia, onde o Império do Sol Nascente imita o Terceiro Reich e retoma e radicaliza a tradição colonial. A luta de classes de todo um povo que luta para escapar da escravização encontra seu intérprete em Mao Tsetung, que em novembro de 1938 sublinha a “identidade entre a luta nacional e a luta de classes” que veio a se produzir nos países contra os quais o imperialismo japonês investiu. Como na Irlanda da qual fala Marx, a “questão social” se apresenta concretamente como “questão nacional”, também na China daquele tempo a forma concreta assumida pela “luta de classes” é a “luta nacional”.
Critica Liberale: A sua interpretação é tão heterodoxa, que poderiam abater-se sobre você, como ocorreu frequentemente no passado, críticas acesas também da parte da esquerda, além daquelas do mundo liberal.DL: Desafortunadamente, também na esquerda “radical” difundiu-se a visão de que a luta de classes se referiria exclusivamente ao conflito entre o proletariado e a burguesia, entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias. Chama a atenção de modo negativo a influência de uma eminente filósofa, Simone Weil, segundo a qual a luta de classes seria “a luta daqueles que obedecem contra aqueles que comandam”. Não é este o ponto de vista de Marx e Engels. Em primeiro lugar, aos seus olhos, é luta de classes também a que é conduzida por aqueles que exploram e oprimem. Ainda querendo concentrar-se na luta de classes de caráter emancipador, esta pode muito bem ser conduzida do alto, por “aqueles que comandam”. Tome-se a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. No campo de batalha se enfrentavam não os poderosos e os humildes, os ricos e os pobres, mas dois exércitos regulares. E, todavia, desde o início, Marx assinalou que o Sul era o campeão declarado da causa do trabalho escravagista e o Norte o campeão mais ou menos consciente da causa do trabalho “livre”. De modo totalmente inesperado, a luta de classes pela emancipação do trabalho tomava corpo em um exército regular, disciplinado e poderosamente armado. Em 1867, publicando o primeiro livro de O Capital, Marx indicava na Guerra de Secessão o “único acontecimento grandioso da história dos nossos dias”, com uma formulação que reclama à memória a definição da revolta operária de junho de 1848 como “o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias”. A luta de classes, a própria luta de classes emancipadora, pode assumir as formas mais diversas.
Depois da revolução de outubro, Lênin sublinha repetidamente : “A luta de classes continua; apenas mudou a sua forma”. O empenho para desenvolver as forças produtivas, melhorando as condições de vida das massas populares, ampliando a base social de consenso do poder soviético e reforçando a sua capacidade de atração sobre o proletariado ocidental e sobre os povos coloniais, tudo isto constituía a forma nova assumida na Rússia soviética pela luta de classes.
Critica Liberale: Como explicar este impressionante mal-entendido da teoria da luta de classes exatamente da parte da esquerda, que sobre a teoria do conflito social construiu boa parte da própria ação histórica?DL: A esquerda, mesmo a radical, resiste a compreender a teoria da luta de classes em Marx e Engels porque é influenciada pelo populismo. O populismo se apresenta aqui em duas formas conectadas entre si. A primeira já começamos a vê-la: é a transfiguração dos pobres, dos humildes, vistos como os únicos depositários dos autênticos valores morais e espirituais e os únicos possíveis protagonistas de uma luta de classes realmente emancipadora. É uma visão de que o próprio Manifesto do Partido Comunista já zombava, ao criticar o “ascetismo universal” e o “rude igualitarismo” e acrescenta: “nada mais fácil do que dar ao ascetismo cristão uma mão de verniz socialista”. Segundo Marx e Engels, esta visão caracteriza “os primeiros movimentos do proletariado”. Na realidade, esta primeira forma do populismo se manifestou com força na Rússia soviética, quando muitos operários, inclusive filiados ao partido bolchevique, condenaram a NEP como uma traição aos ideais socialistas. Uma réplica de tais processos e conflitos se manifestou na China quando, em polêmica contra a transfiguração do pauperismo e a visão do socialismo como distribuição “igualitária” da miséria, Deng Xiaoping chamou a realizar a “prosperidade comum”, a ser conseguida etapa após etapa (e mesmo através de múltiplas contradições). É nesse quadro que aparece o slogan “Ficar rico é glorioso!”, que suscitou tanto escândalo também na esquerda ocidental.
A segunda forma de populismo encontra sua expressão mais eloquente, e mais ingênua, de novo em Simone Weil quando nos anos 1930 imagina um enfrentamento homogêneo no plano planetário e decisivo de uma vez para sempre: enfrentar-se-iam o “conjunto dos patrões contra o conjunto dos operários”; seria uma “guerra conduzida pelo conjunto dos aparatos do Estado e os estados maiores contra o conjunto dos homens válidos e em idade de empunhar armas”, uma guerra que vê o enfrentamento entre o conjunto dos generais e o conjunto dos soldados! Nesta perspectiva não está mais o problema da análise das formas de luta de classes de tempos em tempos diferentes nas diversas situações nacionais e nos diversos sistemas sociais. Em toda a parte estaria em ação uma única contradição em estado puro: aquela que contrapõe os ricos e os pobres, os poderosos e os humildes.
É evidente a influência que esta segunda forma de populismo continua a realizar ainda nos nossos dias, em particular na esquerda ocidental: quando no afortunadíssimo livro de Hardt e Negri, O Império, lemos a tese segundo a qual no mundo de hoje a uma burguesia substancialmente unificada em nível planetário se contraporia uma “multidão”, esta própria unificada pelo desaparecimento das barreiras estatais e nacionais, quando lemos isto, não podemos deixar de pensar na visão que foi cara a Simone Weil.
Critica Liberale: Esta sua empenhada reconstrução do problema fornece uma chave de leitura para hoje?DL: Certamente! Permanecem em ação as três formas fundamentais da luta de classes analisadas por Marx e Engels. Nos países capitalistas avançados a crise econômica, a polarização social, a crescente desocupação e precarização, o desmantelamento do Estado social, tudo isto torna agudo o conflito entre o trabalho assalariado e uma elite privilegiada cada vez mais restrita. É uma situação que compromete algumas das conquistas sociais das mulheres, cuja luta de emancipação torna-se particularmente difícil em países que não alcançaram o estádio da modernidade. Quanto ao Terceiro Mundo, a luta de classes continua ainda a manifestar-se em medida considerável como luta nacional. Isto é imediatamente evidente para o povo palestino, cujos direitos nacionais são pisoteados pela ocupação militar e pelos assentamentos coloniais. Mas a dimensão nacional da luta de classes não desapareceu nem sequer nos países que se libertaram da sujeição colonial. Estes são chamados a lutar não contra uma, mas também contra dois tipos de desigualdade: por um lado devem reduzir a disparidade social em seu interior; por outro lado, devem preencher ou atenuar a distância que os separa dos países mais avançados. Os países que, sobretudo na África, descuidaram dessa segunda tarefa e que não compreenderam a necessidade de passar em dado momento da fase militar à fase econômica da revolução anticolonial, tais países não têm nenhuma real independência econômica e estão expostos à agressão ou à desestabilização promovida ou favorecida a partir do exterior.
Temos, portanto, três formas de lutas de classes emancipadoras, entre as quais não há uma harmonia pré-estabelecida: como combiná-las nas diversas situações nacionais e em nível internacional de modo que possamos confluir em um único processo de emancipação, é este o desafio com que tem que se defrontar uma esquerda autêntica.
Fonte: Blog da Resistência www.zereinaldo.blog.br
Tradução: José Reinaldo Carvalho
Critica Liberale: Se não entendemos mal, você amplia bastante o campo semântico da expressão “luta de classes”, compreendendo em seu interior uma gama de problemas e questões muito mais amplas?
DL: Sim, Marx e Engels chamavam a atenção não somente para a exploração que tem lugar no âmbito de um país singular, mas também para a “exploração de uma nação por parte de outra”. Outrossim, nesse segundo caso temos a ver com uma luta de classe. Na Irlanda, onde os camponeses eram sistematicamente expropriados pelos colonos ingleses, a “questão social” assumia a forma de “questão nacional”, e a luta de libertação nacional do povo irlandês não só era uma luta de classes, mas uma luta de classes de particular relevância: é nas colônias de fato – observa Marx – que “a intrínseca barbárie da civilização burguesa” se revela na sua nudez e em toda a sua repugnância.
Critica Liberale: Pode-se explicar melhor a gênese histórico-filosófica desta sua leitura tão incomum a respeito de categorias tradicionais?DL: A cultura do século 19 era chamada a responder a três desafios teóricos. Em primeiro lugar, de que modo explicar a marcha irresistível do Ocidente, que com o seu expansionismo colonial subordinava todo o planeta, esmagando até mesmo países de antiquíssima civilização como a China? Em segundo lugar, enquanto triunfava no plano internacional, o Ocidente se via ameaçado internamente pela revolta das massas populares que pela primeira vez irrompiam, e de maneira avassaladora, na cena da história. Pois bem, quais eram as causas desse fenômeno inaudito e aflitivo? Em terceiro lugar, o Ocidente apresentava um quadro bastante diferenciado de país a país. Se na Inglaterra e nos Estados Unidos assistia-se a um desenvolvimento gradual e pacífico em nome de uma liberdade bem ordenada, totalmente diferente era o caso da França: aqui à revolução se sucedia a contrarrevolução, por sua vez varrida por uma nova revolução; a partir de 1789, os mais diferentes regimes políticos (monarquia absoluta, monarquia constitucional, terror jacobino, ditadura militar napoleônica, império, república democrática, bonapartismo) se sucederam um ao outro, sem que jamais se realizasse a liberdade com ordem. Bem, qual era a maldição que pesava sobre a França? A todos estes três desafios teóricos a cultura dominante do século 19 respondia remetendo de um ou outro modo à “natureza”. Para dizer com Disraeli, a raça é “a chave da história”, “tudo é raça e não existe outra verdade”, e a definir uma raça “é só uma coisa, o sangue”; esta era também a opinião de Gobineau. Explicavam-se assim o triunfo do Ocidente ou da superior raça branca e ariana, a revolta daqueles “bárbaros” e “selvagens” que eram os operários e as convulsões incessantes de um país como a França, devastado pela miscigenação. Em outros momentos, a natureza a que se remetia tinha um significado mais brando. Para Tocqueville não havia dúvidas: o triunfo da “raça europeia” sobre “todas as demais raças” era vontade da Providência; a conduta mais ordenada da Inglaterra e dos Estados Unidos era a prova do mais robusto senso moral e senso prático dos anglo-saxões em comparação com os franceses, os quais eram devastados pela loucura revolucionária ou pelo “vírus de uma espécie nova e desconhecida”. Como se vê, o paradigma racial em sentido estrito (caro a Gobineau e Disraeli) tendia a ser substituído pelo paradigma etnológico-racial e pelo psicopatológico. Permanecia a referência a uma “natureza” mais ou menos imaginária e o abandono do terreno da história.
Foi sobre a onda da luta contra esta visão que Marx e Engels elaboraram a teoria da luta de classe. A marcha triunfal do Ocidente não se explicava nem com a hierarquia racial nem com os desígnios da Providência; ela exprimia o expansionismo da burguesia industrial e a sua tendência a construir o “mercado mundial” esmagando e explorando os povos e países mais débeis e mais atrasados. Os protagonistas das revoltas populares no Ocidente não eram bárbaros nem loucos; eram proletários, em seguida ao desenvolvimento industrial, tornavam-se cada vez mais numerosos e adquiriam uma consciência de classe mais madura. Em um país como os Estados Unidos o conflito social burguesia/proletariado era menos agudo, mas somente porque a expropriação e a deportação dos nativos permitia transformar em proprietários de terras uma parte consistente de proletários, enquanto a escravização dos negros tornava possível o controle férreo das “classes perigosas”. Mas tudo isto não tinha nada a ver com um superior senso moral e prático dos americanos, como foi confirmado pela sangrentíssima guerra civil, que entre os anos de 1861 e 1865 viu o confronto entre a burguesia industrial do Norte e a aristocracia proprietária de terras e escravista do Sul e, na última fase do conflito, os escravos (arregimentados no exército da União) contra os seus patrões ou ex-patrões.
Para compreender a ação histórica, é necessário remeter à história e à luta de classes, aliás às “lutas de classes” que assumem formas múltiplas e variegadas, entrelaçam-se umas às outras de modo peculiar e conferem uma configuração sempre diferente às diversas situações históricas.
Critica Liberale: O seu discurso parece, portanto, partir de uma leitura nova do legado de Marx e Engels?DL: A minha leitura de Marx e Engels pode surpreender, mas releiamos o Manifesto do Partido Comunista: “A história de toda sociedade que existiu até agora é a história das lutas de classes” e estas assumem “formas diversas”. O recurso ao plural faz entender que aquela entre o proletariado e a burguesia ou entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias é apenas uma das lutas de classes. É também a luta de classes de uma nação que sofre a exploração colonial. Não é necessário, enfim, esquecer um ponto sobre o qual Engels insiste de modo particular: “a primeira opressão de classe coincide com aquela do sexo feminino por parte do masculino”; no âmbito da família tradicional “a mulher representa o proletariado”. Estamos, portanto, em presença de três grandes lutas de classes: os explorados e oprimidos são chamados a modificar radicalmente a divisão do trabalho e as relações de exploração e de opressão que subsistem em nível internacional, em um país singular e no âmbito da família.
Critica Liberale: Um discurso que vai longe, mas que pode ajudar a ler o passado com uma ótica nova.DL: Somente assim podemos compreender o século passado. Nos nossos dias, um historiador de grande sucesso, Niall Ferguson, escreve que na grande crise histórica da primeira metade do século 20, a “luta de classe”, aliás, “a presumida hostilidade entre o proletariado e a burguesia”, tem desempenhado um papel bem modesto; bem mais relevantes teriam sido as “divisões étnicas”. Contudo, argumentando de tal maneira, mantém-se firme no ponto de vista do nazismo que lia a guerra no Leste como uma “grande guerra racial”. Mas quais eram os objetivos reais daqueles? São explícitos os discursos secretos de Heinrich Himmler: “Se não enchermos os nossos campos de trabalho de escravos – neste aspecto posso definir a coisa de modo líquido e claro – de operários-escravos que construam as nossas cidades, os nossos povoados, as nossas fábricas, sem ter em conta as perdas”, o programa de colonização e germanização dos territórios conquistados na Europa oriental não poderá ser realizado. A luta de todo um povo para evitar o destino de escravos sob domínio de uma suposta raça de senhores e patrões é claramente uma luta de classes!
Um acontecimento análogo ocorre na Ásia, onde o Império do Sol Nascente imita o Terceiro Reich e retoma e radicaliza a tradição colonial. A luta de classes de todo um povo que luta para escapar da escravização encontra seu intérprete em Mao Tsetung, que em novembro de 1938 sublinha a “identidade entre a luta nacional e a luta de classes” que veio a se produzir nos países contra os quais o imperialismo japonês investiu. Como na Irlanda da qual fala Marx, a “questão social” se apresenta concretamente como “questão nacional”, também na China daquele tempo a forma concreta assumida pela “luta de classes” é a “luta nacional”.
Critica Liberale: A sua interpretação é tão heterodoxa, que poderiam abater-se sobre você, como ocorreu frequentemente no passado, críticas acesas também da parte da esquerda, além daquelas do mundo liberal.DL: Desafortunadamente, também na esquerda “radical” difundiu-se a visão de que a luta de classes se referiria exclusivamente ao conflito entre o proletariado e a burguesia, entre o trabalho assalariado e as classes proprietárias. Chama a atenção de modo negativo a influência de uma eminente filósofa, Simone Weil, segundo a qual a luta de classes seria “a luta daqueles que obedecem contra aqueles que comandam”. Não é este o ponto de vista de Marx e Engels. Em primeiro lugar, aos seus olhos, é luta de classes também a que é conduzida por aqueles que exploram e oprimem. Ainda querendo concentrar-se na luta de classes de caráter emancipador, esta pode muito bem ser conduzida do alto, por “aqueles que comandam”. Tome-se a Guerra de Secessão nos Estados Unidos. No campo de batalha se enfrentavam não os poderosos e os humildes, os ricos e os pobres, mas dois exércitos regulares. E, todavia, desde o início, Marx assinalou que o Sul era o campeão declarado da causa do trabalho escravagista e o Norte o campeão mais ou menos consciente da causa do trabalho “livre”. De modo totalmente inesperado, a luta de classes pela emancipação do trabalho tomava corpo em um exército regular, disciplinado e poderosamente armado. Em 1867, publicando o primeiro livro de O Capital, Marx indicava na Guerra de Secessão o “único acontecimento grandioso da história dos nossos dias”, com uma formulação que reclama à memória a definição da revolta operária de junho de 1848 como “o acontecimento mais colossal na história das guerras civis europeias”. A luta de classes, a própria luta de classes emancipadora, pode assumir as formas mais diversas.
Depois da revolução de outubro, Lênin sublinha repetidamente : “A luta de classes continua; apenas mudou a sua forma”. O empenho para desenvolver as forças produtivas, melhorando as condições de vida das massas populares, ampliando a base social de consenso do poder soviético e reforçando a sua capacidade de atração sobre o proletariado ocidental e sobre os povos coloniais, tudo isto constituía a forma nova assumida na Rússia soviética pela luta de classes.
Critica Liberale: Como explicar este impressionante mal-entendido da teoria da luta de classes exatamente da parte da esquerda, que sobre a teoria do conflito social construiu boa parte da própria ação histórica?DL: A esquerda, mesmo a radical, resiste a compreender a teoria da luta de classes em Marx e Engels porque é influenciada pelo populismo. O populismo se apresenta aqui em duas formas conectadas entre si. A primeira já começamos a vê-la: é a transfiguração dos pobres, dos humildes, vistos como os únicos depositários dos autênticos valores morais e espirituais e os únicos possíveis protagonistas de uma luta de classes realmente emancipadora. É uma visão de que o próprio Manifesto do Partido Comunista já zombava, ao criticar o “ascetismo universal” e o “rude igualitarismo” e acrescenta: “nada mais fácil do que dar ao ascetismo cristão uma mão de verniz socialista”. Segundo Marx e Engels, esta visão caracteriza “os primeiros movimentos do proletariado”. Na realidade, esta primeira forma do populismo se manifestou com força na Rússia soviética, quando muitos operários, inclusive filiados ao partido bolchevique, condenaram a NEP como uma traição aos ideais socialistas. Uma réplica de tais processos e conflitos se manifestou na China quando, em polêmica contra a transfiguração do pauperismo e a visão do socialismo como distribuição “igualitária” da miséria, Deng Xiaoping chamou a realizar a “prosperidade comum”, a ser conseguida etapa após etapa (e mesmo através de múltiplas contradições). É nesse quadro que aparece o slogan “Ficar rico é glorioso!”, que suscitou tanto escândalo também na esquerda ocidental.
A segunda forma de populismo encontra sua expressão mais eloquente, e mais ingênua, de novo em Simone Weil quando nos anos 1930 imagina um enfrentamento homogêneo no plano planetário e decisivo de uma vez para sempre: enfrentar-se-iam o “conjunto dos patrões contra o conjunto dos operários”; seria uma “guerra conduzida pelo conjunto dos aparatos do Estado e os estados maiores contra o conjunto dos homens válidos e em idade de empunhar armas”, uma guerra que vê o enfrentamento entre o conjunto dos generais e o conjunto dos soldados! Nesta perspectiva não está mais o problema da análise das formas de luta de classes de tempos em tempos diferentes nas diversas situações nacionais e nos diversos sistemas sociais. Em toda a parte estaria em ação uma única contradição em estado puro: aquela que contrapõe os ricos e os pobres, os poderosos e os humildes.
É evidente a influência que esta segunda forma de populismo continua a realizar ainda nos nossos dias, em particular na esquerda ocidental: quando no afortunadíssimo livro de Hardt e Negri, O Império, lemos a tese segundo a qual no mundo de hoje a uma burguesia substancialmente unificada em nível planetário se contraporia uma “multidão”, esta própria unificada pelo desaparecimento das barreiras estatais e nacionais, quando lemos isto, não podemos deixar de pensar na visão que foi cara a Simone Weil.
Critica Liberale: Esta sua empenhada reconstrução do problema fornece uma chave de leitura para hoje?DL: Certamente! Permanecem em ação as três formas fundamentais da luta de classes analisadas por Marx e Engels. Nos países capitalistas avançados a crise econômica, a polarização social, a crescente desocupação e precarização, o desmantelamento do Estado social, tudo isto torna agudo o conflito entre o trabalho assalariado e uma elite privilegiada cada vez mais restrita. É uma situação que compromete algumas das conquistas sociais das mulheres, cuja luta de emancipação torna-se particularmente difícil em países que não alcançaram o estádio da modernidade. Quanto ao Terceiro Mundo, a luta de classes continua ainda a manifestar-se em medida considerável como luta nacional. Isto é imediatamente evidente para o povo palestino, cujos direitos nacionais são pisoteados pela ocupação militar e pelos assentamentos coloniais. Mas a dimensão nacional da luta de classes não desapareceu nem sequer nos países que se libertaram da sujeição colonial. Estes são chamados a lutar não contra uma, mas também contra dois tipos de desigualdade: por um lado devem reduzir a disparidade social em seu interior; por outro lado, devem preencher ou atenuar a distância que os separa dos países mais avançados. Os países que, sobretudo na África, descuidaram dessa segunda tarefa e que não compreenderam a necessidade de passar em dado momento da fase militar à fase econômica da revolução anticolonial, tais países não têm nenhuma real independência econômica e estão expostos à agressão ou à desestabilização promovida ou favorecida a partir do exterior.
Temos, portanto, três formas de lutas de classes emancipadoras, entre as quais não há uma harmonia pré-estabelecida: como combiná-las nas diversas situações nacionais e em nível internacional de modo que possamos confluir em um único processo de emancipação, é este o desafio com que tem que se defrontar uma esquerda autêntica.
Fonte: Blog da Resistência www.zereinaldo.blog.br
Tradução: José Reinaldo Carvalho
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